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A vida de Istambul passa muito pelos cafés Izzet Keribar/Getty Images
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Grande Bazar Gary Yeowell/Getty Images

Istambul: aqui há gatos e vivem como gente

Estes gatos não são só gatos. Assistiram à ascensão e queda de impérios e forjaram um pacto singular: não têm dono, mas escolhem as “suas” pessoas. Não chegámos a perceber quantas vidas têm os gatos de Istambul, mas vadiámos como eles.

Já a tínhamos visto em fotos. Öztürk Karedimir tem algumas no telemóvel. Chama-lhe a rainha, ou imperatriz, de Hagia Sophia. Cremos que muita gente lhe chama o mesmo. Todos com quem falámos em Istambul a conhecem, mesmo Melike Torun, que apenas visitou duas vezes Hagia Sophia. O nome próprio é Gli e já teve a honra de conhecer R. Tayyip Erdogan e Barack Obama. Não é um feito pequeno para uma gata, mas esta é provavelmente a mais conhecida da Turquia. Ela vive então, no museu, que já foi catedral e mesquita, e encontramo-la sem procurar. Posa e deixa-se afagar, altiva e submissa, indiferente e amistosa. Tem até direito a biografia semi-oficial no site do monumento: filha de Sofi, teve um irmão, Pati, e uma irmã, Kizim, foi mãe de Karakiz e quando era mais jovem gostava de caçar pássaros, coisa que já não pode fazer porque, com 13 anos, a agilidade e a vista já não são as mesmas.

A biografia de Izi não tem direito a referência na Internet e do que ela gosta mesmo é de dormir e ser tocada: o corpo retesa-se e a cabeça ergue-se. É um dos gatos residentes do Naftalin Café e ocupa a nossa cadeira aproveitando uma ausência momentânea; Moma não sai da mesa onde se instalou, mesmo quando um grupo se senta nas cadeiras em redor. Fotografamo-los com o telemóvel em cima da cara: nem sempre posam, porém tão-pouco se incomodam com a atenção. Gli pode ser a rainha de Hagia Sophia, Izi e Moma ter lugar cativo num café, mas são apenas três entre as centenas de milhares de gatos que percorrem as ruas de Istambul. Percorrem como as pessoas o fazem: têm a sua casa, a sua “família”, onde voltam regularmente. “Quando alugas uma casa em Istambul já sabes que ‘vem’ com um gato”, afirma Melike. Ela própria “teve” um, que a esperava, entrava, estendia-se no tapete, comia, bebia e se colocava à frente da porta. “Era o sinal de que estava farto de mim”, brinca.

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Os gatos são reis em Istambul. Não se dão a ninguém e dão-se a todos. A realizadora turca Ceyda Torun sabe-o bem. Ainda que apenas tenha vivido na cidade, no país, até aos 11 anos, passava os seus dias com gatos. A mãe tinha medo que ela contraísse raiva, a irmã que ela levasse pulgas para casa. Ela sente-lhes a falta em Los Angeles, onde vive. Então, decidiu passar uns meses na sua cidade natal a filmar os seus gatos e a relação com a cidade e as suas gentes. No final, escolheu sete para protagonizarem o documentário Gatos (Kedi, no original), um filme que é uma espécie de “carta de amor aos gatos e à cidade, ambos a transformarem-se de maneira imprevisível”, diz no comunicado de imprensa. Segue-os por Istambul, por entre barcos, ruelas, becos, buracos, armazéns, cafés e esplanadas, mercados de peixe, casas, ruas tranquilas marginadas de árvores — eles são Aslan Parçasi, Bengú, Deniz, Duman, Gamsiz, Psikopat e Sari, todos têm nome, alguns têm os seus humanos preferidos. “Eu sou a principal pessoa da sua vida, mas ele vai a vários locais. Cada um lhe dá uma coisa diferente”, afirma, no filme, o dono de um café. Os humanos “eleitos” vêem neles fonte de felicidade e um elo com Deus — o profeta Maomé adorava gatos e, conta Öztürk, uma vez preferiu rasgar a manga da sua túnica de oração do que perturbar o seu gato preferido, Muezza. “Não concebo a cidade sem gatos, parece-me vazia”, diz a voz-off perante a ameaça de “limpeza” de Istambul, que “já não consegue acomodá-los a todos”. Eles, afirma, “são a essência da cidade”.

