Uma coreógrafa de formas

Entre 19 de Janeiro e 4 de Março, três salas de Lisboa unem-se no Ciclo Tânia Carvalho, oportunidade obrigatória para ver e rever um amplo conjunto de peças de uma das criadoras mais desafiantes e estimulantes da dança portuguesa.

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O Teatro Camões, o Teatro Maria Matos e o Teatro São Luiz dedicam-se, entre 19 de Janeiro e 4 de Março, a um ambicioso Ciclo Tânia Carvalho, à boleia dos 20 anos do trabalho coreográfico de uma das vozes mais singulares da dança portuguesa Rui Palma

Por estes dias, Tânia Carvalho divide a sua energia criativa por dois projectos completamente distintos. Durante o dia, no Teatro Camões, ultima com os bailarinos da Companhia Nacional de Bailado uma nova criação intitulada S, passando-lhes com absoluto rigor cada um dos movimentos que traz na cabeça e tem desenhados num bloco que carrega na mala; ao final da tarde, deixa os profissionais e segue para a Biblioteca de Marvila, onde se encontra a ensaiar um grupo de 20 intérpretes amadores, cada um responsável por um solo coreografado a partir das suas próprias experiências

S (estreia a 21 de Fevereiro) e Movimentos Diferentes (10 de Fevereiro) são contrários em quase tudo – o mundo profissional e o mundo amador, a escala grandiosa e a escala íntima, o movimento imaginado por Tânia de forma solitária e o movimento construído a partir das vidas e das limitações naturais de quem não faz da dança uma actividade diária. Mas são também exemplo de uma voracidade criativa permanente e que, segundo a própria, nunca obedeceu à definição de uma linguagem. “Acho que as minhas peças não acontecem encadeadas, surgem todas misturadas”, diz ao Ípsilon. “Não sinto que tenham uma sequência nem que sugiram uma evolução.” E exemplifica com Olhos Caídos, dueto que criou em 2010 e que, garante, poderia ter-se estreado ontem mesmo.

Olhos Caídos é uma das peças escolhidas para integrar o ambicioso Ciclo Tânia Carvalho que três teatros lisboetas (Teatro Camões, Teatro Maria Matos e Teatro São Luiz) dedicam à coreógrafa entre 19 de Janeiro e 4 de Março, à boleia dos 20 anos do trabalho coreográfico de uma das vozes mais notabilizadas e singulares da dança portuguesa deste início de século. O instinto e a natureza discreta de Tânia ainda lhe terão ordenado para bater em retirada perante a ideia de festejar uma data e de se impor uma ideia algo pomposa de retrospectiva. Mas o lado prático do ciclo era demasiado apetecível: a revisitação de muitas das suas obras, algumas das quais ‘sufocadas’ pelo ritmo constante de estreias.

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Cabe a Icosahedron o arranque do ciclo, sexta e sábado, no Teatro Maria Matos. Estreada em 2011, a peça desvenda de uma forma mais clara aquela que é uma das características fundamentais da dança de Tânia Carvalho e que consiste numa atracção por desenhos geométricos e um pensamento matemático. “Quando fiz o Icosahedron muita gente começou a ver aquilo a que me referia quando dizia que fazia esquemas”, reconhece. “Muitas vezes não vejo bailarinos nem emoções, vejo formas. Nas peças mais pequenas isso é mais difícil de perceber, mas com 20 bailarinos tinha mesmo de haver um esquema.” Um esquema em que não custa ver uma lógica orquestral, cada grupo de bailarinos trabalhado como um naipe, ajudando à construção de um edifício total.

Icosahedron forneceu as ferramentas de interpretação a partir das quais quase toda a sua obra pode, depois, ser vista. Daí que haja também uma dimensão simbólica ao consagrar-lhe o início ao ciclo. A partir daqui, tudo se abre.

O papel da música

Para esta visão de conjunto das suas criações, Tânia Carvalho começou por listar todas as peças que gostava de remontar. E logo percebeu que não seria tarefa fácil. Ao contrário do que acontece com muitos outros artistas, a coreógrafa confessa ter uma relação pacificada com todas as suas obras, talvez fruto da tal falta de reconhecimento de uma evolução no seu percurso. As escolhas acabaram ditadas sobretudo pela qualidade dos registos. As peças mais antigas estão documentadas em VHS e a imagem pouco fiável não permite hoje realizar uma remontagem que possa garantir alguma fidelidade à criação original.

A forte presença da música na sua dança é afirmada em duas criações repostas no São Luiz, De Mim Não Posso Fugir, Paciência! e 27 Ossos, ambas com um piano em palco. Mas mesmo em peças como Tecedura do Caos (em remontagem pela CNB, num dos vários programas possíveis entre 21 de Fevereiro e 4 de Março) e S, a música composta por Diogo Alvim é central. Tânia quis libertar-se, assim que teve orçamentos para isso, de coreografar para bandas sonoras pré-existentes. “A música é muito poderosa”, justifica, “e as pessoas já têm muitas memórias que lhe estão associadas. Por isso prefiro que seja criada em conjunto”, para que tanto o movimento como o contexto em que surge cheguem o mais “brancos” possível.

Como acontece com quase todas as suas criações, também em S Tânia não é capaz de especificar a origem de cada ideia. Sabe que as imagens começam a chegar-lhe e vão continuando a assaltá-la como se, ao puxar um fio, cada trouxesse outra já agarrada. E são sempre imagens, nunca palavras. S não será a única novidade, uma vez que o ciclo lhe concede também o espaço para estrear a 6 de Fevereiro, no Teatro Maria Matos, Um Saco e Uma Pedra, antes de a 15 de Fevereiro remontar Doesdicon, coreografia para o grupo Dançando com a Diferença. Um Saco e Uma Pedra é aquilo a que chama “peça de dança para ecrã”, um filme mudo, musicado ao vivo, em que os bailarinos dançam para uma câmara fixa – são eles quem promove aproximações e jogam com os planos.

Findo o ciclo, Tânia Carvalho assume a co-programação do Festival Cumplicidades, entre 10 e 16 de Março, e no final do mês começa uma residência artística. Ainda não sabe bem para que fim. Isso logo se verá. O que importa é não deixar que as imagens se acumulem em demasia.