Os sonhos de três jovens holandeses ganham raízes na serra da Estrela

Deirdre tem 25 anos. Jesse e Siegert, 24. Há um ano, trocaram os Países Baixos pela serra da Estrela, onde fundaram uma cooperativa agrícola. Na Faia Collective, o futuro rural constrói-se num equilíbrio entre o campo e as artes.

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O que leva três holandeses de 24 e 25 anos a deixar o país natal para criar uma cooperativa agrícola (e não só) numa encosta remota da serra da Estrela? Sonhos. Muitos. Diferentes para cada um deles, mas próximos o suficiente para se unirem numa quinta em Faia, freguesia da Guarda com pouco mais de 200 habitantes, segundo os Censos de 2011.

Na lista de ambições de Deirdre Meursing, Jesse Schlechtriem e Siegert van den Berg não existia propriamente um futuro agarrado à enxada, como aquele que afugentou tantos daqui, mas antes desejos simples, quase universais. Como ser “o próprio patrão” e “ter uma empresa”, com “liberdade” e “independência” para “construir alguma coisa sem a pressão de mais eficiência e produção”. Ou o “bom tempo” e a “qualidade de vida” que acreditam existir em Portugal. E a vontade de pôr em prática, localmente e em pequena escala, as teorias demasiado abstractas que os tinham desiludido na universidade, em Utrecht, onde estudaram Filosofia (Deirdre), Políticas Ambientais (Siegert) e Psicologia Aplicada (Jesse).

Para Deirdre e Jesse, a criação do projecto Faia Collective marca também o regresso a um lugar que conhecem desde a adolescência. Em 2007, a mãe e o padrasto de Deirdre trocaram uma “comunidade artística” nos arredores de Amesterdão pela quinta isolada sobre o vale do Mondego. Deirdre e a irmã mais nova vieram com eles, tinham então 14 e 15 anos. “Foi uma mudança grande, mas senti uma enorme liberdade aqui e tinha os meus cavalos, por isso, na verdade, até fiquei muito feliz”, ri-se. Foram Karen e Eelco que iniciaram grande parte do trabalho que a nova cooperativa quer agora continuar e ampliar. Recuperaram a maioria dos edifícios, mudaram a produção para agricultura biológica e criaram um festival de Verão ligado às artes performativas. Para a família de Jesse, há muito que Portugal era destino de férias. “Quando soubemos que eles também eram holandeses e que tinham acabado de abrir uma área de campismo [ao público], decidimos vir”, recorda. A partir daí, voltaram todos os anos.

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Nos últimos tempos, no entanto, os pais de Deirdre começaram a dar sinais de querer passar o testemunho à geração seguinte. “O trabalho é muito árduo numa quinta e eles estão a ficar mais velhos e com vontade de fazer outras coisas”, conta. Foi assim que Deirdre, Jesse e Siegert “entraram em cena”. “É estranho porque não houve um momento em que dissemos: ‘Agora vamos morar aqui com três ou quatro pessoas e fazer isto’. Mas todos nós acabámos por chegar aqui de uma forma natural, ficámos e fizemos um plano de negócios para três anos”, recorda Deirdre. “É nisso que estamos empenhados agora.”

Cânhamo, azeite e cultura

Não é fácil encontrar a quinta. O GPS indica estradas que não existem, levou-nos por caminhos empinados sem saída. Chegámos à terceira tentativa. Na fachada do edifício principal, ainda se lê o antigo nome da propriedade, Domínio Vale do Mondego. Mas desde Janeiro do ano passado que a cooperativa agrícola fundada por Deirdre, Jesse, Siegert e Jasper (que entretanto regressou aos Países Baixos) gere os desígnios da herdade. O objectivo é reforçar a parte agrícola e organizar mais eventos ao longo do Verão, agora “mais focados nos jovens”. São tantos os planos que o cartão-de-visita da Faia Collective poderia cair em fole, numa lista de actividades. “Dava para desdobrar e ficava uma página de negócios com tipo meio metro”, atira Siegert para gargalhada geral. “Jardim, azeite, festival, cultura, …”, enumera, sentado num dos sofás gastos da sala, entre gatos dengosos.