E é à boleia deles que vamos descobrir uma Istambul que nem sempre entra nos roteiros turísticos, nem sempre corporiza o ideal do encontro entre Ocidente e Oriente. Visitamo-la através do olhar e das vivências de alguns dos seus habitantes, que acabaram por delinear a nossa estadia. Entre visitas “obrigatórias”, tivemos tempo para tomar muito chá em vários cafés e esplanadas com vistas indescritíveis sobre o Bósforo e o Corno de Ouro, jantámos numa casa de família, bebemos raki num restaurante com mais de cem anos, sentámo-nos à beira-mar apenas vendo chegar e partir os barcos, deambulámos por livrarias, cheirámos muito (das flores vendidas na rua às castanhas assadas, kebabs e dürüms) e ouvimos mais (música sufi, iraniana, xamânica, tradicional do mar Negro, de intervenção, pop, electrónica — e até acordámos ao som de Shakira). Fomos assediados por gatos, ignorados por muitos; vimos um cão a dormir numa cama coberto por um edredão de flores azuis — diferença entre ambos?  “Os gatos sabem da existência de Deus. Os cães pensam que os homens são deuses”, ouve-se em Gatos, que tem antestreia (solidária, em parceria com a SOS Animal) amanhã, 21 de Janeiro, no Fórum Lisboa, e estreia nacional no dia 25.

Öztürk

É um “turco puro”, ri Öztürk, 32 anos, explicando o significado do seu nome, ainda que os seus avós sejam da Geórgia. Até o bigode, arrebitado nas pontas, parece querer gritá-lo — para que não restem dúvidas, na galeria dos retratos do palácio Topkapi haverá de colocar-se ao lado de algumas imagens de sultões à laia de “descobre as diferenças”. Estudou na Universidade de Istambul e está agora a preparar-se para fazer os exames de acesso à função pública, quer fazer algo ligado ao turismo, à história. Fatih é o coração de ambos, é o coração da Istambul histórica, e ele conduz-nos com à-vontade: nas ruelas empedradas à volta da universidade conhece todos os cafés; nos grandes monumentos regressa ao império otomano, “o maior do mundo”, palavras dele. Tão grande que o império bizantino só entra voluntariamente no seu discurso quando entramos na Hagia Sophia e nos mostra cruzes que sobreviveram, gastas, à islamização da catedral, que foi mesquita e agora é museu — decorre, aliás, alguma discussão pública, conta-nos, porque há quem queira que volte a ser mesquita. Concorda? “Não sei”, hesita, “vamos perder muito dinheiro, mas seria bom voltarmos a poder rezar aqui”. Actualmente, os crentes têm um espaço nas traseiras para fazer as orações, aponta Öztürk, enquanto percorremos o amplo espaço empedrado em direcção à entrada do palácio Topkapi. No imenso complexo palaciano, avançamos por praças e pátios, entramos em quiosques, até ao seu extremo — multidões debruçam-se sobre as panorâmicas oferecidas pelos terraços marmóreos com vista para a embocadura do Bósforo. Öztürk leva-nos num desvio, que passa quase despercebido, pela zona de ablações. Aí, no recinto fechado por muros altos, estamos sozinhos numa varanda sobre a paisagem. É uma “óptima localização”, diz o nosso companheiro. Sem dúvida. “Não percebo como é que antes não o perceberam. O palácio dos cristãos era no local da mesquita Sultanahmet”, troça — mas a acrópole de Bizâncio, colónia grega, era aqui.

