Crónica

Palavras, expressões e algumas irritações: ama

A “superama” chama-se Teresa Paula Marques, é psicóloga clínica e propõe-se ajudar famílias “a controlar a rebeldia dos filhos”. À vista de todos. O íntimo e privado que a educação pressupõe transforma-se assim em entretenimento público.

O dicionário ensina que “ama” é uma “mulher que amamenta o filho de outra mulher” (a que também se chama “ama-de-leite”) ou ainda uma “mulher que, na sua própria casa, toma conta de crianças”. Não se regista “superama”, como seria a tradução do título do novo programa da SIC: Supernanny. E que parece ser a antítese de quem se dedica a “criar uma criança”, com os erros e dificuldades que humanamente implica.

Descrição no PÚBLICO: “Uma criança porta-se mal, a família inscreve-se no programa e, caso seja escolhida, recebe a visita de uma ‘superama’ para a ajudar a recuperar ‘o controlo da educação dos filhos’. Funciona assim o Supernanny.”

Vai para o ar, de novo, neste domingo à noite, apesar das críticas da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens, da Unicef e do Instituto de Apoio à Criança e das queixas recebidas pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social e Ordem dos Psicólogos.

Em causa está o “elevado risco de o programa violar os direitos das crianças, designadamente o direito à imagem, à reserva da vida privada e à intimidade”. Os pais do segundo “episódio” tentaram que não fosse transmitido.

A “superama” chama-se Teresa Paula Marques, é psicóloga clínica e propõe-se ajudar famílias “a controlar a rebeldia dos filhos”. À vista de todos. De acordo com informações divulgadas, os agregados receberão mil euros para ser “ajudados”.

O íntimo e privado que a educação pressupõe transforma-se assim em entretenimento público. “Pode um drama real duma criança — no contexto duma exposição que a compromete, para sempre — ser considerado... entretenimento?”, questionou o psicólogo Eduardo Sá.

O programa foi criado em 2004 no Reino Unido e reproduzido em Espanha, Alemanha, França, Suécia, EUA, Brasil e China. Não recebemos notícias de “filhos problemáticos” agora adultos terem tentado processar os pais ou as produtoras. Mas temos pena.

A rubrica Palavras, expressões e algumas irritações encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO