Reportagem

Ao vigésimo dia, a “angústia” das trabalhadoras da Triumph acabou

As quase 500 funcionárias da antiga Triumph já não precisam passar os dias e as noites aos portões da Fábrica. A “luta” acabou num despedimento colectivo, já esperado por quem não acreditava que aquelas máquinas voltassem a costurar.

Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda

"Vim abrir aqui a fábrica e vou fechá-la", vaticinava na manhã desta quarta-feira, sentada num dos bancos, junto à tenda improvisada aos portões da fábrica, Maria José Gomes, de 64 anos, que detinha o posto de funcionária mais antiga da fábrica por andar há 51 anos à volta das máquinas dos cortes. O que "Zezinha", como todos ali a tratam, ainda não sabia é que ao vigésimo dia de vigília em frente aos portões, de onde não arredaram pé, nem de dia nem de noite, a luta que encetaram acabaria por dar frutos: a administradora de insolvência, nomeada pelo tribunal, chegou ainda de manhã, mandou fechar os portões e garantiu que a prioridade daquele processo seria devolver os direitos aos trabalhadores.

A campainha tocou como todos os dias a anunciar o início de mais um turno. Às oito da manhã, a maioria das trabalhadoras picava o ponto como se se tratasse de mais um dia normal de trabalho. Trocam-se os “bons dias”, ditos a alto e bom som, entram para o interior da fábrica, saem de bata já vestida, ainda com o logótipo da Triumph bordado a vermelho, apesar de, para todos os efeitos, a empresa onde trabalhavam se chamar, há um ano, Têxtil Gramax Internacional. 

A questão do dia era se a incerteza quanto ao futuro da fábrica seria, finalmente, desfeita na reunião que tinham agendada com a administradora de insolvência. Quase todos acreditavam que, no fim, não voltariam a trabalhar naquelas máquinas. 

"Foi um desgaste muito grande"

"Desde Agosto até aqui foi um desgaste muito grande. No corte, desde Setembro, muitas de nós já não trabalhávamos. Imagine o que é vir trabalhar e estar sentada a olhar", sublinha Graça Brás, de 54 anos, que ali trabalhou durante três décadas.

A boa-nova chegou-lhes ao final da manhã pouco depois de terem feito uma espera ao Presidente da República, na Escola Secundária de Camarate, onde lhe foram pedir explicações do porquê de não ter comparecido ao encontro que tinham agendado para segunda-feira, em Belém. É que “se Maomé não vai a montanha, a montanha vai a Maomé", ouvia-se aos portões da fábrica, enquanto rapidamente se formava um grupo que se disponibilizou a falar com o chefe de Estado. E assim foi. 

Já em Camarate, Marcelo Rebelo de Sousa ouviu-lhes as inquietações, de quem trabalha há 20, 30, 40 anos naquela fábrica, e não sabe como seguir em frente. Garantiu-lhes, assim como o presidente da câmara de Loures, Bernardino Soares, que já estaria a ser estudada “uma fórmula de apoio social de emergência” para aqueles 463 trabalhadores. 

À chegada de Camarate, pela hora de almoço, a euforia tomou conta de quem descia do autocarro e das que as esperavam no mesmo sítio onde "acampavam", sem interrupções, há 20 dias. "Conseguimos! Conseguimos! Conseguimos", gritavam as funcionárias enquanto se suspirava de alívio, se davam os abraços mais apertados, em sinal de vitória e de missão cumprida, de quem vingou o direito a ter direitos. 

"Estamos muito contentes porque a nossa luta venceu. Tenho dois filhos e não quero que eles venham a passar por aquilo que nós passamos. Esta luta já está ganha", atira Graça, que levou o recado a Marcelo Rebelo de Sousa. 

As portas foram fechadas ainda durante a manhã. A principal preocupação das trabalhadoras, que as aguentou durante a vigília, 24 sobre 24 horas a guardar os portões, continua a ser a salvaguarda das máquinas e o património da fábrica. Serão estas "as garantias para os subsídios em atraso e para as eventuais indemnizações”, explicou Mónica Antunes, delegada sindical com 41 anos e trabalhadora da fábrica há 18. 

Foram precisos 20 dias de “luta” ao calor e à luz daquele braseiro que nunca se apagou e que se tornou quase num símbolo de luta destas mulheres. Mulheres que se viam apoiadas pelos filhos que lá iam passar a noite com elas, assim como os maridos ou sobrinhos que falavam, de voz embargada e olhos encharcados, no “orgulho” que tinham em vê-las bater o pé daquela forma.

O ponto final na indecisão que pairava sobre o futuro da fábrica desde o final do ano passado acabou por ser um despedimento colectivo. Com a insolvência decretada, finalmente, pelo tribunal, os trabalhadores vão poder aceder ao subsídio de desemprego e ao fundo de garantia social, enquanto aguardam que lhes sejam pagos cinco dias do mês de Novembro, o mês de Dezembro e ainda as indemnizações.

"Sem a nossa luta isto não se conseguia", completa Zezinha. Festejou-se com arroz doce, “para aquecer primeiro as mãos e depois a alma”, atirava uma das costureiras. 

"É um dia feliz e triste"

A Rua Vasco da Gama foi pequena para os carros que ali se juntaram e para as buzinas que não paravam de tocar. "Isto era um desespero tão grande. Esta é uma lufada de ar fresco nesta gente. Nós andamos há dois anos a passar de mão em mão e a viver uma angústia enorme. Nós queremos trabalhar, mas nas condições que estávamos a trabalhar aqui é impossível", vinca Mónica. 

À saída da reunião, vivia-se entre o “alívio” de poder seguir com a vida para a frente e a tristeza de largar a vida e os "amigos" que sempre conheceram. "Esta noite, em princípio, será a última de vigília. É um dia feliz e triste. Foram 28 anos aqui", lamentou Rodrigo Teixeira.

Despem-se as batas e pica-se o ponto. Esta batalha pode estar ganha, como advogam, mas a luta, para muitos daqueles trabalhadores, acabou mesmo agora de recomeçar. "Acabou o nosso martírio", atirou a costureira Isabel, "e agora vai começar outro".