Crítica

A casa das bonecas de luxo

O novo filme do realizador Paul Thomas Anderson é idiossincrático, singular, imersivo: um feitiço resplandecente e obsessivo inspirado por um século de cinema.

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Um feitiço perverso onde o melodrama clássico desfila como outros tantos vestidos de alta costura
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Linha Fantasma é um daqueles filmes para os quais o cinema se criou enquanto experiência de imersão em sala; ver estas imagens, estes rostos no maior écrã possível, enquanto o romantismo malsão da música de Jonny Greenwood nos aconchega. Ao longo de duas horas, Paul Thomas Anderson cria um feitiço preciso e perverso, onde as referências formais e as convenções narrativas do melodrama clássico desfilam como outros tantos vestidos de alta costura que nos enchem a vista. Mas já conhecemos o autor de Magnólia e Haverá Sangue e o suficiente para sabermos que o que se esconde por trás da fachada, por mais luxuosa que ela seja, é o que interessa. O importante, aqui, é que essa fachada é parte integrante da própria substância do filme. Tudo está, literalmente, cosido na própria bainha dos tecidos que Reynolds Woodcock utiliza nas suas criações. Para quem souber ver, está tudo à vista.

O que não está forçosamente à vista é exactamente o que é Linha Fantasma. A história, no papel, parece simples: na Londres dos anos 1950, um costureiro celibatário e perfeccionista apaixona-se por uma jovem criada de hotel que torna na sua musa, amante e, até certo ponto, boneca que quer moldar ao seu ideal. Mas Reynolds é, literalmente, casado com a sua arte, e Alma, que não quer ser apenas uma boneca nas mãos de alguém, tem de decidir se vai à luta ou se se deixa ficar. Podia ser uma alta comédia de Cukor (na atenção às personagens), um drama de Powell e Pressburger (no subtexto da afirmação), um melodrama de Minnelli (nas cores resplandecentes), ou apenas uma variação sobre o Pigmalião de George Bernard Shaw. E é isso tudo, ora ao mesmo tempo ora alternadamente.

Mas de repente há outra coisa, algo de gótico, de equívoco, e há uma sombra de Hitchcock a passar por ali (da Rebecca, sim, mas também do Difamação), ou uma ponte estranha com a Vítima do Medo de Powell ou o Obcecado do Wyler; e Anderson volta a cruzar a lógica formal dos anos 1950 com as narrativas mais livres e esquivas dos anos 1970, a instalar-se numa terra de ninguém que é só sua. Linha Fantasma é um braço de ferro entre uma estrutura social à beira do fim que Reynolds recusa abandonar e uma nova liberdade em ascensão simbolizada na decisão de Alma de não ser apenas “boneca de luxo”. Tudo codificado em gestos elegantes e decisivos e fragmentos de fantasmas que reaparecem a espaços, filmados por Anderson com um requinte perverso, quase tabu. E quem sabe se Reynolds não é o próprio Anderson, numa metáfora do realizador obsessivo que precisa de se soltar mas não sabe como?

Na verdade, isso pouco ou nada interessa. Amanhã, podemos achar que Linha Fantasma é outra coisa, porque este filme parece mudar de cor ou revelar novos matizes cada vez que é observado de perto. Não vale a pena dizer que os actores são todos fabulosos (e é injusto louvar apenas Daniel Day-Lewis, porque Lesley Manville e, sobretudo, Vicky Krieps estão ao mesmo nível dele), nem que Paul Thomas Anderson continua a desenhar um percurso singular, idiossincrático, como um dos grandes cineastas do mundo. O que vale a pena dizer é que este filme que se parece com tantos outros não se parece com nada que tenhamos visto. É para filmes assim que se inventou o cinema.