Opinião

Habitar e criar

A pluralidade de propostas artísticas é boa para a cidade, para o público e para os criadores de cultura.

Tenho seguido com interesse as notícias e os textos de opinião sobre as mudanças anunciadas na gestão do Teatro Maria Matos. Na notícia sobre o debate ocorrido na Assembleia Municipal, li com surpresa a referência feita ao Teatro Aberto como um espaço que tinha sido “ocupado”. Uma vez que essa afirmação revela desconhecimento da história, decidi intervir no debate para repor a verdade dos factos e expressar a minha opinião sobre as matérias em discussão.

O actual Teatro Aberto, inaugurado em 2002, foi construído pelo Novo Grupo de Teatro em diálogo com a CML ao longo de 19 anos. Antes deste edifício existia outro, o antigo Teatro Aberto, também localizado na Praça de Espanha. Inaugurado em 1976, esse teatro foi construído com o esforço, o trabalho e o dinheiro do Grupo 4, formado por Irene Cruz, Morais e Castro, Rui Mendes e por mim. O terreno, sobre o qual o Grupo 4 tinha direito de superfície e pelo qual pagava uma renda, tinha sido cedido em 1973 pelo então presidente da CML, Santos e Castro. Ao Grupo 4 sucedeu em 1982 o Novo Grupo, também formado por mim e outros colegas de profissão.

Em 1984, o presidente da CML, Krus Abecassis, quis retomar a posse do terreno onde se situava o Teatro Aberto. Iniciou-se então uma difícil negociação com a autarquia que propunha o pagamento de uma indemnização para a companhia sair daquele terreno e poder construir um teatro noutro local. Em vez de aceitarmos a indemnização, propusemos ao presidente que construísse um novo Teatro Aberto, mais moderno, que pertenceria à cidade e nos seria cedido como local de trabalho. Ele aceitou. Começou assim a construção do novo Teatro Aberto em que investimos não apenas o nosso capital como também o nosso saber sobre o funcionamento de um teatro, nas muitas reuniões que impulsionaram e acompanharam a concepção e concretização do projecto.

O projecto foi iniciado por Krus Abecassis, acompanhado por Jorge Sampaio e concretizado por João Soares. Devemos a João Soares a vontade necessária à conclusão da obra assim como a assinatura de um protocolo com a nossa companhia, estabelecendo que o edifício era propriedade da CML e a direcção e produção artística da responsabilidade do Novo Grupo de Teatro. Em 2016, a gestão dos equipamentos do edifício e a sua manutenção passou para a EGEAC, uma mudança que se tem revelado muito positiva.

Sobre a polémica em torno do Teatro Maria Matos, quero afirmar que compreendo o plano anunciado pela vereadora da Cultura e concordo com os seus objectivos. Depois de uns anos de trapalhadas a vários níveis, a CML iniciou, com a chegada de António Costa à presidência, práticas de diálogo e transparência, uma nova política cultural e uma gestão mais sustentável dos seus equipamentos. O actual presidente, Fernando Medina, continua a impulsionar este ciclo, acompanhado por Catarina Vaz Pinto. Estou sobretudo de acordo com a salvaguarda do Teatro do Bairro Alto, antiga casa da Cornucópia, como espaço de teatro experimental. É uma decisão que revela sensibilidade e consideração pela história daquele espaço. Recordo com pesar o que aconteceu com o Teatro Experimental do Porto, a casa de António Pedro, que devia ser um lugar de referência do teatro em Portugal e hoje faz parte de um banco.

Os teatros são também locais de encontro de espectadores que fazem parte de uma comunidade. Embora as particularidades arquitectónicas sejam relevantes, o que os anima é o projecto artístico que ali se apresenta e o tipo de comunicação que se desenvolve.

Também não gosto de ver posta nas mãos de privados uma coisa pública que funciona bem. Espero continuar a ver as propostas do antigo director do TMM na Culturgest. O plano da vereadora de reabrir o Teatro Luís de Camões com uma programação para o público infanto-juvenil reconhece e dá continuidade ao trabalho da equipa do TMM na área da formação de públicos.

Enquanto criador e director de teatro, preocupa-me que haja cada vez mais espectáculos com poucas apresentações. É importante que os espectáculos estejam em cena algum tempo para que mais espectadores os possam ver e discutir. É importante rentabilizar o investimento público feito na criação dos espectáculos. É importante existirem propostas artísticas diferentes, em espaços diferentes. Por todas estas razões, estou de acordo com a diversificação nos modelos de gestão nos vários teatros municipais. A pluralidade de propostas artísticas é boa para a cidade, para o público e para os criadores de cultura.