Assédio sexual

Pelos menos 25 congressistas vão de preto ao discurso do Estado da União de Trump

Seguindo os passos de Hollywood, várias congressistas vão vestir preto durante o discurso do Estado da União de Trump, esta terça-feira, em sinal de apoio aos movimentos #MeToo e Time's Up.
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Nancy Pelosi, a líder dos democratas da Câmara dos Representantes, é uma das pelo menos 25 mulheres que confirmaram os planos de vestir preto para o discurso do Estado da União Leah Millis/REUTERS

No arranque da temporada de entregas de prémios, o apagão na passadeira vermelha dos Globos de Ouro deixou bem claro de que lado estão as figuras de Hollywood em relação os movimentos Time's Up e #MeToo. Apenas três mulheres não vestiram preto. Em antecipação ao primeiro discurso do Estado da União de Donald Trump – que acontece esta terça-feira, pelas 21h (2h do dia seguinte, em Portugal) – várias congressistas preparam-se para reproduzir o apagão de Hollywood.

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Por detrás do protesto está um grupo da Câmara dos Representantes, o Democratic Women's Working Group (DWWG), de acordo com a Refinery 29, que confirmou junto de várias congressistas se planeiam ou não vestir preto para ouvir Trump discursar à nação, como sinal de apoio às "sobreviventes que decidiram falar". Pelo menos 25 disseram que sim.

O protesto não é limitado às legisladoras femininas, avisam. Nem mesmo a membros do partido Democrata. Antes, convidam qualquer homem ou mulher que participe no evento a juntar-se à causa.

Quando Trump se dirigiu, no ano passado, às duas câmaras do Congresso pela primeira vez – num discurso, que, tecnicamente, ainda não tinha o título de Estado da União – várias mulheres escolheram protestar através da cor da sua roupa, mas vestidas de branco. Evocavam, então, o movimento das sufragistas.

A própria Hillary Clinton vestiu um fato branco no seu discurso da convenção Democrata, em Julho de 2016, quando se tornou na primeira mulher a conseguir a nomeação de um dos dois grandes partidos norte-americanos para a eleição presidencial. De acordo com o New York Times, era uma clara referência ao movimento do início do século passado. Branco, além de roxo e dourado, eram as cores oficiais do movimento sufragista, esclarece ainda o jornal americano.

Além da escolha de roupa, algumas democratas decidiram este ano seguir os passos de actrizes como Meryl Streep e Amy Poehler, que nos Globos de Ouro convidaram activistas para as acompanhar. "Alguns membros [da Câmara de Representantes] vão trazer sobreviventes de abuso sexual e activistas como convidadas", confirma a assistente da congressista da Câmara dos Representantes Lois Frankel (líder do DWWG), de acordo com a NBC News.

A própria Lois Frankel comentou à Racked que ao usar preto os membros do Congresso querem "mostrar solidariedade com o movimento #MeToo, basicamente para agradecer, primeiro que tudo, às vítimas de assédio sexual que tiveram coragem de se assumir".

A Refinery 29 contactou todas as 106 mulheres da Câmara dos Representantes (que correspondem a 19,8% do número total de membros, 535) para saber se iriam usar preto no discurso do Estado da União e obteve a confirmação de 25.

"Estamos no meio de um movimento cultural e o Congresso tem de fazer mais para chamar a atenção para questões de abuso e assédio sexual. Não podemos deixar que o impulso do momento se dissipe. Não podemos deixar que estas questões escapem à nossa consciência cultural. Vamos vestir preto porque nos recusamos a recuar. Só há caminho em frente, sobretudo no Congresso", defende Grace Meng, membro da Câmara dos Representantes, de Nova Iorque. Para Carolyn Maloney – do mesmo estado –, "o movimento #MeToo e Time's Up estão ligados a uma mensagem muito importante: unidade". 

Além da escolha de preto, haverá ainda quem se apresente, por exemplo com um pin do Time's Up ou com um pin encarnado a representar Recy Taylor – uma mulher negra do estado de Alabama que foi raptada e violada por seis homens brancos em 1944 e que Oprah inclusive mencionou no seu célebre discurso dos Globos de Ouro.

Houve ainda quem considerasse convidar alegadas vítimas de Donald Trump, mas essa ideia terá esmorecido. A NBC News mantém anonimato da fonte que o confirma (uma congressista), mas aponta que uma das razões pelas quais Nancy Pelosi – líder dos democratas da Câmara dos Representantes – se tem oposto à concretização de audiências com as alegadas vítimas de Donald Trump é para evitar politizar a questão do assédio sexual, sob o risco de alienar o partido republicano.

Sobre o protesto, esta terça-feira, justificou à Refinery 29: "Estamos a apoiar as mulheres corajosas que se estão a fazer ouvir. Estamos num momento de mudança na luta nacional contra assédio sexual e discriminação e temos de manter o ritmo da acção, para haver verdadeiras mudanças."