Ursula K. Le Guin (1929-2018): uma ficção que gosta de pensar

A mais popular escritora americana de ficção científica e fantástica, Ursula K. Le Guin, autora de obras-primas do género, como Os Despojados, A Mão Esquerda das Trevas ou os romances do ciclo de Terramar, morreu esta segunda-feira, aos 88 anos.

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A escritora norte-americana Ursula K. Le Guin, um dos nomes máximos da literatura de ficção científica, morreu esta segunda-feira, aos 88 anos, na sua casa de Portland, Oregon. 

A sua obra, largamente traduzida e editada em português, inclui algumas das mais reconhecidas obras-primas do género, como A Mão Esquerda das Trevas (1969) – o único romance de ficção científica que Harold Bloom inclui no seu Cânone Ocidental –, a “utopia ambígua” Os Despojados (1974), recentemente reeditada em Portugal pela Saída de Emergência, ou, no domínio da ficção fantástica, a belíssima pentalogia de Terramar, talvez a mais conseguida e original das inúmeras criações literárias inspiradas pela saga O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien.

Embora seja autora de uma relevante obra ensaística e tenha também experimentado a poesia, Le Guin, que enviou o seu primeiro conto de ficção científica (FC) para uma revista quando tinha apenas 11 anos, é essencialmente uma autora de FC, ainda que os seus livros, traduzidos em mais de 40 línguas e com vendas globais na ordem dos milhões de exemplares, atinjam leitores muito diversificados. Mas não se trata tanto, no seu caso, de ultrapassar as barreiras do género, e antes de o praticar com uma qualidade e uma originalidade que justificam amplamente que seja vista como um dos grandes nomes da literatura americana contemporânea. O mesmo se poderia dizer de Philip K. Dick (que curiosamente foi seu condiscípulo) e de muito poucos mais.

Mas há um aspecto que singulariza claramente Le Guin entre a generalidade dos grandes autores de FC, que é o seu persistente interesse pelas ciências humanas, da antropologia e da sociologia à psicologia ou à linguística, quase sempre mais importantes nos seus livros do que as chamadas “ciências exactas”.

Os seus romances são atravessados por naves espaciais, e Le Guin é capaz de imaginar engenhosos dispositivos, como o “ansible”, recorrente em vários dos seu livros, que permite comunicação instantânea entre planetas distantes, mas os verdadeiros temas da sua obra são outros, das questões de género e da sexualidade à ecologia e das religiões aos sistemas políticos.

Tópicos que se tornam menos surpreendentes se soubermos que a autora, nascida em 1929 na Califórnia, era filha de um prestigiado antropólogo, especialista nas tribos nativas da região, Alfred L. Kroeber, e de uma escritora, antropóloga e psicóloga clínica, Theodora Quinn Kroeber, cuja biografia do índio Ishi, publicada em 1961, teve grande sucesso e foi adaptada ao cinema.

Há também em toda a obra de Le Guin, influenciada pelo tauismo, uma ressonância ética, que raramente desliza para o moralismo, mas que pode aqui e ali tornar-se um tanto didáctica, risco que a espessura lírica da sua escrita e o seu invulgar talento de pura contadora de histórias ajudam a evitar.

A autora estudou no Radcliffe College e especializou-se depois em línguas latinas e literatura medieval e renascentista. Em 1952 recebeu uma bolsa para prosseguir os seus estudos em Paris, onde conheceu outro bolseiro com quem se veio a casar, Charles Le Guin. De regresso aos Estados Unidos, o casal instalou-se em Portland, no Oregon, em cuja universidade Charles Le Guin ensinou História.

Ursula K. Le Guin interrompeu a sua formação académica e conciliou a educação dos filhos com a escrita, tendo terminado vários romances nunca publicados antes de editar a sua primeira obra de ficção científica, O Mundo de Rocannon, em 1966. O livro inaugura o chamado ciclo Hainish, que compreenderá mais tarde os já referidos Os Despojados e A Mão Esquerda das Trevas, que conseguiram ambos a rara façanha de vencer os dois principais prémios do género, o Hugo e o Nebula.

A acção de A Mão Esquerda das Trevas decorre em grande parte num planeta cujos habitantes não são machos nem fêmeas, assumindo um dos sexos apenas nos breves períodos de acasalamento, e consoante o parceiro por quem se enamoram. Como Os Despojados, que imagina o que poderia ser uma sociedade anarquista se lhe fosse dada a hipótese de se consolidar, também este romance é exemplo de uma ficção que gosta de pensar. “Eliminei o género para ver o que sobrava”, dirá mais tarde a autora a propósito deste livro.

Em 1968, Le Guin lança O Feiticeiro de Terramar (1968), o primeiro dos livros de Terramar, que começou por constituir uma trilogia, completada com Os Túmulos de Atuan (1971) e O Outro Nome do Mundo (1972), todos publicados em Portugal na colecção Argonauta, da Livros do Brasil. Só muito mais tarde Le Guin somou a estes livros um volume de contos e mais dois romances, Tehanu, o Nome da Estrela (1991) e Num Vento Diferente (2001), ambos publicados na colecção juvenil Estrela do Mar, da Presença, juntamente com novas traduções dos três primeiros títulos.

Outros livros importantes de Ursula K. Le Guin editados em Portugal, geralmente em colecções de ficção científica, são O Tormento das Trevas (1971), Floresta É o Nome do Mundo (1976), Tembreabrezi – O Lugar do Início (1980), A Rosa-dos-Ventos (1982) ou Lavínia (2008).

Quando recebeu, em 2014, uma medalha pela sua “distinta contribuição para a literatura americana”, a autora disse que a aceitava em nome dos restantes escritores de ficção científica e fantástica, “há demasiado tempo excluídos da literatura”. 

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