Música

Um tirano? Um diseur punk? Mark E Smith (1957-2018)

Morreu um talento raro, um líder defeituoso, um genial ditador. Morreram os The Fall.
Foto
KEVIN CUMMINS/GETTY IMAGES

“Tenho 55 anos, mas gosto de envelhecer. Formei os Fall quando tinha 18, por isso estávamos sempre a tentar parecer mais velhos para conseguir trabalho. Acho que muitos grupos não teriam chegado longe com os padrões de estilo actuais; hoje, algum idiota diria aos Kinks que sapatos calçar.” Isto era Mark E Smith, em 2013, ao The Guardian. Enquanto viveu, ninguém lhe disse o que fazer, o que vestir, como cantar: morreu na quarta-feira, aos 60 anos, como homem único, cheio de defeitos, cheio de talentos.

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

A causa da morte ainda não foi relevada, mas, no ano passado, Smith foi forçado a cancelar vários concertos, um deles no Porto, devido a problemas de saúde na garganta, na boca e no sistema respiratório. Apesar da saúde frágil, em 2017, os Fall lançaram um álbum, New Facts Emerge, e actuaram ao vivo com Smith numa cadeira de rodas.

Em 32 álbuns de estúdio dos The Fall, a mais duradoura banda pós-punk, Mark E Smith, o único membro da formação original, construiu uma história dentro da música popular, indiferente ao número de pessoas que a ouviam. Uma canção típica dos Fall tem todas ou algumas destas coisas: guitarras dissonantes, entre o ruído austero e a frase orelhuda; um baixo marcial e repetitivo; e, sobretudo, uma voz insubmissa, num aparente fluxo de consciência – um anticantor, um diseur punk, era assim Mark E Smith.

Viu os Sex Pistols, em 1976, na sua Manchester, e a vida mudou – como mudou para os membros dos Smiths, dos Buzzcocks e dos Joy Division que também viram aquele concerto. Inspirado pela performance, hoje considerada histórica apesar de presenciada por poucas dezenas de pessoas, Smith decidiu deixar de trabalhar nas docas (já tinha estado numa fábrica de carne) para apostar nos Fall. “Afinal, não somos assim tão maus”, escreveu na sua autobiografia, Renegade. “Somos melhores.”

À bruteza e à secura do punk, Smith acrescentou letras que o crítico Simon Reynolds classificou de “realismo mágico inglês”, uma obsessão com a repetição do krautrock (“We dig repetition in the music/ And we’re never going to lose it”, avisava em Repetition, canção de 1978) e doses cavalares de desrespeito pelas normas de uma canção, colocando os Fall numa linhagem invisível que poderia unir os Captain Beefheart aos Velvet Underground. Ouçam-se, por exemplo, Container drivers (1980), rockabilly à moda da Manchester pós-industrial, sem glamour; Big new prinz, com guitarras de “arame farpado” (a expressão de Tony Wilson, figura inescapável do pós-punk de Manchester, quando apresenta a canção e a banda na Granada TV, em 1988) a competir com o resmungar de Smith; Hip priest, blues ébrios reduzidos ao quase nada; ou Living too late, inspiração óbvia para a forma de cantar de James Murphy, o vocalista dos LCD Soundsystem.

Sobre os Fall, o famoso radialista da BBC John Peel disse: “São sempre diferentes; são sempre os mesmos." Com algumas intromissões nos tops e no mainstream (Hit the north tornou-se um clássico entre as hostes do Manchester City, o clube de futebol de que era adepto; cantou com os Gorillaz para 80 mil pessoas no festival de Glastonbury, em 2010), foram sempre um prazer indie, mas influenciaram vários artistas, dos Pavement aos Blur, de Steve Albini aos Arctic Monkeys.

Contra o conforto

Os The Fall, cujo nome foi roubado a um romance de Albert Camus, eram tecnicamente uma banda, mas confundem-se com Mark E Smith. Foi o único que esteve desde a formação do grupo, por onde passaram 66 músicos, um terço dos quais “sobreviveu” menos de um ano. Os Fall eram ele e ele sabia-o: “Se for eu e a tua avó nos bongos, é The Fall.”

Marc Riley, por exemplo, foi despedido, entre outras razões, por dançar Deep Purple numa discoteca australiana, numa digressão em 1982. Smith disse-lhe: “Vai para o hotel e fica lá até eu te dizer. Não precisas de dançar Smoke on the water.” Já depois da morte de Smith, Riley diria à BBC 6 Music que o líder dos Fall lhe ensinou “muito sobre a vida” e “sobre música”. Há ainda histórias de como Smith gostava de despedir músicos quando os Fall estavam no estrangeiro, em digressão, e episódios de pancada em palco, de cadeiras voadoras como armas e de instrumentistas recrutados de emergência antes dos concertos para substituir mais um membro despedido.

Um tirano irascível? Talvez, mas também alguém que tinha uma visão clara do que queria fazer com a música, estando disposto a ser odiado para lá chegar. Tommy Crooks, ex-guitarrista dos Fall, contou ao Guardian, em 2006, que, nos primeiros ensaios, Smith tentava sabotá-lo, desligando-lhe o amplificador, por exemplo. Nunca deixar ninguém confortável era, para Smith, um mecanismo para instigar tensão criativa. Ben Pritchard conta que era um “guitarrista terrível” quando se alistou nos Fall, aos 17 anos (conseguiu manter o posto durante cinco anos). “Talvez fosse por isso que o Mark me queria no grupo. O desafio era pegar em alguém errado para o grupo e fazer dele algo de bom.”

Mas além dos Fall, Mark E Smith será também lembrado pela sua ligação à música electrónica. Colaborou com os Coldcut, pioneiros do sampling, em 1989, e, já neste século, ligou-se à dupla alemã Mouse on Mars para fundar os Von Südenfed.

Parafraseou o ensaísta escocês Thomas Carlyle em jeito de lema criativo: “Produz, produz – é a única coisa que tens de fazer.” Vários discos dos Fall não alcançaram o fulgor de obras como Hex Enduction Hour (1982) e This Nation's Saving Grace (1985). Smith escreveu na sua autobiografia: “Tipos como [Johnny] Cash e Jerry [Lee Lewis] e Link Wray e Iggy Pop, até, são muito especiais para mim. A sua arte vem da sua experiência rica, não podes fingir essa autenticidade. Não pode ser manipulada. Muitas vezes vão para onde o instinto lhes diz e, mais vezes do que o contrário, não funciona. Admiro isso. Não há disso que chegue por aí.”