O assombro multifacetado de BLEID

Electrónica densa movida a escavações sonoras e ritmos sincopados, onde tanto há espaço para imersões meditativas como para reconfigurar a música de dança. Eis BLEID, com o seu primeiro álbum.

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Tinha apenas dez seguidores no SoundCloud quando a promotora Filho Único a convidou para uma das suas noites mensais no Lounge, em Lisboa, algures no Verão de 2015. Foi a primeira vez que tocou ao vivo. E foi a primeira vez que alguém lhe disse “isto dá para dançar”. “Para mim foi muito estranho ver toda a gente a dançar. Nunca fui uma pessoa de clubbing, fã de sair à noite, e quando comecei a fazer música não tinha em mente a pista de dança. O facto de as pessoas associarem o que faço à música de dança foi o que me levou para ela”, diz BLEID, 23 anos, que deixou rapidamente de ser um segredo bem guardado para se tornar num dos nomes mais valiosos e inventivos da nova geração da música electrónica nacional – vamos poder ouvi-la este sábado na ZDB, na festa do 3º aniversário da Xita Records, num live em colaboração com Kerox, e no Lux, dia 1, em modo DJ set.

Foi tudo “super rápido e inesperado”. Uns meses depois da estreia no Lounge estava a tocar no festival Out.Fest, no Barreiro, outra vez a convite da Filho Único, que entretanto passou a agenciá-la. Seguiram-se as Noites Príncipe, onde adoptou a máscara (“acho piada a ser só uma pessoa que está ali a tocar, sem estar presa a género e idade”), as apresentações regulares em vários espaços de Lisboa, algumas datas pelo norte do país e a participação em dois showcases internacionais da editora Príncipe. Pelo caminho, tornou-se cúmplice da Rádio Quântica, começou a ajudar na organização das festas mina e co-criou o colectivo Intera com Caroline Lethô e Telma – três plataformas em que se luta por um circuito musical menos heteronormativo e androcêntrico, mais tolerante e progressista.

Ela, que nem saía à noite, acabou por ser “adoptada pelo circuito da música de dança”. Ela, que começou a ouvir metal aos 11 anos e a ter aulas de composição clássica aos 12, metendo-se depois com a música noise e com a música experimental da Inglaterra dos anos 80, fez um primeiro álbum, homónimo, que reflecte tudo isso. BLEID, lançado em formato cassete em finais de Dezembro pela LABAREDA, editora da DJ e designer Sónia Câmara (Sonja), rasga e revolve as entranhas da música de dança para a reconfigurar ao sabor de batidas quebradas, drones e distorção ora brutalista, ora cintilante. O lado A e o lado B têm conceitos diferentes, mas dialogantes. “Não gosto de fazer coisas ao acaso. Venho do design, tem de ser tudo conceptual”, introduz a produtora, também designer. “Decidi pensar na estrutura física da cassete. Fiz o lado A com música ambiental e introspectiva, em que andei a brincar com sintetizadores e microtuning, que passa por anular o dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó e criar novas escalas musicais. No lado B reaproveitei os sons que tinha feito para o A e voltei-me para algo mais dançável e com beats.”

A primeira parte é uma imersão cosmológica de 40 minutos. Uma só música, Dreams of Waking, ao longo da qual BLEID coreografa ao detalhe uma espécie de experiência iniciática – átomos e organismos em junção e disjunção celestial a desaguar numa meditação kosmische, que por sua vez vai progredindo em crescendos e recuos entre a luz e a sombra, entre sons vermiculares e loops em neblina e corrosão noise. Depois disto, entrar no lado B sem aviso prévio sobre o que está prestes a acontecer é como acordar, de repente, atado a um poste de alta tensão. Get Up faz-se de fuligem techno-noise e batidas ossificadas em constante delapidar, With Teeth continua no subsolo, com escavações sonoras e uma modulação rítmica pendular que produz um enfeitiçamento libidinoso. Bender of Things prova a mestria de BLEID em manobrar o suspense e a tensão entre várias dimensões e texturas, numa escalada de electrónica dissonante, triturada e enigmática, mas plena de impulso físico – também ele se impõe em Bad Vibes, pedaço de hedonismo negro em que coabitam detritos estelares dos fluxos kosmische do lado A, footwork recortado e reduzido à medula e chicotadas de techno musculado banhado em distorção.

Da Príncipe ao metal

Ouvidos os sete temas do lado B, voltemos ao início: além de funcionar como um descompressor, percebe-se de forma mais clara como as duas partes se alimentam entre si. “Gosto de pensar nisto como música gémea, quase. Uma vem da outra, influenciam-se mutuamente. Não fiz um sem pensar no outro”, explica BLEID. No seu conjunto, reconhecem-se coordenadas pós-IDM de Actress e de Tim Hecker. Mas também as batidas quebra-cabeças e as estruturas rítmicas oblíquas da Príncipe, o noise gangrenoso de Pharmakon, o tecido fabril e febril da música dos Throbbing Gristle e de Nurse With Wound, e ecos de diferentes léxicos do metal, de OM a SUNN O))) – bem como da música electrónica que o vai buscar e reinterpretar.

“Senti essa presença do metal sobretudo no lado B, na progressão das notas. É normal, foi o que ouvi durante mais tempo”, nota a produtora. Mesmo a formação em música clássica é para aqui chamada. “Ajudou-me bastante porque tenho uma série de conceitos já interiorizados, como contar tempos e tocar notas.” Mas BLEID não fica refém de padrões – aliás, torce-os, sabota-os. “Quando comecei a produzir também comecei a interessar-me pela engenharia de som. Eu acredito muito em dominar a parte técnica para depois mandá-la passear.”

Todos estes cruzamentos de referências, géneros e ideias são acarinhados por BLEID. Apesar de se conseguir identificar um batimento cardíaco comum nas suas produções e live-acts – electrónica densa e sincopada, entre fantasmagorias, assombros e rasgos de luminosidade –, a produtora lisboeta não faz música monolítica. Tem uma visão descomplexada e generosa. Nos live-acts, procura adaptar o que faz ao sítio onde vai tocar e ao alinhamento. “É uma oportunidade para evoluir e pensar em coisas nas quais normalmente não pensaria, mantendo-me fiel ao que gosto de fazer.” Nas produções, preserva essa mente aberta sem perder a identidade. Ouçamos, por exemplo, a sua contribuição para a compilação Hystereofônica Vol. 2, protagonizada por artistas mulheres e com selo da brasileira Tropical Twista Records – encontramos breakbeat diluído feito matéria de sonhos digitalizada –, ou o jungle polposo, alucinogénico e ferino de Badness, música feita a meias com Violet que dá nome ao EP que irão lançar em conjunto pela Naive, em Março.

“Eu a certa altura queria ter 50 heterónimos para todas as coisas diferentes que consigo fazer, mas depois achei mais interessante ser só uma pessoa”, afirma BLEID. “Consigo ouvir com a mesma intensidade Beyoncé e metal. Por isso tento reaproveitar e readaptar tudo que ouço e gosto na música que faço.”