O puzzle da morte dela

A estrela dos anos 1990 é a peça central de Mosaic, a aplicação e minissérie que Steven Soderbergh fez para a HBO sobre um homicídio no Utah. Chega ao TVSéries em Janeiro.

Um ícone dos anos 90 no centro de uma experiência narrativa tentada por Steven Soderbergh
Foto
Um ícone dos anos 90 no centro de uma experiência narrativa tentada por Steven Soderbergh

Sharon Stone morreu. Ou melhor, Olivia Lake, a personagem que interpreta em Mosaic, morreu. Não se encontrou o corpo, mas há suspeitos. Um dos homens que a rodeava, que queria casar com ela mas com o qual ela se chateou, tinha antecedentes criminais e é preso pelo homicídio. Passados quatro anos, a mão de Olivia é encontrada e a irmã do acusado regressa a Summit, Utah, zona de neve, para tentar provar que o irmão não é culpado.

É esta a premissa da nova experiência de Steven Soderbergh. Que é, ao mesmo tempo, uma minissérie da HBO e uma aplicação de telemóvel e tablet (infelizmente não disponível em Portugal). No centro de tudo está Sharon Stone, que nunca deixou de trabalhar mas que tem estado bastante ocupada no último ano: apareceu numa cena em Um Desastre de Artista e foi protagonista de dois filmes (um deles, Running Wild, de Alex Ranarivelo, está disponível no Netflix).

A versão em aplicação de Mosaic saiu em Novembro e permitia aos utilizadores seguirem a história por várias perspectivas diferentes, com as mesmas cenas a serem repetidas de ângulos distintos, mas sempre o mesmo início, meio e fim. Ou seja, um universo fechado, mas explorável, em que a história era sempre a mesma, a forma como se explorava o mistério da morte de Olivia Lake é que mudava. Não é, portanto, bem uma série interactiva.

Mas há uma versão televisiva, montada pelo próprio Soderbergh e com cenas novas, que é mais linear. Nela, as peças do puzzle já estão escolhidas por nós. Tal opção tem, ao todo, seis episódios de quase uma hora. É algo que fazia parte do acordo que Soderbergh fez com o canal HBO para o financiamento da aplicação com 20 milhões de dólares (16 milhões de euros). Por cá, tem estreia marcada em Portugal na madrugada de 22 para 23 de Janeiro, os episódios passam diariamente de segunda a sexta-feira (no último dia o episódio é duplo) e há uma maratona a 28.

Tudo sobre Olivia Lake

Olivia Lake é o centro de tudo e o ponto de partida, sim, mas não tem tanto destaque nem aparece tanto quanto as outras personagens. Ainda assim, a presença e a interpretação de Stone são um dos pontos altos da série. Tudo começa com uma introdução em que se conhece Olivia Lake, Joel Hurley, jovem aspirante a artista de BD que mora em casa dela, e Eric Neill, a tal personagem que é presa pelo homicídio da autora. Depois disso, na versão de aplicação, pode escolher-se seguir a história ou de Joel ou de Eric, a quem dão vida, respectivamente, Garrett Hedlund (do recente Mudbound — Lágrimas Sobre o Mississipi) e Frederic Weller, que tem currículo feito de pequenas participações em televisão e filmes.

Além deles, destacam-se Jennifer Ferin, que trabalhara com Soderbergh na série The Knick e que faz de Petra Neill, a irmã de Eric que inicia nova investigação do caso, e Devin Ratray, de Sozinho e Casa e Nebraska, que é um polícia que investigou o caso na altura e agora ajuda Petra. Há, ao todo, 14 momentos de escolha ao longo da aplicação, que, no meio das cenas, contêm tangentes que aparecem no ecrã e quepodem ser consultadas. São emails, artigos de jornal, páginas de Wikipédia, relatórios policiais, mensagens de voicemail, etc. Não são tão importantes na minissérie, mas dão um ar da sua graça.

Pela natureza do projecto, estas personagens, às quais se juntam actores como Beau Bridges, James Ransone, Maya Kazan (neta de Elia, irmã de Zoe) e Paul Reubens (sim, Pee-wee Herman), são mostradas de uma forma que é pouco comum neste tipo de histórias, com atenção à perspectiva e às motivações de cada uma, como se cada uma fosse o herói da sua narrativa. Soderbergh não avisou cada actor dos mistérios da série, nem lhes deu o guião completo. Eles sabiam o que estavam a fazer a cada momento e se as suas personagens estavam ou não a mentir.

Soderbergh realizou a série a partir de um guião de mais de 500 páginas escrito por Ed Solomon, responsável pelos argumentos de Homens de Negro, A Fantástica Aventura de Bill e Ted e Mestres da Ilusão. Ao todo, a aplicação inclui oito horas de cenas filmadas, tudo orientado minuciosamente para que, faça-se a escolha que se fizer, vá dar ao mesmo. O realizador tem dito que foi a montagem mais complicada em que se envolveu, a par de O Falcão Inglês, mas que a montagem é a sua parte favorita do cinema — afinal, estamos a falar do homem que um dia decidiu, num exercício de edição, juntar o Psycho de Hitchcock e o remake plano-a-plano de Gus Van Sant e lançar o resultado na internet.

Como foi feito para ser visto em telemóveis e tablets, a série recorre a planos fechados nas caras das personagens e pode sobretudo parecer, tal como muitos dos trabalhos recentes do realizador, um exercício. Mas, mesmo que Mosaic não seja totalmente bem-sucedida, Soderbergh, que terá planos para duas outras séries nesta onda, disse à WIRED que via a aplicação como “uma pintura rupestre”. Ou seja, espera que alguém no futuro vá pegar neste formato e fazer algo melhor com ele. Ficamos à espera.