Esta não é (só) uma história de 1937

A convite do Centro Cultural de Belém, Victor Hugo Pontes pôs dez miúdos dos 14 aos 20 anos (mais um bailarino e um actor profissionais) a imaginar onde estariam os Capitães da Areia de Jorge Amado se fossem menores em risco deste século XXI. Margem é um espectáculo para falar deles – e também de sexo, racismo, revolução e morte, entre outros assuntos difíceis.

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Victor Hugo Pontes olha para os corpos que tem à sua frente, corpos de miúdos sempre em trip de adrenalina, sempre com fome de tudo, sempre demasiado grandes para a roupa comprada no mês passado, e sabe que tem de fazer este espectáculo depressa. Mais depressa do que qualquer outro espectáculo em que não tivesse à sua frente dez miúdos entre os 14 e os 20 anos (e ainda dois intérpretes profissionais que aqui reencontra, o actor João Nunes Monteiro e o bailarino André Cabral) para os quais tem sido difícil, diz-nos, comprar figurinos.

Final de um dos últimos ensaios antes da estreia de sábado no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, onde Margem ficará até 1 de Fevereiro, elenco fora da sala porque caso contrário esta entrevista seria impossível – meia hora para recuperarem o fôlego ou fumarem mais uns cigarros nas escadas da porta dos artistas enquanto os adultos têm conversas de adultos sobre os miúdos que eles são na vida real e os miúdos que é suposto eles serem neste assalto aos Capitães da Areia (1937) de Jorge Amado. Conversas que são e não são sobre figurinos: “Eu agora tenho 12 filhos. É o que sinto quando ando à procura de sapatilhas para eles – e me apercebo de que daqui a um ano já não lhes servem”. Um azar para quem quer que este espectáculo circule pelo máximo de país possível – já estão confirmadas as idas a Braga (Theatro Circo), Torres Novas (Teatro Virgínia), Porto (Teatro do Campo Alegre/FITEI), Aveiro (Teatro Aveirense) e Ovar (Centro de Artes) –, uma sorte para quem estava à procura de intérpretes (vieram cem à audição) no auge da sua pujança física, da sua disponibilidade para usar e abusar do corpo até ao limite. “Interessava-me puxar pela energia do grupo – uma energia bruta, possante, porque com esta idade eles estão no seu expoente máximo. A música faz por isso, também: fui aconselhado a ir ter com os Throes + The Shine e acho que correu muito bem. Têm um som muito ligado às vibrações do próprio corpo, um som que faz mexer logo”, explica o coreógrafo, que, além da banda que inventou o rockuduro, também chamou Joana Craveiro, do Teatro do Vestido, para o ajudar a responder à encomenda da directora da Fábrica das Artes do CCB (além dos habituais F. Ribeiro, que pôs uma palmeira carbonizada a pairar sobre tudo, e Wilma Moutinho).

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Margem, conta ao Ípsilon, começou com um pedido de Madalena Wallenstein para que adaptasse o famoso romance agit-prop de Jorge Amado sobre um bando de miúdos de rua de Salvador da Bahia, amotinados num trapiche e olhados de cima, como carne podre, carne infectada, pela Cidade Alta. A esse pedido, Victor Hugo Pontes contrapôs um espectáculo que partisse dos Capitães da Areia para interrogar em quem terão reencarnado, aqui e agora. Foi encontrá-los, neste Portugal de início do século XX, em duas instituições de acolhimento para menores em risco, a Casa Pia, em Lisboa, e o Instituto Profissional do Terço, no Porto, onde decorreu parte inestimável do processo de criação de Margem: “Ainda se levantou a possibilidade de fazer o projecto com os miúdos que lá conhecemos, mas a logística comprometia a circulação da peça. Mas foi uma etapa importantíssima para a pesquisa do espectáculo – e fortíssima para mim. Estou em dívida com eles, tenho de ver como a vou saldar.”

Das entrevistas e dos workshops que lá realizaram, Victor Hugo Pontes e Joana Craveiro trouxeram material que acabou por se cruzar com a ficção de base, e que deslocou definitivamente a peça para um território que não é só o da dança: “Eu achei que não se podia fazer isto prescindindo da palavra, daí ter chamado a Joana para tratar do texto. E com ela surgem sempre camadas em cima de camadas: decidiu logo que também queria falar sobre eles – e sobre os intérpretes.”

O caleidoscópico jogo de espelhos que o texto introduz – entre os “nós” dos intérpretes e o “eles” dos miúdos de Jorge Amado, ou dos miúdos da Casa Pia, que normalmente ali vão parar “porque outrem, não eles, fez algo de errado” – atira Margem para uma zona que já não é só a casa onde se amontoam sobre colchões velhos esses “pobres como podres”, e onde às tantas é impossível distinguir a primeira da terceira pessoa (porque esses “nós” podiam ser “eles”, e há coisas em que são mesmo). O próprio processo de construção do espectáculo, que incluiu uma residência no Centro de Criação de Candoso, em Guimarães, onde passaram uma semana todos juntos, em comunidade, porque era preciso que aprendessem como é “viver uns com os outros e ter de cuidar uns dos outros” (“Não queria ter 12 intérpretes, no sentido de um mais um mais um mais um...; queria ter uma família”), fica então à vista. Expondo como foi difícil impor um livro, objecto obsoleto, a um elenco desta faixa etária, encontrar um patamar comum entre tão diferentes adolescências (dentro do grupo há quem ainda só tenha gostado de alguém à distância, e ficado “um bocado aleijado” por não ser recíproco, e quem já saiba o que é dormir com outra pessoa) ou gerir a consciência do privilégio e os limites da intrusão em cada visita às instituições.

Esta não é uma história de 1937 (ou só de 1937), lembra o espectáculo sempre que a música pára e eles deixam de suar – em grupo, como num bando. É uma história de agora, com a música de agora, e a maneira que temos agora de a dançar; com o que pensamos agora sobre os dias e as noites, as cidades e as periferias, os Descobrimentos e os genocídios, os brancos e os pretos, os ricos e os pobres, a vingança e a revolução, mais a violência e o sexo, que já não são exactamente o que eram, e o medo da morte, que continua a bater como sempre bateu.

Talvez seja muita fruta para estes 14 anos – ou para os 14 anos como os conhecemos há muito tempo, no século passado. E sim houve certa turbulência, e bastantes lágrimas, admite Victor Hugo Pontes, mas era agora ou nunca. Daqui a um ano, estarão crescidos para as sapatilhas que por estes dias vão usar.