Opinião

Malucos da corrida?

De footing passou a jogging... de mera corrida passou-se à moda do running. A prática de corrida recreativa popularizou-se em Portugal, sendo hoje uma das atividades físicas mais praticadas. São mesmo um grupo de “malucos” todos estes corredores?

Correr. Tão simples e acessível, tão natural e, no entanto, antes do 25 de Abril, as provas de corrida apenas tinham permissão oficial se fossem organizadas pelo Inatel, Ministério da Educação, Exército ou Federação Portuguesa de Atletismo. O objetivo de todas elas era a competição pura e simples, ou seja, o apurar dos melhores. As provas oficiais principais resumiam-se a corridas na clássica pista de 400 metros no Verão e provas de corta-mato e estrada no Inverno. Na década de 19­60, as provas nacionais de maratona não registavam mais do que meia dúzia de intervenientes e pairava o “fantasma” de que as corridas com mais de dez quilómetros eram pouco saudáveis. A maratona chegou mesmo a ser considerada uma prova desumana!

A partir de 1975, a liberdade chegou também às corridas e a pioneira Meia Maratona da Nazaré demonstrou que pessoas de todas as idades e níveis de prática desportiva podiam facilmente correr 21 quilómetros. O país vivia uma onda de entusiasmo e o aparecimento das chamadas “provas abertas” disparou por todo o país e foi um dos segredos do crescimento desta atividade nas décadas de 80 e 90. Hoje, temos centenas de corridas abertas todos os anos e, em 2017, decorreram 53 provas com mais de mil corredores a conseguir terminá-las.

Desde então, a massificação da prática de corrida acentuou-se, sendo hoje a terceira forma de atividade física mais popular dos portugueses com mais de 14 anos. Cerca de 15% dos adultos portugueses reporta correr “regularmente” e 11% indica que corre, por semana, pelo menos duas vezes, 60 ou mais minutos no total. O praticante médio corre 3 a 4 vezes, durante 3 horas no total, percorrendo 20 quilómetros por semana.

Serão várias as razões deste fenómeno, como a generalização das oportunidades para correr em passeios marítimos/fluviais, passadiços e trilhos cada vez mais atraentes, bem como os muitos eventos e “corridas populares” de todos os tipos, que valorizam tanto a participação e o prazer da atividade física em grupo, como a competição e o desafio da auto-superação. Mas há mais:

  • A crescente sensibilização da população para as questões da saúde e bem-estar e para os efeitos benéficos do exercício (nomeadamente, na gestão de peso);
  • O efeito agregador e motivador dos grupos formais e informais de corrida, cada vez em maior número;
  • A oportunidade de “correr por uma causa” (para lembrar uma efeméride, angariar fundos, celebrar a superação de uma doença);
  • O marketing associado à corrida, não só apelando à participação em eventos, mas também à compra de equipamento, tecnologia e outros produtos e serviços (p.ex., profissionais de exercício físico especializados no treino da corrida para “não-atletas”).

A corrida é uma verdadeira história de sucesso na promoção da atividade física em Portugal, pese embora não resulte de uma estratégia ou de políticas especificamente desenhadas para esse efeito. Importa aprender com este exemplo. Mas importa também, para além de atrair novos participantes, preservar tanto a motivação como a saúde dos actuais corredores.

Como vimos antes, o corredor médio ultrapassa claramente as recomendações para a saúde (150 minutos ou mais de atividade física moderada numa semana), algo que apenas um quarto da população em geral consegue. Sabemos também que a prevalência da obesidade nos corredores recreativos é cerca de 6%, versus 22% na população. Finalmente, é bem provável que estes “atletas”, ao terem passado a treinar regularmente, adotem também outros comportamentos saudáveis, como melhor alimentação e menor consumo de tabaco e álcool, o que significa melhorias substanciais nos custos para o sistema de saúde.

PÚBLICO -
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Fonte: Estudo “Retrato da Corrida Recreativa em Portugal” (em preparação), Faculdade de Motricidade Humana, Universidade de Lisboa

Assim, os badalados riscos da prática de corrida, nomeadamente em distâncias superiores a dez quilómetros, devem sempre ser considerados à luz dos benefícios de existirem tantas pessoas agora fisicamente ativas. A ocorrência de eventos graves de natureza cardíaca em pessoas que praticam corrida é muito reduzido, quando comparada com outras atividades do dia-a-dia e, sobretudo, quando contrastada com o “risco” de melhorias marcantes na saúde e bem-estar. Como problemas, sobram assim para análise as “mazelas do corredor” e o que estas podem representar para o abandono precoce da prática.

No domínio das lesões do corredor, importa referir que estas são, sobretudo, de “sobrecarga” e quando existe uma inadequada adaptação dos músculos, tendões, ossos ou cartilagens às cargas de treino. Com frequência identifica-se, na prática clínica, que os corredores lesionados têm volumes de treino elevados e metodologias de treino inadequadas. As lesões apresentam-se com um quadro clínico de dor progressiva, localizada, e que, numa primeira fase, não são limitativas da prática mas que, com o passar do tempo e a persistência da corrida, levam à paragem da atividade. Por vezes, podem mesmo causar alterações dos tecidos que se tornam crónicas e prolongam o tempo de inatividade.

É fundamental que o praticante, para além de respeitar as regras e orientações na administração de cargas (planos de treino adequados à condição e capacidade), saiba identificar os sinais que o corpo vai dando, nomeadamente a dor. Para além disso, pode ser útil envolver profissionais de exercício físico, para um correto planeamento do treino, e profissionais de saúde, de preferência com formação específica na área da medicina desportiva, quando existe dor persistente e suspeita de lesão. 

A corrida recreativa parece estar para ficar e os benefícios para a saúde da população largamente superam os riscos. Venham, por isso, mais praticantes e que a “maluquice” se resuma a saber apreciar uma vida fisicamente activa, por muitos anos.