Miguel Manso
Foto
Miguel Manso

Megafone

Vamos debater turismo a sério?

É urgente pôr fim ao estereótipo de Portugal como apenas destino gastronómico, barato e com bom clima. O país tem outras vantagens comparativas, entre elas a cultura

Ninguém acreditaria que a romântica Veneza, a artística Barcelona ou a paradisíaca Santorini constassem de uma lista de destinos a evitar em 2018. A verdade é que a CNN fez essa lista e os destinos referidos constam nas 12 cidades que têm sido negativamente afectadas por turismo em massa e, em alguns casos, sofrido descaracterização, sendo alvo de críticas por parte dos locais. Como poderá Portugal evitar seguir o mesmo destino?

A resposta a esta pergunta, debatendo e analisando os riscos do turismo em Portugal, tornou-se repetitiva e consequentemente desinteressante. Desde as identidades de Lisboa — que tão bem representada foi por Alain Tanner em In the White City (1983) ou por Wim Wenders em Lisbon Story (1994) — e Porto estarem a mudar, à substituição de comércio tradicional por grandes superfícies, às residências em centros históricos transformadas em estabelecimentos hoteleiros. Não obstante a realidade destes riscos e urgência de os combater, gostaria de propor uma outra perspectiva sobre o tema: como podemos beneficiar do turismo para desenvolver o país, evitando que este se torne prejudicial.

Em primeiro lugar, defendo que vivemos uma oportunidade de retirar vantagem de uma aproximação cultural sem precedentes. Durante várias décadas, Portugal viveu muito afastado do exterior, nomeadamente de muitos países cultural e economicamente mais evoluídos. Graças à diversidade de turistas (muito alavancada pela globalização e outros fenómenos), temos a possibilidade de conviver com pessoas de todos os cantos do mundo, de cujo contacto podemos beneficiar a vários níveis: aprendizagem, comercial, ou criação de uma rede de contactos estratégica. Em bom exemplo, alguns turistas têm acabado por se fixar em Portugal, abrir o seu próprio negócio, integrando costumes muito portugueses, sem que com isso se verifique qualquer sinal de descaracterização.

Em segundo lugar, enfrentamos uma óptima oportunidade de desenvolver o turismo do interior do país através da descentralização do mesmo. Portugal não se deve resumir a Lisboa e Porto, apesar destas reunirem uma grande concentração demográfica, institucional e de serviços, e de representarem uma fatia considerável das dormidas turísticas. O país tem muito mais para explorar (Minho, Trás-os-Montes, Beiras, Alentejo, Açores, entre outras), nomeadamente no turismo de aventura, mas não só. Contudo, para que tal aconteça é necessário que essas regiões tenham à disposição instrumentos necessários com vista ao desenvolvimento regional. A vantagem desta acção não se resume ao progresso local: torna-se também possível diluir a concentração turística em Lisboa, Porto e Algarve.

Finalmente, é urgente pôr fim ao estereótipo de Portugal como apenas destino gastronómico, barato e com bom clima. O país tem outras vantagens comparativas, entre elas a cultura. Nas diferentes artes, o país tem nomes de excelência que podem perfeitamente estar entre a elite europeia, fosse outro o apoio do Estado. Assim sendo, poderá ser vantajoso tirar partido do crescimento turístico para que a arte portuguesa ganhe outra visibilidade e, consequentemente, notoriedade. Para além disso, escrevemos uma página única na história que não temos sido capazes de reproduzir de forma apropriada. Países como Itália e Grécia, por exemplo, são capazes de atrair turistas interessados no Império Romano e Grécia Antiga, respectivamente. Portugal deve seguir o mesmo caminho, atraindo turistas fascinados pela época dos Descobrimentos, entre outras. Se formos capazes de o fazer, podemos não só atrair um tipo de turismo mais diversificado, como também tornar as instituições culturais do país mais robustas, interessantes e mais visitadas.

Não desvalorizando os riscos do turismo, o seu exagerado debate tem feito as pessoas esquecer como este pode ser tornado numa vantagem para o país. Para que tal aconteça devemos moldá-lo para que se torne um activo, não o limitando a um intermediário para atingir contas públicas sãs. Caso contrário, as nossas cidades correm o risco de sofrer da mesma doença das cidades descritas no artigo da CNN. Mas de também revivermos um pesadelo, como tão bem lembrou Catarina Portas: "Estragámos o Algarve nos anos 70, não aprendemos nada com isto?"