Crítica

Os anéis de Jerusalém

Um clássico como Nathan, o Sábio foi-nos tornado espectáculo concreto — não é pouco o mérito!

Foto
dr

Escrito em 1779, Nathan, o Sábio de Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) é um clássico do teatro, e um dos textos mais representativos do Aufklärung, o Iluminismo alemão, e de resto não só, do Iluminismo em geral, como se pode constatar, e apesar de algumas significativas diferenças, cotejando-o com a Carta sobre a Tolerância de Locke ou com variados textos de Voltaire, autor que, aliás, Lessing viria a muito estimar.

Mas fora da Alemanha, Lessing e Nathan, o Sábio, pouco mais são que referências citadas. Vale-nos que a Gulbenkian, na sua colecção de Clássicos, tenha editado essa peça e a importantíssima colectânea de ensaios Dramaturgia de Hamburgo, mas no concreto do palco há muito pouco a referir, senão que há anos, no São João, Nuno M. Cardoso encenou outro texto de Lessing, Emilia Galloti.

Este espectáculo agora em Almada era um projecto já de anos do encenador francês Bernard Sobel, mas, tendo havido indisponibilidade da sua parte, Rodrigo Francisco meteu mãos à obra.

A peça decorre em Jerusalém, no século XII, na vigência da trégua firmada entre o sultão Saladino, governante da cidade, e o chefe da III Cruzada, Ricardo “Coração de Leão”. Regressado de Babilónia, “Nathan, o Rico”, o qual, diferentemente da tipificação do judeu usurário, é também conhecido por “Nathan, o Sábio”, é informado que Recha, a sua filha, foi salva de um incêndio por um jovem cristão, um templário.

Na cidade santa das três religiões monoteístas, o muçulmano Saladino e o judeu Nathan conhecem-se, supondo o segundo que o outro dele quer dinheiro quando, progressivamente, por ele ser “o sábio”, quer sim saber “a Verdade”, isto enquanto um sentimento cada vez mais forte se vai estabelecendo entre a islâmica Recha e o Templário cristão. Só que resta, intransponível, a barreira das religiões: só uma pode ser “a verdadeira”. No confronto das três verdades religiosas, o Sábio conta então ao sultão uma parábola que Lessing colheu no Decameron de Boccacio.

“Há centenas de anos vivia no Oriente um homem que possuía um anel de valor inestimável”, que tinha a intenção que nunca saísse da sua família. “E assim sucedeu: de geração em geração aquele que possuía o anel deixava-o ao mais amado dos filhos, até que chegou a um pai de três filhos respeitado por todos eles e que ele não era capaz de não amar do mesmo modo (...)” Que fazer? “Em segredo, mandou a um artista o seu anel, para encomendar mais dois que fossem cópias perfeitas do primeiro. Assim sucedeu (...) de tal modo que quando [o artista] trouxe os anéis, nem o pai foi capaz de distinguir o que servira de modelo. (...) Assim que o pai morreu cada dos filhos traz o seu anel. (...) O verdadeiro anel tem o dom de fazer amado de Deus e dos homens aquele que o possui. (...) É possível que o pai desejasse acabar com a tirania deum único anel’. (...) Pois bem que cada um de vós se apresse agora a imitar, sem preconceitos, o grande amor do pai.” Que cada um a sua tenha fé, mas sem preconceitos para com as outras, que todas as três sejam religiões de Deus.

Se esta apologia da tolerância é o ponto nodal de Nathan, a peça prolonga-se na revelação das verdadeiras origens quer de Recha, quer do Templário, em que inclusive a sombra do incesto paira.

Como Emilia Galloti, Nathan, o Sábio é também uma crítica do despotismo, e se não é “sangrenta” como a outra peça, a sombra do incesto não deixa igualmente de ser potencialmente escandalosa, tanto mais no contexto da sociedade setecentista.

Lessing designou Nathan como “um poema dramático em cinco actos”, e, se o destinava à cena, esta caracterização é sintomática da sua singularidade, um drama histórico que é também longo, muito longo. Schiller, por exemplo, cortou-o drasticamente. Usando a tradução de Yvette Centeno publicada pela Gulbenkian, também neste espectáculo em Almada a obra é bastante amputada, mantendo, contudo, todos os aspectos fundamentais.

Sendo as personagens historicamente situadas e várias delas, de um modo ou outro, poderosas, Rodrigo Francisco fez apelo a António Lagarto, cujos figurinos são como é usual “ricos”— mas é uma opção que aqui se compreende, exceptuando a espampanante touca da mais modesta das personagens, a aia. Ainda assim é um espectáculo de grande sobriedade, apenas tendo em fundo, ao centro, como telões, pinturas de Pedro Calapez, décors cromáticos, com a única excepção daquele que figura os três anéis.

Sem os imediatos apelos ou paralelos políticos de outros trabalhos do encenador, este será aquele em que nele mais se evidencia a aprendizagem com Joaquim Benite: um rigoroso trabalho sobre a inteligibilidade do texto, a começar pela sua cabal compreensão por parte dos intérpretes, não podendo deixar de se destacar o experiente Luís Vicente (Nathan), um João Tempera que nunca terá tido o relevo que as suas capacidades justificavam e que aqui tem todo um trabalho de composição de uma personagem mais velha (Saladino) e a oportunidade de afirmação de um actor até agora relativamente despercebido, André Pardal (o Templário).

Um clássico como Nathan, o Sábio foi-nos tornado espectáculo concreto — não é pouco o mérito!