História

No mar de Esposende há cavalos que matam e muitos naufrágios para contar

José Felgueiras coligiu, numa obra de 500 páginas, histórias de dezenas de incidentes na costa deste concelho da foz do Cávado. Livro é apresentado este sábado de manhã.
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José Felgueiras é descendente de pescadores e marinheiros de Esposende Nelson Garrido

Não era preciso que o mar cuspisse, a cada tempestade, os ossos das embarcações que engoliu, ao longo de séculos, como tem vindo a fazer para gáudio dos arqueólogos, para que os habitantes de Esposende se lembrassem do seu poder. Muitas histórias de naufrágios mais ou menos antigos, mais ou menos mortais, estão ainda bem vivas, nas memórias de muitos dos habitantes da foz do Cávado, e o esposendense José Felgueiras decidiu reuni-las num livro. São 500 páginas atravessando vários milénios que somam testemunhos orais a um labor de pesquisa documental levado a cabo por um homem que, aos 72 anos, acredita que ainda tem muito a dar à memória colectiva da sua cidade.

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Naufrágios na Costa de Esposende, que tem como subtítulo a expressão Mar do Senhor, é o testemunho escrito da força do Atlântico naquele ponto da costa portuguesa conhecido pelos seus perigosos recifes. Estes são bom pouso para crustáceos – tão abundantes, antes da era dos arrastões, que, lembra José Felgueiras, outrora a Misericórdia local incluía lagosta no lanche que oferecia aos pobres; mas cabe-lhes, também, em conluio com o nevoeiro, o vento e a barra de difícil acesso, o papel de vilões de muitas das histórias contadas neste livro que é apresentado este sábado de manhã, pelas 11h, no Museu Marítimo de Esposende, instalado no edifício dos Socorros a Náufragos, na margem do Cávado.

Dali, onde José Felgueiras cuida do centro de documentação do Forum Esposendense, avista-se o rio correndo paralelo ao mar. De que o separa uma restinga arenosa para lá da qual, na rebentação das ondas, se percebe a presença dessas pedras perigosas, as mais famosas das quais são os duplamente lendários Cavalos de Fão. Diz-se que eles, visíveis apenas na baixa-mar, são a memória petrificada de equídeos afogados no mar, durante um naufrágio, e que por causa do seu ar furtivo,  ali se perdeu outra figura lendária, um homem de nome Espusendi que, está visto, deixou marcas na toponímia local. São cavalos de costas largas, estes, pois ao longo de séculos são vários os registos que os culpam pelo afundamento de barcaças, caravelas, cargueiros ou simples barcos de pesca. Mesmo, quando, na verdade, estes soçobraram noutras pedras das redondezas.

Nelson Garrido

“Não era fácil navegar aqui”, explica José Felgueiras. Às vezes, para fugir aos Cavalos, as embarcações acabavam por ser apanhados noutros recifes, e o destino era o mesmo. Muitas dessas carcaças ficaram para sempre perdidas nesta faixa Atlântica a que já chamaram Costa Negra, mas o concelho tem vivido um período áureo de descobertas arqueológicas, potenciadas pela erosão costeira, as movimentações dos fundos marinhos e por tempestades, como a Hércules, que em 2014 nos mostrou um navio do século XVI cuja história ainda está a ser contada pelos especialistas. No mesmo mar já se tinha descoberto parte da carga de um navio romano, demonstração de como estas águas foram navegadas desde tempos antigos,  apesar da péssima sinalização dos seus perigos, problema que só no século XX foi mitigado, com a construção de um farol.

O grande naufrágio de 1832

Antes disso, a comunidade piscatória local dependia das mulheres, que em dias de piores condições para entrada na embocadura do Cávado, acendiam fogueiras no cabedelo, sinalizando um caminho seguro para os seus homens, conta José Felgueiras que, no seu novo livro, dedica um capítulo aos esforços da comunidade e autoridades locais para verem melhoradas as condições deste porto natural que há uns séculos se situava mais a sul, em Fão, antes de o curso do rio se ter alterado, com a sedimentação da restinga, desviando-se para o que é hoje a frente ribeirinha da cidade de Esposende.

