Apanha-se sida por um talher? 27% dos jovens acham que sim

Também há quem pense que pode ficar infectado por um espirro. Dados fazem parte do estudo Vida Sem Sida, uma parceria da Universidade de Lisboa e do projecto Aventura Social, que mostra também que menos de 40% dos jovens usam sempre preservativo.

Manuel Roberto
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Manuel Roberto

Mais de um quarto dos jovens (27%) ainda acha que pode ser infectado com VIH se comer ou beber de pratos, talheres e copos que já tenham sido usados por uma pessoa infectada e 12% acreditam que podem contrair a doença se alguém com VIH tossir ou espirrar perto deles. São resultados do estudo Vida Sem Sida, uma parceria da Universidade de Lisboa e do projecto Aventura Social, que mostra também que menos de 40% dos jovens usam sempre preservativo.

Do público-alvo fazem parte jovens entre os 18 e os 24 anos, de três grupos: universitários; do programa Escolhas (que abrange uma população mais desfavorecida) e da rede Instituto Português do Desporto e da Juventude. No total, participaram no inquérito 1166 pessoas, de todas as regiões e ilhas. O questionário esteve online entre 25 de Abril e 10 de Junho do ano passado. O projecto foi financiado com um prémio que o grupo de investigadores recebeu do laboratório Gilead.

“Queríamos estudar os comportamentos sexuais e como as coisas tinham evoluído”, diz Margarida Gaspar de Matos, uma das investigadoras, autora de vários estudos sobre os jovens portugueses. Quiseram avaliar dois grupos muito diferentes: por um lado, jovens universitários com mais regalias e acesso a informação e, por outro, jovens em situação de subemprego ou desemprego provenientes de uma população mais vulnerável. Embora a amostra não seja representativa do todo nacional, Gaspar de Matos esclarece que é representativa dos dois universos que responderam.

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O estudo — que é apresentado neste sábado na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa — mostrou que ainda há mitos a quebrar. Como o de que usar talheres, pratos ou copos que já tenham sido usados por uma pessoa infectada pode levar à transmissão da doença — 27% dos 1166 participantes acreditam nisso —, ou que o VIH pode ser transmitido através de um espirro (12%). Mas há mais: cerca de 5% acreditam que uma pessoa pode ficar infectada ao abraçar alguém doente e outros tantos dizem que quem parece muito saudável não está doente.

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Margarida Gaspar de Matos considera “incrível” que depois de tantos anos a falar sobre o VIH ainda existam mitos como estes. “Quando não sabem as formas de transmissão, desenvolvem conhecimentos errados, estereótipos e crenças falsas como ‘vejo pelo aspecto do rapaz que não tem sida’. Outro lado negativo, do ponto de vista social, é acharem que a pessoa infectada não pode ir onde as outras vão.”

Preservativo em queda

O estudo relembra que em Portugal, "os últimos dados referem que 33,3% dos infectados situam-se na faixa etária dos 15 aos 29 anos e 15,6% têm idades entre os 15 e 24 anos". Não é por isso de estranhar que a investigadora destaque como igualmente preocupante o facto de apenas 37,7% dos jovens inquiridos afirmarem que usam sempre preservativo.

Muitos, sobretudos os homens e os não universitários, têm a percepção de que estão em risco de contrair a doença. “Podem ter essa percepção, mas não a transformam em comportamentos de protecção. Nos anos 1980, o risco de transmissão era sobretudo associação ao uso de seringas, hoje o risco é sexual. E as pessoas não se protegem”, alerta.

À pergunta sobre se usaram preservativo na primeira relação sexual, 78,8% disseram que sim, mas a percentagem cai drasticamente quando questionados sobre se usam sempre preservativo. Aí, só 37,7% afirmam que o fazem.

“Ser 78% na primeira relação é mau, devia ser 100% seguro, mas ter menos de 40% a usar sempre é calamitoso. O uso do preservativo vem descendo desde 2010. Houve um desinvestimento das políticas públicas relacionadas com o VIH, até parece que este desapareceu”, afirma Gaspar de Matos, referindo que a mensagem de esperança que se passou em relação à doença terá levado os jovens a desvalorizarem a protecção.

"Preferem apanhar sida do que ficar sozinhas"

“Há uma desmotivação no uso ou porque é desagradável ou porque 'quando se ama confia-se, sei que ele é fiel'.", prossegue. "Mas também oiço jovens a dizer que preferem apanhar sida do que ficar sozinhas quando há uma recusa do rapaz em usar o preservativo. A educação sexual devia passar por isto, não só ensinar a usar o preservativo. Devia ser inserida na valorização do casal, da igualdade de géneros, ensinar quando o tema deve ser introduzido na conversa.”

Apesar de existir educação sexual nas escolas e informação sobre o VIH e outras doenças sexualmente transmissíveis transmitida por organizações da sociedade civil e campanhas nos media, são muito poucos os que se lembram da última mensagem preventiva que ouviram ou viram. Especialmente o grupo dos não universitários.

“A informação não é consolidada, é pontual e perde-se. A informação é muito importante, mas informação avulso, sem acções concretas não interessa”, diz a investigadora da Universidade de Lisboa, acrescentando: “A educação sexual é uma questão de cultura e de saúde. Devia ser depurada de questões políticas e religiosas. Há pais que não dão informação aos filhos com o argumento de que isso vai levar ao início de relações sexuais. Não é verdade, há estudos que mostram exactamente o contrário. Os jovens que tiveram educação sexual iniciaram a vida sexual mais tarde e protegem-se mais, pelo menos na primeira vez."

Diferenças regionais

Há diferenças regionais. “Lisboa é o sítio onde as pessoas estão mais informadas e se protegem mais. O Sul e as ilhas precisam de um cuidado especial das políticas públicas. Os jovens estão em mais risco porque têm menos conhecimento. No Norte há algum conservadorismo que protege as pessoas mas que não se traduz em competências. Quando iniciam a vida sexual expõem-se a mais riscos”, aponta.

Entre os pedidos dos jovens estão informação sobre sexualidade dada de forma interessante e interactiva para que possam tirar dúvidas. Um dos projectos com que o grupo de investigadores gostaria de avançar passa pela criação de uma app, com informação “que seja credível" e "uma linha de apoio com linguagem clara”.

“Não podemos prescindir das novas tecnologias", acredita Gaspar de Matos. "E pode ser um guia para pais, professores e monitores de bairro para que se possa destruir estigmas e estereótipos.”

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