Paulo Ricca/Arquivo
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Megafone

Senhor ministro, a arqueologia ainda e´ cultura em Portugal?

Por enquanto apenas posso dizer que sou arqueólogo num país onde quem deveria ter o poder de proteger compactua com um silêncio ensurdecedor

Passaram quase seis meses desde a minha última crónica para o P3, na qual denunciava ataques severos à cultura e ao património arqueológico e solicitava que a tutela se pronunciasse. Recusei-me e recuso-me a regressar a locais como Foz Côa, Tomar, Alcobaça, entre tantos outros, enquanto arqueólogo, em sinal de revolta pelo tratamento dado ao património em Portugal. Ao longo destes seis meses fui assistindo a cada vez mais atentados ao património arqueológico, como os sítios romanos destruídos por um amendoal onde, depois de informadas as autoridades competentes — segundo notícia do PÚBLICO — as movimentações de terras continuaram. Assistimos à discussão do Orçamento do Estado para 2018 na especialidade da Cultura e demos conta de que o próprio primeiro-ministro afirmou, perante o hemiciclo, que o orçamento da cultura era insuficiente. Não vejo qualquer disponibilidade para criminalizar os ataques severos ao património arqueológico, até porque quem deveria zelar pela protecção e salvaguarda continua a remeter-se ao silêncio. E agora pergunto, senhor ministro, a arqueologia ainda é cultura em Portugal? É que me parece cada vez mais que olhamos para a arqueologia enquanto um hobby de caça tesouros e não enquanto ciência. E isso revolta-me, ver a profissão que escolhi e os profissionais a serem penalizados por quererem defender um património. Senhor ministro, para onde caminhamos?

Quero ainda enfaticamente dizer que assinei a petição lançada publicamente no último sábado, 13 de Janeiro, e fi-lo, não apenas enquanto arqueólogo, mas enquanto um cidadão que olha para o seu passado e reconhece a memória daqueles que nos antecederam, bem como exige ao Estado, ao Ministério da Cultura, à DGPC, que protejam o nosso património, para que eu possa dizer em regozijo que sou arqueólogo em Portugal. Por enquanto apenas posso dizer que sou arqueólogo num país onde quem deveria ter o poder de proteger compactua com um silêncio ensurdecedor.

Termino esta crónica expressando a minha solidariedade com a arqueóloga mestre Jacinta Bugalhão que, após quererem que fosse parte desse silêncio, sofre agora as consequências de um processo disciplinar. Os valores da democracia tão apregoados não são tentar calar alguém que assume os seus deveres, tanto em termos de cidadania como profissionais. Não é um país que cala e não denuncia que se encontra em consonância com os deveres cidadãos e com a protecção patrimonial. Manter-me-ei sempre crítico a todas as destruições patrimoniais enquanto a tutela nada fizer para contrariar esta tendência.