Durante séculos, os fangueiros foram senhores deste mar, e suas vítimas também. O livro relata várias situações envolvendo esta comunidade a sul da sede do concelho. E, contrariando uma ideia comum em Esposende, que por via da memória oral aponta um naufrágio ocorrido em 1888 como a maior tragédia envolvendo pescadores locais, Felgueiras recua até 14 de Setembro de 1832 e sinaliza a perda de uma ou duas lanchas de Fão como o maior acidente, em número de mortos. Terão sido 26, e há apenas registo da sepultura de um homem, o mestre. Segundo este historiador local, “terá sido este trágico acontecimento o motivo de uma segunda debandada dos fangueiros, desta vez para o Brasil (...). A grande pescaria de Fão acabou aqui”, garante.

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Cinco décadas mais tarde, o desastre de 1888 tem como protagonistas 25 pescadores de Esposende e a lancha da pescada São João Novo que, reza a história passada de boca e boca, e para os jornais da época, pelo único sobrevivente, naufragou devido à teimosia do arrais. Este terá içado a vela em pleno temporal, contra vontade da tripulação, que se viu atirada à água à medida que golpes de mar iam virando a embarcação. A lancha foi arrastada para norte, até La Guardia, ou A Guarda, na Galiza, onde António Moreira Lima, conhecido como Simão, foi recolhido com vida por um navio.

O acidente teve um impacto tremendo na comunidade, onde deixou doze viúvas, mas também noutros pontos do País. No Porto, a comissão que recolhia fundos para a reconstrução do teatro Baquet, destruído por um incêndio em Março desse ano, devolveu, em sinal de solidariedade, o dinheiro que lhe havia sido doado pelos esposendenses para aquela finalidade.

Um mar de despojos

A maior proximidade aos protagonistas explica por que guardam os de Esposende tão vívida memória de um naufrágio do final do século XIX, e a José Felgueiras quase tenha escapado, por nada lhe ser dito pelos pescadores locais, explicou, um outro evento fatídico ocorrido a 4 de Agosto de 1965: o afundamento de uma traineira de Matosinhos, a Padre Cruz, com 28 homens da vizinha Póvoa de Varzim. A embarcação foi abalroada, de madrugada por um cargueiro alemão, o Apollo, e o incidente espalhou consternação entre os poveiros que, conta-se, em homenagem aos seus mortos, nesse ano fizeram sair a procissão da Senhora da Assunção, a 14 de Agosto, sem qualquer aparato.

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Ao longo da história, os habitantes da orla marítima do concelho de Esposende foram sempre apoquentados pelos sucessivos naufrágios envolvendo familiares, amigos, ou simples conhecidos. Mas esta costa foi cemitério para muitos navios vindo de longe, que aqui se afundaram ou simplesmente encalharam, obrigando ao empenho dos bombeiros e dos meios salva-visas locais e deixando a sua carga à mercê das vagas e, por vezes, da voracidade da população local. Podia ser bacalhau da Terra Nova, automóveis, animais, a estátua de um herói espanhol ou, como aconteceu perto do Natal de 1928, umas caixas de Moet Chandon. Já José Felgueiras recorda, da infância, umas grossas placas de cortiça recolhidas do vapor alemão Oldenburg, com as quais chegou a construir miniaturas de barcos, um dos seus brinquedos de menino.  

Aliás, este antigo bancário e ex-presidente da Junta de Esposende nunca deixou de “brincar” aos barquinhos. Para além de ser um exímio construtor de modelos em escalas reduzidas, coube-lhe coordenar no Forum Esposendense, nos anos 90, a construção de uma réplica em tamanho real do batel Santa Maria dos Anjos: uma embarcação à vela semelhante à lancha poveira, e às suas "filhas" mais pequenas, as catraias, mas de dimensões intermédias, descreve. A Santa Maria dos Anjos original pertencia à sua avó materna, explicou ao PÚBLICO este homem que depois de ter editado uma obra sobre a construção naval na foz do Cávado, no computador tem já um novo livro, dedicado à história da pesca neste concelho, para completar uma trilogia. Com a qual, assume, pretende “marcar a raiz marítima de Esposende”.