O rochedo do exílio

Maria João Gaspar e José Filipe de la Fuente estão a bordo do Royal Mail Ship. Este é o relato da última viagem do navio até Tristão da Cunha, ilha perdida no Atlântico Sul.

Fotogaleria
O túmulo de Napoleão José Filipe de la Fuente
Fotogaleria
Banks Baterry, fortificações na costa de Santa Helena
Fotogaleria
Sugar Loaf

Vive l’empereur! Vive l’empereur! Vive l’empereur!”. Um grupo de 15 franceses levanta-se da mesa e brinda solenemente com vinho de Bordéus, na casa do General Bertrand, em Longwood, Santa Helena. Podia ser 1818. Mas passaram dois séculos, a casa construída para um dos generais que partilhou o exílio de Napoleão foi transformada em restaurante, o grupo é de turistas, acompanhados pelo decano – e único membro – da diplomacia da ilha, o cônsul francês, e nós jantamos, por sinal muito bem, numa das mesas do lado.

Santa Helena sempre foi um lugar de exílio, imposto ou voluntário. Uma costa escarpada, ausência de praias e portos naturais e mais de mil milhas até à terra mais próxima ajudam muito a manter o resto do mundo afastado. É fácil imaginar os ingleses, depois da vitória em Waterloo, olhando para o mapa das suas possessões mundiais em busca de um lugar para exilar Napoleão. “O que é que temos de mais isolado?”, alguém deve ter perguntado. “Esperem, temos Santa Helena!”, alguém deve ter respondido. E assim, em 15 de outubro de 1815, Napoleão Bonaparte chegava a Jamestown, acompanhado de um grupo de mais de 20 fiéis apoiantes.

PÚBLICO -
Foto
The Briars, primeira casa de Napoleão na ilha José Filipe de la Fuente

Nos primeiros dois meses, ficou instalado no pavilhão anexo à residência da família Balcombe, nos Briars. Ainda hoje é um local idílico, rodeado de verde, onde o general terá passado tempos relativamente felizes. Uma placa no jardim indica que discutia filosofia com o conde de Las Cases à sombra de uma determinada árvore e, embalados pelo canto dos pássaros, quase acreditamos.

Longwood é outra coisa. Situada num planalto elevado, a zona é sujeita a fortes ventos e neblinas durante a maior parte do ano. Napoleão detestava a morada que os ingleses tinham construído para si – e de onde não se podia afastar a não ser escoltado - mas os turistas franceses adoram-na, talvez porque podem desafiar a proibição de chamar imperador àquele que os ingleses impuseram que fosse designado como general Bonaparte. Foi aqui que morreu, em 1821, e Longwood House preserva fielmente a memória desses dias, da mobília de época recentemente restaurada em França à banheira de cobre em que o exilado passava cada vez mais tempo, mergulhado num banho quente, à medida que a sua saúde piorava.

PÚBLICO -
Foto
Longwood, a segunda morada de Napoleão em Santa Helena José Filipe de la Fuente

A sua última morada em Santa Helena é a mais simples e a mais bonita. Num desvio na estrada principal, seguimos por um caminho ladeado de árvores até uma clareira onde, no meio de um relvado impecavelmente cortado, surge uma campa coberta por uma pedra sem qualquer inscrição. Num último desentendimento entre franceses (que queriam inscrever “Napoleão”, como se referiam ao imperador) e ingleses (que obrigavam a acrescentar “Bonaparte”), os franceses optaram por deixar a pedra nua. E assim o homem mais poderoso do seu tempo foi sepultado numa minúscula ilha quase inacessível, numa campa sem qualquer identificação. Vem-nos à memória a expressão “vã glória”, mas deve ser efeito do bucolismo do lugar.

Napoleão já não mora aqui – os seus restos mortais foram repatriados em 1840 e repousam agora em Paris, em Les Invalides, num cenário com bastante mais pompa – mas isso não impede que as suas três moradas em Santa Helena sejam território francês. Mais precisamente os Domaines Nationaux de Sainte-Hélène. Daí o cônsul.

