Crítica

Aqui há gatos

Um documentário que, mais do que ser sobre bichos fotogénicos, é sobre a identidade de uma cidade vista pelos olhos dos gatos.

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No filme de Ceyda Torun, os gatos são o sangue que dá vida a Istambul
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A internet, como todos sabemos, foi feita para os gatos, bichos fotogénicos por excelência e com personalidades muito específicas que parecem saber quando uma câmara os está a filmar (não temos nada contra os cães, mas estamos a falar de um filme sobre gatos). Convirá por isso desde já deitar abaixo a ideia que o filme da turca Ceyda Torun, radicada nos EUA, é uma simples colagem de felinos a serem felinos, fazerem tropelias, perfeita para a estética dos clips partilhados nas redes sociais, porque não é na verdade nada disso. Gatos é, isso sim, uma exploração do quotidiano “real” de Istambul por meio dos gatos vadios que povoam a cidade, e do sentido de comunidade que estes animais ora altivos ora afectuosos ora brincalhões ajudam a cimentar.

Sem perder de vista a fotogenia inerente à capital turca, Torun evita ao mais possível o postal turístico e o lugar-comum exótico para se concentrar nos bairros populares, nos bazares e cafés e mercados e restaurantes que servem também de ponto de encontro de bairros ou comunidades. Os gatos funcionam aqui como “guias turísticos” que nos levam de zona em zona, mas também como “âncoras” da comunidade que todos alimentam, respeitam e tratam, numa simpatia natural e numa coabitação pacífica e mutuamente enriquecedora. É por isso que a chave do filme está, por exemplo, no pescador que toma conta de uma ninhada abandonada, ou nos vendedores de um mercado que sobrevive pelo meio das construções modernas, questionando o que acontecerá quando a ganância do imobiliário levar à destruição dos bairros mais antigos e pitorescos. Perguntam eles: o que será dos gatos quando isso acontecer?

E nessa preocupação com o futuro dos gatos está também uma preocupação com aquilo que caracteriza uma cidade e lhe dá a sua personalidade, aquilo que a faz viver e sentir. No filme de Ceyda Torun, os gatos — desde a “psicopata” ciumenta e asocial à “laranjinha” que não tem problemas em fazer-se à rua para dar de comer aos filhos, passando pelo “cavalheiro” que nunca entra no café mas fica à espera que o venham servir — são o sangue que dá vida a Istanbul. É certo que são um sangue fotogénico, fofinho, encantador, divertido — mas são parte integrante de uma identidade urbana que, como um pouco por todo o mundo, está em riscos de se diluir.