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Öztürk DR

É fácil tropeçar em camadas de história nesta zona de Fatih, conhecida por Sultanahmet, ainda que caminhemos por ruas de prédios, não mais de quatro, cinco andares, das décadas de 1950 e 1960, conta Öztürk, altura em que houve grande imigração de outras regiões da Turquia (a sua família é ela própria migrante, vinda de Artvin, no mar Negro). O traçado das ruas mantém-se como um dédalo que sobe e desce sete colinas, cada qual encimada pela sua mesquita imperial. Nós vamos à preferida de Öztürk, a de Süleymaniye, por ruelas íngremes de empedrados gastos. Antes, porém, subimos à esplanada do Mimar Sinan Teras Cafe, espaço de atmosfera otomana, com os característicos sofás em tecidos dourados e vermelhos distribuídos em várias divisões. São dezenas as mesas, todas ocupadas: sobre elas repousa, invariavelmente, chá, o narguilé, com o carvão regularmente alimentado, instala-se ao lado de algumas. O sol aquece o Inverno e dá um brilho particular ao cenário. Diante de nós, o Corno de Ouro e as suas pontes, abraçados pelo casario que trepa colinas suaves, numa tela pastel com intromissões de cores fortes deslavadas onde a pedra da Torre Gálata se destaca, até arranha-céus, última fronteira contra um céu que aí perde o azul profundo engolido por uma nuvem cinzenta de poluição. Deste lado, uma amálgama de telhados (tantos com terraços como o nosso, igualmente cheios), que sobe e desce embalada pela topografia e onde sobressaem cúpulas e os minaretes de incontáveis mesquitas.

Mesmo por detrás de nós, a mesquita Süleymaniye, como uma varanda imensa sobre a mesma paisagem. Deixamo-nos guiar pelas ruas tranquilas que descem por trás desta, onde antigas casas otomanas de madeira recuperadas ostentam pinturas garridas e sentamo-nos quase na rua, no Gül Çay Evi, onde tomamos “o melhor chá de Istambul”. Já estamos na órbita da universidade, era aqui que Öztürk passava longas horas enquanto estudava língua e cultura persas; e é aqui que sentimos pela primeira vez a generosidade de estranhos em Istambul: os chás são pagos por dois homens que haviam estado sentados na outra mesa da minúscula esplanada.

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O imponente pórtico do principal campus da universidade tutela a Beyazit Meydani (praça), nome herdado da mesquita que aí se encontra. Aos pés do pórtico, a praça está em obras e parte da própria mesquita está entaipada. Nas suas traseiras, a feira da ladra que acontece todos os dias com o seu “profeta” residente, Hüseyin Avni Dede, poeta de cabelo branco despenteado e longa barba. Os livros que exibe na sua banca,

entre uma miríade de outras coisas, são um prelúdio para o que se segue: passado um pórtico, uma pequena praça está invadida de livrarias. E a praça faz-se rua, até que os livros são substituídos por roupas, utensílios de latão e cobre, especiarias, bolsas de pele e tantas mais coisas que se alinharão no Grande Bazar, porta quase anódina aberta nesta ruela. Dizem que é o maior mercado coberto do mundo. Acreditamos, não o percorremos todo. Somos detidos com explicações numa loja de turkish delight e detemo-nos noutra de antiguidades. Bizantinas, otomanas, ortodoxas. “Umas são verdadeiras, outras são cópias”, assume o dono.

Süheda

O nosso guia reduz Balat a duas frases e apenas como uma das paragens de um cruzeiro ao longo do Corno de Ouro. Já foi a casa de uma grande comunidade judaica e agora é ocupado por migrantes de outras partes da Turquia. A mais antiga sinagoga da cidade, Ahrida, está aqui, acrescenta — procurando essa entrada, lemos que foi fundada por judeus sefarditas que, expulsos de Espanha, encontraram refúgio no Império Otomano no final do século XV e inícios de XVI e que o ladino ainda é falado por alguns. Imaginamos que Espanha também inclua Portugal, mas, confessamos, três dias de Istambul não teriam sido suficientes para dirigirmos os nossos passos a Balat. Contudo, este é também o bairro preferido de Süheda Karakebelioglu, 23 anos, que, no seu único dia livre (é enfermeira) nos propõe uma visita à zona. Claro que sim.

