Opinião

As razões europeias do Dr. Rangel

A lista transnacional nunca vai ser aprovada porque revelaria demais sobre os políticos que dominam a Europa.

Paulo Rangel, que exibe intervenções televisivas assaz ansiosas, mobiliza na escrita um alter-ego com um pensamento estratégico argumentado, reivindicando-se de uma direita clássica e nisso mesmo revelador de tensões e alternativas. Aprecio o esforço denodado, sobretudo por não estar de acordo com a prosa. Mas foi ele quem me alertou, e porventura a outros leitores, para essa parte de um comunicado da cimeira de governantes mediterrânicos que anuncia uma lista transnacional europeia nas próximas eleições.

A ideia nada tem de novo, Rangel diz-nos mesmo que foi um seu entusiasta até ter arrefecido sobre o assunto. É uma das armas do arsenal de Macron e, por deferência ou convicção, os governantes do Sul carimbaram o comunicado. Faz parte também daquela classe de ideias europeístas que ninguém leva demasiado a sério, mas que ficam bem num discurso enlevado sobre o destino mítico dessa Europa encantadora, raptada por um tal Zeus, disfarçado de potente touro para multiplicar a prole. E que toda a gente sabe que não vai ser concretizada, por razões imperativas: seria necessário que todos os países membros aceitassem mudar a sua lei eleitoral, sem qualquer excepção, já para não mencionar que teríamos assim o PSD e o CDS, ou Merkel e Rajoy, a fazerem uma lista continental com Orban, Berlusconi e outras companhias menos recomendáveis. A lista da direita seria um jardim zoológico. E a dos partidos socialistas europeus seria um problema: será que Macron imporia um seu ministro à frente dessa lista, depois de ter destruído o PS francês? De facto, a lista transnacional nunca vai ser aprovada porque revelaria demais sobre os políticos que dominam a Europa.

Rangel acrescenta outras razões ainda mais substanciais para contrariar a ideia. Três: se se quer europeísmo institucionalista, então a lista europeia é um ataque ao federalismo (nada disso existe em federações e confederações, como no Brasil, Estados Unidos ou Suíça, porque precisamente contraria a ideia federadora); uma lista europeia alarga o fosso entre eleitos e eleitores e cria uma classe de eurodeputados de primeira; e promove o populismo contra um gato de rabo de fora da dissolução das representações nacionais. Ou ainda, que para Portugal seria péssima solução, sendo evidente que as listas seriam encabeçadas por figurões dos países com mais eleitores.

Que o primeiro-ministro tenha assinado o texto, até se compreende. Ele sabe que a proposta é frívola e inconsequente, mas não está para uma maçada dentro de portas. O PS, para concluir os acordos com o Bloco e o PCP, retirou do programa de governo as suas propostas de alteração da lei eleitoral (os círculos uninominais, destinados a fazer o PS e o PSD ganharem na secretaria) e se, à sorrelfa, sem consulta e decerto sem acordo, propusesse agora tal lista europeia num pacto, aliás improvável, com a direita, a ideia só poderia ser considerada como um ataque aos seus parceiros. Costa, homem avisado, não o fará, ponto final.

Fica o problema principal. Por que é que algumas lideranças europeias jogam este jogo, para fingir soluções que logo vão abandonar por inexequíveis? Querem ser levados a sério por proporem o que eles próprios não levam a sério? Quando sobra a estratégia de fumo, fica tudo claro. Mas revela-se uma cultura: os eurocratas acham mesmo que na Europa somos, ou devemos fingir ser, uma única nação a caminho de um único Estado, e vangloriam-se de cada passo, simulado que seja, para substituir as democracias nacionais por uma transcendência, esse terreno em que se movem tão bem os conciliábulos e interesses. Gostariam assim de rejeitar a Europa que pode ser, em nome da que lhes convém. Mas tenha calma, a lista transnacional é só jogo político e brincadeira de carnaval.

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