Editorial

O 25 de Abril não chegou às casernas

O assalto a Tancos é caso encerrado? Todos nós temos direito e vontade de saber como é que esse material foi furtado e como é que o mesmo foi recuperado.

O Exército deu por encerrado o caso do assalto ao paiol de Tancos em Julho passado e não vai desclassificar mais nenhuma informação relacionada com o furto de material militar. Sabemos que os mesmos paióis foram desactivados, que o armamento foi armazenado em outras instalações do Exército e que quatro militares foram alvo de castigos disciplinares por não terem feito rondas permanentes, não terem ordenado que as mesmas se fizessem, não terem preenchido um formulário ou por terem prestado falsas declarações.

Chega? Não. Assunto encerrado? Não.  A atitude do Exército não satisfaz Jorge Sampaio, que afirmou que se impõe que haja uma resposta sobre Tancos, não pode satisfazer Marcelo Rebelo de Sousa, que afirmou esperar que a divulgação pública das conclusões da investigação administrativa e do Ministério Público, e não satisfaz mais ninguém além do Estado-Maior do Exército. Será que o ministro da Defesa também acha que o caso está, de facto, encerrado? Azeredo Lopes ainda acha verosímil a hipótese de o armamento nem sequer ter sido furtado?

Todos nós temos direito e vontade de saber como é que esse material foi furtado e como é que o mesmo foi recuperado, meses depois, com a ajuda de uma alma caridosa que fez uma chamada telefónica anónima, ironicamente a partir da Chamusca. Os furtos no Exército até compensam se, de cada vez que acontecerem, o material recuperado contiver umas granadas a mais aqui e outras acolá . Poupa-se no orçamento e a Polícia Judiciária Militar terá uma taxa de recuperação de 105%. 

“Classificar” informações sobre o furto de Tancos pode ser do interesse de quem gere a instituição, mas é contraproducente para a sua imagem pública e é contraditório com as intenções do Parlamento em adoptar novas medidas para garantir a transparência no exercício de funções públicas, quando ainda esta semana esse era um dos temas em debate nas jornadas parlamentares do PS.

Se há assunto recente a exigir escrutínio até às últimas consequências, é este. Resta a esperança de que a investigação do MP possa desvendar os segredos militares de uma instituição que deveria fazer o oposto de robustecer a sua opacidade. Estamos a falar de crimes contra a natureza e segurança do Estado, para os quais devíamos exigir e obter uma explicação cabal. Por que é o 25 de Abril ainda não chegou às casernas?