Balat fica em Fatih e empoleira-se como pode numa colina, sobrando-lhe em cor o que lhe falta em manutenção. Ruelas tortas, empedradas, empinadas e enroladas: subindo-as, sentimo-nos quase a fazer escalada, descendo-as, a fazer uma prova de resistência. Afinal, a Balat de Süheda inclui também Fener, explica-nos enquanto caminhamos entre velhas casas otomanas, tantas vezes unidas umbilicalmente por cordas onde seca roupa. São dois antigos bairros cujas fronteiras se diluem por estes caminhos que ela conhece bem (tanto que caminha sobre tacão alto enquanto nós só pensamos em não cair) unidos por uma nova vaga de ocupação por jovens artistas, associações culturais e cafés. É a nova zona “alternativa” de Istambul. Não sabemos se virá a gentrificação, a verdade é que alguns dos edifícios, mosaico de verdes, azuis, amarelos, rosas, estão recuperados e com sinais de “aluga-se” nas fachadas, outros estão resguardados por tapumes altos cobertos de grafitti. São uma minoria, porém, neste bairro onde a arquitectura é otomana, pontuada por casarões, tantos esventrados, quase ruínas.

São os rés-do-chão que atraem a atenção, com a sucessão de lojas, inevitavelmente vintage; portas fechadas com sinais de ateliers; cafés de vários estilos com as suas pequenas e elegantes esplanadas a acompanharem as montras; portões que abrem para pátios cheios de mesas; fachadas pintadas com motivos ingénuos. Tudo enquanto os habitantes seguem a sua vida normal, alheios à “sensação” em que se tornou o seu bairro.

O liceu grego, Fener Rum Lisesi, a mais antiga escola ortodoxa grega de Istambul (secular) é ponto de peregrinação e um dos testemunhos da convivência de várias fés nestas paragens. Está fechada, mas o edifício de tijolos vermelhos é cenário de muitas fotografias: no alto, sobressai pela dimensão e remate com ameias, coroando um corpo neogótico misturado com motivos islâmicos. Süheda, fanática do Instagram (que, parece ser, aliás, a rede social preferida dos turcos), aproveita para fazer várias fotos, antes de voltarmos a descer as ruas serpenteantes até ao Naftalin, uma esquina com vista para muitos outros cafés. Neste, perdem-se a conta aos gatos, um até a ocupar a única mesa livre, encostada a largo pilar onde se pendura uma antiga máquina de escrever Remington — a decoração é retro e vintage.

Já anoiteceu quando saímos e as ruas enfeitam-se de luzinhas que debruam janelas de lojas, cafés e pátios-esplanada; o cheiro a waffles e chocolate é intenso. Na sua loja-oficina, Ozgun ainda trabalha o bronze e o latão; a galeria de arte The Pill está fechada, mas os hammans continuam de portas abertas. Aberto está também o Agora 1890, embora pareça fechado: o rés-do-chão é apenas o vestíbulo, iluminado escassamente, o primeiro andar o coração desta taberna que, como o “novo” nome indica, abriu em 1890. Foi recuperado pelo realizador Ezel Akay, conta Süheda, e a “especialidade” continua a ser o raki, a bebida típica turca (parecida com o grego ouzo) que se bebe, normalmente, diluída em água. Ficamos na esplanada coberta, com a churrasqueira acesa (cozinha-se e aquece-se) e diante de nós vão-se acumulando mezze (aperitivos) — é a tradicional “mesa de raki”.