PÚBLICO -
Foto
José Filipe de la Fuente

Napoleão é, sem dúvida, o exilado mais famoso de Santa Helena. Mas não foi o único. Mais uma vez na história, os portugueses chegaram primeiro. Em 1515, Fernão Lopes (não confundir com o cronista), um oficial do exército português que se havia rendido aos revoltosos locais, foi julgado em Goa por traição e, como castigo, foram-lhe cortados o nariz, as orelhas e a mão direita. No regresso a Lisboa, quando o navio parou em Santa Helena para se abastecer de água, desembarcou e escondeu-se, talvez receoso da recepção familiar. Instalou-se na ilha e tornou-se o seu primeiro residente, beneficiando dos mantimentos que lhe eram deixados pelos navios de passagem, cultivando legumes e fruta e criando galinhas e cabras. Chegou a voltar a Portugal, mas - após ser recebido pelo Rei e pelo Papa, que lhe concedeu perdão – escolheu regressar a Santa Helena, onde viveu mais de 30 anos e onde terá morrido. É uma bela história, apesar de uma razoável componente de lenda e de contradições várias, e alguns autores defendem que terá sido a inspiração para As Aventuras de Robison Crusoe, publicadas em 1719.

A lista de exilados em Santa Helena inclui ainda um chefe zulu, no final do século XIX e três príncipes do Bahrein, já nos anos de 1950. Para não falar dos mais de 5000 escravos libertados do tráfego internacional pelos ingleses, que morreram na ilha, e cujas ossadas foram descobertas durante as obras do aeroporto. A marca mais visível, no entanto, é a dos prisioneiros da Guerra dos Boers. Cerca de 6000 foram colocados em campos de concentração na ilha e quase 200 morreram aqui.

Ao final da tarde, paramos no cemitério onde estão enterrados. É um local melancólico, no interior verde da ilha, onde um conjunto de campas idênticas e numeradas, dispostas em anfiteatro, estão quase sempre adornadas por flores depositadas por visitantes sul-africanos.

PÚBLICO -
Foto
Cemitério boer José Filipe de la Fuente

Há três dias, fomos convidados para um churrasco em casa de um dos membros da comunidade de expatriados. Era a despedida de um médico inglês e à nossa volta estavam outros médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico, professores, meteorologistas, veterinários. Estão aqui com contratos de trabalho de dois anos, suprindo necessidades a que não é possível responder localmente. Chegam com direito a um contentor de carga - em que muitos trazem a mobília e até o automóvel - e salários várias vezes superiores aos pagos aos seus equivalentes locais, admitindo que existem, o que é a causa de alguma tensão.

Perguntamos ao nosso amigo Peter, que chegou a Santa Helena há um ano e meio para promover o investimento na ilha, como avalia a experiência. A sua resposta mistura muitas coisas: alguma insatisfação por não ter conseguido fazer mais, em termos profissionais; dificuldade em lidar com a separação da família porque, com o atraso do aeroporto, ir a casa continuou a significar perder quase duas semanas de férias na viagem com o RMS; e uma sensação de descoberta pessoal. Aqui estamos mais disponíveis para tentar coisas que nunca fizemos, seja desafiar as vertigens nas caminhadas dos Post Box Walks, aprender a pescar com artes locais ou tornarmo-nos membros do clube de tiro de Santa Helena, um lugar minúsculo e solene onde saints com verdadeira paciência de santo nos ensinam como disparar.

Serão estes os novos (auto)exilados de Santa Helena? Um dos convivas ri-se e uma tradução aproximada da sua resposta é que lugares como este atraem três tipos de pessoas: missionários, mercenários e malucos.

Despedimo-nos dos nossos anfitriões e regressamos a casa, através de uma Jamestown adormecida. Perguntamo-nos como será o futuro de Santa Helena, que mudanças trará um acesso que se tornou muito mais fácil, que papel está reservado aos saints e qual o dos estrangeiros. Nos dias seguintes, continuamos à procura de respostas. Mas, essa, é outra história.