A máquina exportadora precisa de mais trabalhadores

As empresas do sector da metalurgia e metalomecânica têm urgência em preencher 28 mil postos de trabalho e há novas empresas a chegar a Portugal a agravar a situação. Investimento público em inovação e formação é a resposta, mais a médio do que a curto prazo

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As empresas começam a fazer concorrência umas às outras na captação de trabalhadores Nelson Garrido

Não param de chegar boas notícias à secretária dos dirigentes da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e afins de Portugal (AIMMAP). Mês após mês, e desde o início do ano, o comportamento das exportações do sector continuam a desenhar uma trajectória de crescimento: em Novembro o crescimento homólogo chegou a 25%. São 1694 milhões de euros, o melhor valor mensal de sempre.

“É o décimo quinto mês consecutivo sempre acima dos mil milhões de euros. Nunca tínhamos ultrapassado os 1600 milhões e desta vez quase chegamos aos 1700”, revela Rafael Campos Pereira, vice-presidente executivo da AIMMAP. Se o ano de 2016 foi o melhor ano de sempre, com 14.596 milhões de euros exportados, os primeiros 11 meses de 2017 já permitiram ultrapassar os 15 mil milhões. “Isto resulta naturalmente do crescimento das empresas que já cá estão, mas também da entrada de novos players no sector”, analisa o responsável associativo, revelando que este movimento de investimento estrangeiro e de empresas que se deslocam de outros países da Europa e do mundo para Portugal está longe de abrandar.

A AIMMAP tem vindo a acompanhar estes movimentos de forma muito próxima, e sabe, por isso, que os próximos anúncios deverão ser feitos por parte de canadianos, que vão entrar no segmento de cabos de aço; de israelitas no mobiliário metálico; e de japoneses nos componentes para a indústria automóvel. O que é que torna Portugal tão competitivo neste sector? A AIMMAP enumera várias razões: a estabilidade laboral, absentismo menor, maior produtividade, terrenos acessíveis, salários mais baixos do que outros países da Europa e autarquias atentas e activas em captar investimento e criar postos de trabalho.

Todas estas notícias surgem numa altura em que o sector já é o principal exportador nacional (assegura quase 30% das exportações, através do trabalho de quase 23 mil empresas e 200 mil trabalhadores). Mas são notícias que continuam ensombradas pela dificuldade em arranjar a mão-de-obra para dar resposta às necessidades actuais – um problema que se vai, naturalmente, agravar com o anunciado e expectável crescimento do sector. De acordo com o último inquérito realizado pela AIMMAP a todos os seus associados, as indústrias da metalurgia e metalomecânica precisavam, a curto prazo, de 28 mil novos funcionários. Mas ninguém tem uma solução imediata para o problema.

À entrada do Cenfim - Centro de Formação Profissional da Indústria Metalúrgica e Metalomecânica, no núcleo que funciona na Trofa, o ecrã que está colocado em parte bem visível na recepção vai passando em rodapé anúncios sucessivos. Um serralheiro para a empresa X, um soldador para a empresa Y, um electromecânico para a Z, dois operadores CNC (comando numérico computorizado) para a empresa W. Têm todos dois pontos em comum: a data do anúncio, de Agosto do ano passado, e a disponibilidade imediata. A visita ao Centro foi feita em Janeiro e os anúncios em causa continuam por preencher, confirma Manuel Grilo, director nacional do Cenfim.

Centros de formação

As empresas começam a fazer concorrência umas às outras na captação de trabalhadores. E, depois, há a concorrência entre sectores, como o Turismo, mas também toda a área industrial, desde a construção ao têxtil a mostrar carência de mão-de-obra, explica Rafael Campos Pereira, admitindo que nem o facto de o sector da metalurgia ter salários médios superiores a outras áreas, e um contrato colectivo em que o salário mínimo é superior ao nacional, ajuda a atrair jovens.

Manuel Grilo confirma. Se o sector tem dificuldade em arranjar trabalhadores, o centro de formação tem dificuldade em arranjar jovens, ou desempregados, para abrir cursos de formação que têm empregabilidade praticamente garantida – a taxa de empregabilidade no núcleo da Trofa é de 92%. Os centros de emprego e formação profissional não enviam desempregados. Os Cursos de Aprendizagem destinados a jovens – dão equivalência ao 12ª ano e qualificação profissional – também têm dificuldades em garantir o número mínimo de alunos para funcionar.

Mas o principal problema que estes centros de formação enfrentaram, tal como todos os centros protocolares de outras áreas e sectores, nos últimos três anos, foi o facto de terem sido abrangidos pela reclassificação do sector empresarial do Estado, que os deixaram sujeitos a cativações. No ano passado não arrancou nenhum curso – apenas aqueles que se destinam a empresas, e são praticamente encomendados pelas próprias. “A roda foi completamente parada. E agora vai demorar a arrancar. Temos dificuldades em arranjar formadores, por exemplo”, explica Manuel Grilo.

O Cenfim é composto por 13 núcleos e Manuel Grilo está agora a trabalhar na extensão do pólo de Sines até Grândola, para servir os interesses da francesa Lauak, que vai abrir uma nova unidade de componentes para a aeronáutica em Grândola. A empresa vai recrutar 500 trabalhadores e quer arrancar com formação do primeiro grupo já em Abril. “Vai ser difícil qualificar para esta formação os primeiros desempregados em apenas três meses. Anda-se há dois anos a pensar neste investimento, mas, infelizmente a formação das pessoas fica sempre para o fim”, lamenta.

Todos estes problemas têm vindo a ser amplamente debatidos com a tutela, e Rafael Campos Pereira assume-se como um incorrigível optimista, apesar das suas expectativas positivas terem vindo a ser cada vez mais moderadas. “A experiência obrigou-me a refrear o entusiasmo. Mas alguma vez temos de aprender a fazer as coisas certas. E não tenho a menor dúvida que desta vez fazer as coisas certas é canalizar todos os fundos que temos, nomeadamente os estruturais, para as áreas da inovação e da formação”, defende.

O vice-presidente da AIMMAP acredita que a robotização e digitalização não vão “simplesmente” destruir postos de trabalho e que no final, entrando na equação a evolução demográfica negativa que o país atravessa, o saldo sairá equilibrado. “Serão eliminados postos mais obsoletos, mas vão surgir postos de trabalho com mais competências e valor acrescentado”, vaticinou.

Quem tem de liderar este processo? Rafael Campos Pereira não tem dúvidas: as empresas vão seguramente fazer os investimentos necessários para continuar a crescer e aumentar a produtividade. “Mas os investimentos na área da formação e inovação tem definitivamente fazer parte das políticas públicas”, defendeu, preconizando que essa aposta seja visível já na reprogramação do Portugal 2020. “Tem de ser formação a sério, e não uma forma de pagar as despesas do Ministério da Educação”, criticou.

Rafael Campos Pereira termina defendendo que essa aposta vai ter impactos também a nível social. “Se apanharmos bem este comboio, as novas gerações vão desempenhar profissões com maior valor acrescentado, serão mais estimulantes e atractivas para o jovens e, seguramente, mais bem remuneradas. Isto pode impulsionar o crescimento salarial com base no aumento de produtividade, sem nada de artificial".