Luis Miguel Cintra continua a suspirar pelo teatro

Mais de um ano depois do fim da Cornucópia, o encenador estreia a versão integral do espectáculo que criou, num processo aberto ao público, em torno da personagem celebrizada pelo teatro de Molière e pela música de Mozart. As cinco horas de Um D. João Português repartem-se por dois dias no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães.

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A estreia da versão integral da obra "Um D. João Português" é primeira incursão do encenador depois do Teatro da Cornucópia JOANA GONÇALVES

D. João foge do casamento com D. Elvira e enceta um percurso de constante desafio às convenções sociais das quais nunca se liberta verdadeiramente. Pelo caminho, seduz outras mulheres e encontra-se com um mendigo, num teste às relações de poder entre quem o tem e quem não o tem, sempre com Esganarelo, o criado, por perto.

“Ele é vítima da sua inteligência e da sua consciência. Está sempre a pensar uma coisa e o contrário; ao mesmo tempo a negar as regras sociais mas a dialogar com elas. É muito interessante, porque, na nossa época, a gente sente um bocadinho a mesma coisa”, resume Luis Miguel Cintra, antecipando a estreia da versão integral da obra Um D. João Português, cinco horas de espectáculo que se repartirão entre sexta-feira e sábado, no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães.

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O espectáculo, baseado numa tradução anónima de cordel do século XVIII da obra de Molière – D. João ou o Banquete de Pedra –, consuma a primeira incursão no teatro do encenador (e também actor), depois de, em Dezembro de 2016, o pano ter caído sobre o Teatro da Cornucópia e sobre um percurso de 43 anos a explorar clássicos como Shakespeare, Beaumarchais e von Kleist, e contemporâneos como Beckett, Brecht e Bond, sem esquecer os autores portugueses.

Ao longo dessas mais de quatro décadas, a Cornucópia sempre se quis assumir como “grande instrumento de pensamento das sociedades”. Essa forma de encarar o teatro permanece em Um D. João Português. “Eu suspiro por um teatro que transmita o pensamento das pessoas que o estão a fazer”, reitera Cintra. Esse pensamento, acrescenta, é “caótico”, incluindo “associação de ideias e outras coisas da experiência pessoal”.

Na visão do encenador, D. João é uma personagem genial justamente por estar imersa nesse caos. É alguém que “percebe tudo, mas não sabe como é que há de atingir a essência da vida”, a não ser como “uma forma de compreensão do mundo e de aprendizagem”. “Parece o Álvaro de Campos, que está sempre a dizer que não acredita em nada e ‘merda, sou lúcido’”, compara.

O protagonista exibe, aliás, traços do século XX, quando “já não aguenta coisas que a sua inteligência já negou”, mas não sabe como “pensar de outra maneira”, vinca Luis Miguel Cintra. Esses traços tornam-se mais salientes com a inclusão de excertos da peça O Mendigo ou o Cão Morto, escrita por Brecht pouco após o término da Primeira Guerra Mundial, para inverter os papéis da cena em que D. João encontra um mendigo e lhe promete uma moeda de ouro caso insulte Deus. “O D. João faz aquela farsa para perceber como se podia comportar naquela posição. É o poderoso que tem a liberdade de pensar a própria condição do explorado”, reitera o encenador, considerando esta cena exemplar da “natureza política do texto”.

De D. João a Esganarelo

Numa representação cujo carácter português reside, para Luís Miguel Cintra, sobretudo na língua e nas “referências” – “se fosse um russo a fazer a peça, provavelmente teria referências diferentes, e as próprias relações entre os casais seriam pensadas de outra maneira”, diz –, a relação mais próxima de D. João é a que o une a Esganarelo. “É uma relação de poder, de patrão e criado”, afirma o encenador. Mas que se transforma numa “grande amizade”, com ecos de D. Quixote e Sancho Pança – daí as referências a Cervantes.

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Com anos de experiência na Cornucópia, os actores Dinis Gomes e Duarte Guimarães (D. João e Esganarelo, respectivamente) concordam que, apesar da diferença de classes persistir, “cada um precisa do outro”, até para fazer o contraponto das suas visões do mundo. Se Esganarelo “vive aquilo que é suposto viver”, sublinha Duarte Guimarães, já D. João é um “inadaptado em relação a qualquer coisa formatada”, que não consegue ter uma relação, nem encarar o amor com D. Elvira, mas “também não sabe bem o que é o oposto disso”, observa Dinis Gomes.

“Passa a peça toda neste diálogo consigo próprio. Depois, sempre que fala, parece que está  a fingir. Não se percebe bem se acredita naquilo, se não acredita”, resume.

Um processo aberto

Os cinco actos da peça de Molière transformaram-se, pela mão de Luís Miguel Cintra, numa viagem de quatro blocos que levou o elenco de 18 actores a percorrer o país. A (des)construção da obra arrancou no Montijo, com os ensaios da primeira parte – Na Estrada (da Vida) –, após o convite da companhia local Mascarenhas-Martins, e prosseguiu em Setúbal, com O Mar (e de Rosas), e em Viseu, com As Árvores (dos Desgostos), até terminar em Guimarães, com A Escuridão ao Fim da Estrada.

Nas quatro cidades, e em "diferentes fases" da preparação do espectáculo, o processo criativo esteve aberto a “grupos de espectadores interessados”, em "momentos como a leitura do texto ou ensaios", explica Levi Martins, da Mascarenhas-Martins, co-produtora da peça, juntamente com o Teatro Viriato (Viseu) e o Centro Cultural Vila Flor (Guimarães). 

Luis Miguel Cintra vê a abertura do processo como consequência duma necessidade do público, a de “partilhar os seus próprios pontos de vista sobre o espectáculo”. A essa necessidade, afirma, junta-se a vontade de perceber que um espectáculo do teatro não é um mero “decorar do papel”, mas sim um “trabalho complexo”, que implica “análise literária, cultura geral, inteligência e capacidade de se ser sensível à escrita de outras pessoas”. “São escolhas intelectuais que as pessoas vêem em cada personagem”, reitera.

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A apresentação da versão integral de Um D. João Português vai percorrer o trajecto inverso ao da sua criação: depois de Guimarães, a obra sobe ao palco do Teatro Viriato, em Viseu (26 e 27 de Janeiro), do Fórum Municipal Luísa Todi, em Setúbal (23 e 24 de Fevereiro), e do Cinema-Teatro Joaquim de Almeida, no Montijo (2 e 3 de Março), antes de passar ainda pelo Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada (10 e 11 de Março).

E não. A fuga de D. João às amarras do seu contexto social não culmina na descida ao fogo eterno do centro da Terra, como em Molière, mas com o próprio casamento que esteve na origem da jornada. “É muito mais parecido com o que a gente conhece. Porque isso de abrir a Terra e de ir para o inferno, a gente não conhece. Era mais comercial, mais ao gosto do público. Ter mais público modificou o fim da peça”, justifica o encenador.