Troço da muralha medieval que circunda o centro histórico de Beja ameaça derrocada

Mudança no executivo municipal protelou os trabalhos de consolidação do troço de muralha programados para Outubro passado. O local não está interdito ao público.

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São visíveis os sinais de degradação da muralha, cuja consolidação está já orçamentada DR

No último sábado, verificou-se o que já se admitia como muito provável: uma derrocada num troço da muralha medieval de Beja, junto à rua Capitão João Francisco de Sousa. O risco de um aluimento de maior dimensão “poderá colocar em perigo o resto da muralha e a integridade física de quem por lá passa”, alertam os vereadores da CDU no executivo municipal, que criticam o facto do local “nem sequer se encontrar assinalado” como estando em risco.

A segurança das pessoas também não foi acautelada. A cerca de meio metro da muralha, foi construída uma rampa em betão para facilitar o acesso à rua do Sembrano, a partir do parque Vista Alegre, que foi recentemente intervencionado. A queda de pedras ou da própria estrutura no seu todo passou a ser uma ameaça para quem ali passa.

O PÚBLICO constatou que a estrutura se encontra muito degradada e esburacada numa extensão de cerca de 50 metros, evidenciando sinais de vandalismo.

A queda de pedras veio pôr à vista um troço de muralha e uma porta que faziam parte da primitiva cerca romana que terá sido erguida entre o século III e o século IV, da nossa era e que, sabe-se hoje, integrava o plano geral de construção de muralhas nas províncias romanas.

Vítor Picado, vereador da CDU, adiantou que o executivo anterior, de que fazia parte, tinha já pronto um projecto de recuperação e consolidação do troço de muralha onde agora se verificou uma queda de pedras. “A manter-se o alheamento do actual executivo (PS), a cada dia que passa vai-se agravando o problema”, considera o autarca, frisando que a estrutura “já deveria ter sido intervencionada” pois, acentua, não se sabe em concreto qual a consistência da muralha, que naquele local terá cerca de cinco metros de altura e suporta uma barreira de terra ocupada por construções antigas, também elas muito degradadas.

Vítor Picado lembra que, durante a anterior gestão da CDU, chegou a ser realizada “uma intervenção provisória”. Foi então pedida uma avaliação do tipo de trabalho que deveria ser realizado e concluiu-se que a estrutura estava muito degradada e com pouca solidez. A sua consolidação implicava um investimento de 150 mil euros, verba que está contemplada no Orçamento da Câmara de Beja para 2018.

Paulo Arsénio, presidente da autarquia, adiantou ao PÚBLICO que a obra de recuperação da muralha, “já tinha sido adjudicada pelo anterior executivo”. Neste momento, “só falta o auto de consignação da obra”, refere o autarca, acrescentando que a verba para a sua execução “já está cabimentada”.

Reagindo às acusações da CDU, Paulo Arsénio diz que o parque Vista Alegre “não deveria ter sido inaugurado antes da obra estar completamente concluída”, uma vez que este equipamento está junto à muralha que vai ser intervencionada e onde agora ocorreu a derrocada. O espaço foi aberto ao público na última pré-campanha eleitoral para as autárquicas. O autarca sublinha que o parque não vai ser fechado ao público alegando que a segurança das pessoas está garantida.

Ana Paula Amendoeira, da direcção Regional de Cultura do Alentejo, disse ao PÚBLICO que já lhe foi comunicado o aluimento na muralha de Beja mas “ainda não é possível avançar com uma informação precisa” sobre o estado em que se encontra a estrutura. E refere que terá de ocorrer no imediato uma vistoria conjunta dos serviços técnicos da autarquia com elementos da Direcção Regional da Cultura e da Protecção Civil Municipal, advogando a urgente necessidade de “interditar temporariamente” o acesso onde se verificou a derrocada.   

A muralha medieval que circunda o centro histórico de Beja foi construída por cima da que delimitava o primitivo povoado romano. Foi no reinado de D. Afonso III que se iniciou a reconstrução da estrutura, assim como a respectiva actualização arquitectónica com vista às novas exigências de guerra. As obras, contudo, haveriam de se prolongar pelo reinado de D. Dinis e, em 1372, D. Fernando ordenou que se procedesse a obras na fortaleza. O plano de muralhas que limita a parte mais antiga da cidade foi conservado, com pequenas alterações, até à Guerra da Restauração. Subsistem hoje alguns dos seus 40 torreões e torres e quatro das sete portas que integravam a cerca militar.

Só em 1938 é que avançou a primeira intervenção de conservação e restauro nas muralhas do castelo de Beja, que tiveram continuidade em vários anos subsequentes.