Um humorista que nasceu numa biblioteca pôs os miúdos a pensar, mais do que a rir

Ricardo Araújo Pereira foi ao Palácio de Belém declarar o seu amor às palavras, “mais do que aos beijos”. Porque, afinal, “é preciso muita consistência para fazer rir todos os dias”.

Ricardo Araújo Pereira e Marcelo Rebelo de Sousa no final de mais uma sessão de Escritores no Palácio
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Ricardo Araújo Pereira e Marcelo Rebelo de Sousa no final de mais uma sessão de Escritores no Palácio Nuno Ferreira Santos

Um humorista levou a sério a tarefa de falar como escritor a quatro dezenas de adolescentes e a conversa serviu para quebrar um mito. Afinal, fazer rir dá muito trabalho, exige muito estudo, muita leitura, “muita consistência”. Ricardo Araújo Pereira não o disse assim, mas se os alunos da Murtosa que o foram ouvir ao Palácio de Belém esta terça-feira iam com as gargalhadas prontas a disparar, o humorista deu-lhes um banho de água fria. Pô-los a pensar ao contrário, como fazem os humoristas.

Apresentado como escritor, mas também como o autor da terceira vaga da comédia portuguesa, pelo seu companheiro do Governo Sombra Pedro Mexia, assessor presidencial para a cultura, Ricardo Araújo Pereira tinha feito os trabalhos de casa e fez desta sessão dos Escritores no Palácio uma aula de análise de textos. Enquanto distribuía o Soneto já antigo, de Álvaro de Campos, com o qual queria mostrar que “tudo é engano”, um professor perguntou-lhe como é que uma educação católica criou um ateu e a frequência de uma biblioteca o ajudou a transformar-se num perigoso esquerdista.

“Não sou um perigoso esquerdista, sou mais uma espécie de híbrido: digo coisas suficientemente à esquerda para desagradar à direita, mas não o suficiente para agradar à esquerda”, respondeu. Confirmou ter andado em colégios de freiras e padres e depois na Universidade Católica, “apesar de ser ateu”, mas ao longo da conversa citou duas vezes a Bíblia. Primeiro o Livro de Eclesiastes, do Antigo Testamento - “O que há a fazer é comer, beber e divertir-se” -, quando lhe perguntaram se defende o epicurismo. Mais tarde, quando insistia na sua declaração de amor pelas palavras, dizendo que gostava mais delas do que de beijos: “Uma figura que é o filho de Deus, e veio dizer-nos palavras notáveis, foi traída. Como? Com um beijo”.

Foi desta paixão pelas palavras, perdendo-se em bibliotecas, que nasceu o humorista. Na biblioteca do colégio jesuíta, conheceu José Gomes Ferreira – “Gaveta de Nuvens, O Mundo dos Outros” – e Mário de Carvalho – “A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho”; depois na biblioteca da universidade, “onde se permitia o acesso às estantes, o que é excelente para o nosso crescimento pessoal e péssimo para as notas”.

“As histórias têm uma grande capacidade de nos perturbar”, sustentava Ricardo Araújo Pereira, que ora ia buscar As Mil e Uma Noites para falar desse poder das histórias, ora usava o Cyrano de Bergerac para explicar como nasceram os Gato Fedorento: da necessidade de saber se o público se ria do Herman José e da Maria Ruef, ou se era mesmo dos textos que os quatro "gatos" escreviam para eles.

Mas “o impacto com fama foi muito súbito e bruto, não estávamos preparados”, reconheceu. Por isso, os quatro amigos, que ainda se encontram todas as semanas, seguiram os seus caminhos. Ricardo Araújo Pereira acabaria, aliás, por dizer que “a coisa com mais repercussão”, mais “gratificante”, que fez até hoje foi a rubrica radiofónica Mixórdia de Temáticas. Mas também se referiu ao sucesso do programa de entrevistas que costuma fazer em altura de eleições, Gato Fedorento esmiúça os sufrágios: “É como se as pessoas gostassem de ver um palhaço a atirar fruta podre ao senhor sério”.

Ali, na Sala dos Embaixadores do palácio presidencial, não houve fruta podre nem ninguém estava muito sério, com as picardias picantes com que ia salpicando a aula em que ensinou que “a comédia vira as coisas ao contrário”. Marcelo Rebelo de Sousa foi uma presença discreta e intermitente, por entre a sua agenda oficial.

O encontro terminou, como é hábito, na varanda, onde os alunos o surpreenderam ao cantar versos da rábula dos Gato Fedorento Rústicos pelo Epicurismo: “Nós vamos passar a ser húmus / que é uma espécie de cocó”. “Foi um momento punk. Ao mesmo tempo que cantavam este lindo poema, decorre na sala ao lado um encontro ao mais alto nível", disse Ricardo Araújo Pereira referindo-se à reunião entre o Presidente da República e o presidente do Supremo Tribunal Administrativo.

A verdade é que este benfiquista dos sete costados estava abatido, no dia em que o presidente do seu clube foi constituído arguido. “Uma derrota custa, mas na jornada seguinte há outro jogo, na época seguinte há outra taça. Agora, o nome do clube estar envolvido em casos judiciais é uma mancha mais difícil de tirar. E essa, sim, preocupa-me", disse aos jornalistas. “As cores do Benfica são o vermelho e o branco porque transmitem a vivacidade e a alegria, e o símbolo do Benfica é uma águia porque é um animal que simboliza a elevação de princípios. Ora, um clube que foi fundado sob esse signo não merece estar envolvido em problemas como este", lamentou.

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