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Se precisássemos de mais provas da hospitalidade turca, o convite para jantar em casa de Süheda seria suficiente. Vive com os pais e dois irmãos num quarto (e último) andar de uma rua do sul de Fatih. Somos recebidos pela família toda, incluindo os periquitos Beetlejuice e Peggy Sue. A família já jantou e assiste à versão turca de um concurso de música; a mesa está posta só para nós — sopa, saladas, peixe que o pai pescou nessa manhã nas margens do Corno de Ouro. Os pais não falam inglês, a irmã é envergonhada, o irmão curioso. O pai tem na mão o masbaha (o “terço” muçulmano), a mãe usa lenço, Süheda veste mini-saia. Tomamos chá todos juntos, acompanhados de “delícias turcas”, quatro variedades. Despedimo-nos com insh’allah – oxalá volte a casa deles, dizem eles, dizemos nós.

Melike

Se Balat-Fener é o bairro up-and-coming a descobrir, Kadiköy foi-o há uma dezena de anos. Do lado asiático da cidade (ou, como dizem aqui, do “lado anatoliano”), a maneira mais fácil (e agradável) de lá chegar é de ferry. Partimos de Eminönu num dos barcos “nostálgicos” (a frota está a ser renovada), com bancos de madeira e pequeno bar: é de chá na mão que vemos a Europa afastar-se, a Ásia a ganhar volume e os navios ancorados no mar de Mármara fantasmagóricos, num véu de luz reflectida no espelho-de-água prateado, quase imóvel.

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Melike DR

Melike, 38 anos, espera-nos no café do terminal de ferry, com um grande terraço sobre a água. Este é o seu bairro, ainda que agora viva mais afastada, com os pais. “A minha irmã continua a viver aqui”, diz, “tem um estúdio de pilates”. Havemos de ir lá. Por agora, Melike descreve-nos o bairro, o “Taksim asiático”, mas sereno e espaçoso: a parte central, onde estamos, mais comercial, a parte a sul, mais residencial (e cara), e a norte a zona mais artística. Galerias de arte, lojas de roupa de designers locais, bares, cafés. “É muito vibrante e livre. Aqui podes ser o que quiseres”, considera a produtora de conteúdos e gestora de redes sociais, neste momento a trabalhar como freelancer para uma multinacional.

Faz o seu horário e, portanto, pode usufruir verdadeiramente da “mais importante refeição” para os turcos, diz, o kahvalti, pequeno-almoço. Já estamos do outro lado do nosso passeio, à beira do mar que parece sempre um lago gigante, no bairro Moda. O Moda Van Kahvalti é o local onde mais gosta de ir tomar o pequeno-almoço, aponta quando passamos, mas mesmo em casa demora sempre uma hora pelo menos. “É a altura em que se reúne a família e há uma variedade enorme de comida”, explica: azeitonas, compotas de todos os tipos, queijo, ovos cozidos, mel, pepinos, tomates, o inevitável chá e o omnipresente simit (o pão tipo rosca com sementes de sésamo que se vende por todo o lado na rua).

Para trás ficou a sua antiga rua, numa zona de prédios e cafés, onde os gatos, tal como vimos no filme Gatos, têm casas construídas na rua, taças de comida e água, dormem nos parapeitos e esperam à porta dos prédios que lhes abram a porta, nos intimam a mimá-los, encostando-se e ronronando. Antes tínhamos percorrido ruas de comércio intenso, outras de cafés e restaurantes que marcam o seu espaço com esplanadas cobertas a ocupar todo o passeio; a ópera surge numa das avenidas principais e passamos vários centros culturais, paredes e muros cobertos de cartazes. Atravessamos mercados de velharias, onde os vendedores não instigam a compra, e em Moda entramos num parque que segue entre a água e falésias rochosas onde se incrustam restos de muralhas, em relvados, campos de jogos, parques infantis, coretos de ferro forjado e cheiro a marijuana. “Sentes?”, pergunta Melike, rindo. Há novos e velhos, sentados na relva ou à beira-mar. Só não há quem faça uso do equipamento desportivo, incluindo um ginásio ao ar livre. “Aqui preferimos sentar-nos em cafés”, ironiza Melike.

