Germana Tânger (1920- 2018): a poeta dos poetas

Grande diseuse e divulgadora da poesia portuguesa, ensinou a arte de dizer a várias gerações de actores. Em 1959, numa célebre sessão do Teatro da Trindade, disse de cor os quase mil versos da Ode Marítima. Morreu esta segunda-feira aos 98 anos.

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Germana Tânger, em 2005 Nuno Ferreira Santos/Arquivo
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Germana Tânger , em 2001 Marta Vitorino/Arquivo

Mário Cesariny chamou-lhe “poeta de poetas”. Apaixonada diseuse da poesia portuguesa, que ajudou a divulgar no país e no estrangeiro, mas também mestra de dicção de sucessivas gerações de actores, Germana Tânger morreu esta segunda-feira à noite em Lisboa, poucos dias após ter completado 98 anos.

O episódio mais célebre da sua longa carreira de diseuse foi talvez uma concorrida sessão no Teatro da Trindade, em 1959, quando subiu sozinha ao palco para ler, de cor, os quase mil versos da Ode Marítima de Álvaro de Campos. Um momento marcante não apenas enquanto façanha técnica, mas também pela coragem que exigia, e sobretudo a uma mulher, dizer um tal poema, com as suas violentas imagens de explícita dimensão homossexual e sado-masoquista, numa sala prestigiada do beato Portugal salazarista.

Quarenta anos mais tarde, em 1999, foi novamente no Teatro da Trindade que se despediu dos palcos, com um recital que fechou com a Ode Marítima, mas Germana Tânger já estava então a poucos dias de se tornar octogenária e dividiu a dura tarefa com o actor João Grosso, seu discípulo e amigo.

“A sua carreira de diseuse foi importantíssima no final dos anos 50, mas também nas décadas seguintes, porque a Germana, conforme se pode ouvir nos registos da antiga Emissora Nacional, tinha uma maneira de dizer muito inovadora, que abordava a poesia por um lado muito emocional, muito interpretativo, mas sem os rodriguinhos habituais na época”, resume João Grosso.

O actor sublinha ainda a importância do seu magistério no Conservatório, onde se manteve 25 anos, para sucessivas gerações de actores. “Aprendemos muitíssimo com ela: o gosto pelas palavras, a maneira de as respirar, a procura dos sentidos dos poemas”, diz o actor, que acha que no momento da morte de Germana Tânger a melhor forma de honrar o seu legado é revalorizar a sua convicção de que todos os protagonistas da “voz pública”, não apenas os actores, mas também os políticos, os professores ou os juízes, têm o dever ético de não pactuar com a degradação da língua.

Nascida em Lisboa em 1920, Germana Tâger estudou no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, e depois na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde integrou o respectivo grupo de teatro, fundado por Manuel Tânger Correia, latinista e professor universitário, com quem viria a casar-se em 1948, e a quem deve o apelido pelo qual se tornou conhecida. Já nessa altura começou a dizer poesia, e muitos dos poetas que integravam o seu reportório vieram a tornar-se amigos chegados, de Almada Negreiros a José Régio e de Jorge de Sena e Sophia a Mário Cesariny, que um dia lhe deixou num exemplar de um livro uma dedicatória que a diseuse se orgulhava de mostrar: “Para a Maria Germana Tânger, Poeta de Poetas”.

Sara Oliveira, que a acompanhou de perto ao longo dos últimos anos, e a quem se deve a transcrição para computador dos manuscritos que compõem a sua recém-lançada autobiografia, Vidas numa Vida (Manufactura, 2016), recorda ainda a predilecção de Germana Tânger por uma frase de Almada: “Chegar a cada instante pela primeira vez”. “Era uma divisa dela”, diz Sara Oliveira, que a conheceu quando a Assírio & Alvim, onde então trabalhava, lhe dedicou um número especial da revista A Phala, em 1999, tendo depois acompanhado a preparação do áudio-livro que a editora lançou em 2004 com poemas de Almada, Sá-Carneiro e Pessoa ditos por Germana Tânger.

Também João Grosso salienta o modo como esta estimulava os seus alunos “a encarar a vida com coragem, entusiasmo e boa disposição”. Conselhos que ela própria seguiu verdadeiramente até ao fim. “Na terça-feira passada, a Germana fez 98 anos: estava na cama do hospital e comecei a brincar com ela, a perguntar-lhe se ia ser como o Mário de Sá-Carneiro e agora só queria que a metessem entre cobertores”, conta o actor, “e daí a pouco estávamos os dois a dizer o poema Caranguejola” [que abre com os versos “– Ah, que me metam entre cobertores,/ E não me façam mais nada…”].

Sá-Carneiro era justamente uma das suas grandes paixões. “Gostava muito do Almada, de quem foi grande amiga, e venerava Fernando Pessoa, pela imensa obra que nos deixou, mas tinha um carinho muito especial pelo Sá-Carneiro, dizia que o Pessoa era o filósofo e ele o poeta”, recorda João Grosso.

Mas se hoje é sobretudo como diseuse que a conhecemos, não foi essa a carreira que inicialmente sonhou. “Contou-me que gostava de ter sido actriz, mas que a mãe ficou tão triste, e chorou tanto, que ela desistiu da ideia”, diz Sara Oliveira.

Fundamental no seu percurso – quer o de diseuse (detestava que lhe chamassem declamadora), quer o de professora do Conservatório – foi a frequência do curso de dicção do actor e professor George Le Roy em Paris, onde Germana Tânger se radicou no final dos anos 40 com o marido. Manuel Tânger seria depois colocado como adido cultural no Brasil, onde Germana consolidou a sua carreira e cultivou amizades com vários autores brasileiros, em particular Cecília Meireles.

Regressou a Portugal na década de 1950, tornando-se professora  no Conservatório Nacional de Lisboa e iniciando uma série de programas culturais na rádio e na televisão, como Ronda Poética, transmitido durante dois anos. Infelizmente, e segundo João Grosso, quase todos os arquivos dos seus programas televisivos foram destruídos.

Outra dimensão importante do seu esforço de divulgação da poesia foram os recitais Pró Arte, que levou a todo o país e às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.

No final da sua autobiografia, Germana Tânger sintetiza assim a sua vida: “Tanta surpresa, tanta dedicação, tanto amor, tanta amizade, tanta desilusão, tanta força, tanta alegria, tanta esperança, tanta rebeldia, tanto desgosto, tanta saudade”.