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Uma das novidades que introduziram foi a plantação de cânhamo, para produzir óleo à base de canabidiol (CBD). A substância, embalada em pequenos frascos com conta-gotas, traz alegados benefícios para a saúde, nomeadamente no combate à insónia e à ansiedade. Além disso, estão a plantar mais cerejeiras e amendoeiras. E a mudar a marca de azeite, feito com as azeitonas que acabam de apanhar com a ajuda de voluntários e prensado na cooperativa local de olivicultores, na outra margem do Mondego. “Queremos focar-nos em produtos de grande valor [comercial] e tentar ter aqui toda a linha de produção ou perto”, indica Jesse. No final, exportam tudo para os Países Baixos, onde “existe mercado para produtos biodinâmicos”. Só assim, acreditam, é possível viver da agricultura. Num pedaço de terreno, cultivam ainda boa parte dos produtos hortícolas que consomem e fazem multiplicação de sementes biológicas para uma empresa sediada em Idanha-a-Nova.

Para Siegert, a mudança de vida não podia ter sido mais radical. “Sempre vivi na cidade. Nunca tinha estado numa quinta”, confessa. “Quando vim, uma das coisas que tinha mais curiosidade era ver o que de facto acontecia na natureza quando as estações mudam.” Quando estava a terminar o curso, a vinda para Portugal já se desenhava no horizonte. “Escrevi a minha tese sobre a serra da Estrela”, conta. Um estudo teórico sobre como atrair jovens agricultores à região e, dessa forma indirecta, contribuir para diminuir a propagação dos fogos florestais.

“Agora que trabalho aqui, sei o quanto custa produzir um litro de azeite e, por isso, dou-lhe muito mais valor”, exemplifica, para a seguir falar sobre um dos sonhos que o trouxe até Faia. “Não quero aprender tudo isto só por mim, mas também para ensiná-lo a quem vem cá.” É essa a ideia por trás dos eventos que organizam durante o Verão (festivais, semanas temáticas, campanhas de apanha de produtos, eventos privados). Além da programação artística — que continua a ser assegurada pela mãe de Deirdre —, querem reforçar a componente educacional, promovendo debates sobre temas como sustentabilidade, liderança ou comércio justo.

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Na origem das diferentes actividades está sempre o mesmo “fundo ideológico”. “A quinta é biodinâmica, todos os nossos produtos são certificados e, no caso dos eventos, tentamos que tenham conteúdo, para que as pessoas aprendam alguma coisa enquanto cá estão”, enumera Jesse. “Fazemos sempre uma visita guiada pela quinta, para falar de agricultura e desta região”, acrescenta Siegert. “Queremos mostrar que é possível manter estas tradições e lugares.” Essa é uma das razões por que deixaram de abrir a quinta a estadias curtas, como estava inicialmente previsto. “As pessoas só passavam aqui a noite, por isso sentíamos que não nos conseguíamos relacionar verdadeiramente com elas e contar-lhes a nossa história”, resume.

Foi um primeiro ano duro. Muitas mudanças e um Verão extremamente longo, quente e seco, que tratou de lhes recordar que a vida no campo não é fácil. A equipa perdeu entretanto um elemento, mas Deirdre, Jesse e Siegert não pensam em desistir. “Somos jovens e inexperientes, por isso há uma grande possibilidade de mudarmos muita coisa nos próximos anos, mas vejo um bom futuro”, analisa Jesse. A longo prazo, os sonhos alargam-se. Querem encontrar “um equilíbrio entre a ligação à terra”, contribuindo para a biodiversidade e para a conservação da flora original, e “tornar um sítio como este vivo outra vez”, incentivando outros a escolher o mesmo caminho. Avança Deirdre: “Podemos ser um exemplo em Portugal de jovens que regressaram ao interior, com motivação e ambição de criar um negócio e viver numa região destinada a ser esquecida”.