É no Lusnika, um bar perto do mercado de peixe, que nos sentamos. A velha casa otomana, estreita, abre para uma sapataria; é preciso subir para chegar ao espaço dividido em várias salas em dois andares, atmosfera algo decrépita. A música é de intervenção, nota Melike, contudo não emudece o chamamento do muezzin. Aqui vende-se cerveja e petisca-se: pedimos menemem (pimentos e tomate picado, rodelas de chouriço, sucuk, queijo e ovo — tudo mexido e servido bem quente) e muhlama (uma espécie de fondue de queijo com pedaços de milho, o que empresta uma textura grumosa). Melike encolhe os ombros, um pouco desiludida — acrescenta sal e pimenta moída ao primeiro, ao segundo nada. “É só a segunda vez que como”, assume. Chama a atenção para a toalha que cobre a mesa, um tradicional peshtemal, que pode assumir várias formas. “Usámos o tecido para saias, lenços...”.

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Melike não usa lenço, não é religiosa. Os seus pais tão-pouco o são, a irmã, Seldaa, é ateia. Ainda está a terminar uma aula privada de pilates quando lhe batemos à porta. Na parede da sala, vários retratos de Che Guevara acompanhado por citações, em baixo um pequeno pipo serve de garrafeira, mas é chá que Seldaa, piercing no nariz, serve. Chá e política.

Hassan

Vamos às margens do Bósforo por indicação de Hassan. O ponto de encontro é a livraria Alkim, mas Hassan acaba por não poder juntar-se-nos — e a livraria está fechada para renovações Seguimos, contudo, o espírito de Hassan, engenheiro informático de 34 anos, nesta incursão por Örtakoy, em Besiktas. A noite já assentou, vemos-lhe a versão iluminada pelas características luzes amarelas. “É lindo à noite”, assegurara-nos Hassan, “vamos caminhar no lado europeu a olhar para o lado asiático”. Pés a caminho, então, aproximando-nos da água — Istambul tem uma relação próxima com esta, e os corredores junto ao Bósforo só são interrompidos aqui e ali por obras. Vamos em direcção a norte, confiando em Hassan, e tendo a (primeira) ponte do Bósforo, suspensa no azul das luzes que a bordam, como farol. É quase sob ela que se descobre um dos mais encantadores cenários de Istambul: a pequena mesquita de Ortaköy, rendilhado delicado e harmonioso, a erguer-se no extremo de uma pequena língua de terra. Desenha-se uma pequena enseada, onde uns poucos barcos de madeira repousam iluminados pelas luzes de candeeiros forjados a ferro e os pátios dos salões de chá que margeiam o largo arborizado. As esplanadas estão cheias, os bancos em torno das árvores igualmente: famílias inteiras vêm terminar o dia aqui. Comemos um kumpir, “o” petisco a não perder aqui, aconselhara-nos Hassan — a enorme batata cozida com a casca, aberta a meio, enche-se com ingredientes da nossa escolha (pedaços de salsicha e queijo derretido). Não resistimos a partir pedaços, sobrava-nos, e a deixá-los cair para os gatos que aqui circulam, insistentes.

O plano de Hassan era continuar a caminhar, ou apanhar um autocarro, para seguir o caminho de água até à tríade Kurucesme-Arnavutkoy-Bebek. Continuamos a pé e a longa caminhada é recompensada quando já estamos em Arnavutköy. Não entramos no bairro, mas deixamo-nos encantar pelas casas que se erguem diante do mar, altas e estreitas, em tons pastéis de rosas, azuis, laranjas, caixilharias brancas. Imaginamos um local de veraneio para a alta burguesia e, se Istambul tem dúvidas identitárias, aqui é muito europeia.

Desistimos aqui da caminhada. Mas não desistimos de Istambul, onde cada bairro é uma cidade, com muitos mundos dentro. Incluindo o felino. A esperança dos istambulenses para “recuperar o sentido de humor que se desvanece e reacender a alegria de viver que morre lentamente”. É o hüzün (nostalgia) de Istambul no filme Gatos: eles são parte deste ou o seu antídoto. Certo é que, diz a voz-off, a cidade não seria a mesma sem os seus gatos, “perderia a sua alma”.

A Fugas viajou a convite da Alambique Filmes