Eu sou a minha ficção

Que apetência é esta?

A experiência pessoal, em memória, biografia, autobiografia ou ficção atravessam as edições deste ano. Daniel Mendelsohn, Trevor Noah, Lynch e Karl Ove Knausgaard destacam-se. É o jogo de identidade.

Daniel Mendelsohn  cruza a complexidade do épico com a experiência da sua própria família, em <i>An Odyssey</i>
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Daniel Mendelsohn cruza a complexidade do épico com a experiência da sua própria família, em An Odyssey Quim Llenas/Cover/Getty Images

Aos 81 anos, Jay Mendelsohn, ex-professor de matemática, inscreve-se na Universidade. Quer assistir às aulas do seminário sobre A Odisseia, de Homero. Nada de extraordinário a não ser o facto de essas aulas serem dadas pelo filho, o classicista, escritor e professor Daniel Mendelsohn. Sentado na última fila, Jay, que prometera, contra a sua natureza, ser discreto começa a ter intervenção nas aulas, discordando da leitura que o filho faz do poema, encetando uma discussão que é o início de uma nova abordagem de Homero, por um lado, e, por outro, da relação entre pai e filho. Daniel descobre um pai mais complexo no homem assertivo e dono da razão que conhecera em casa. Ele não é só isso, e isso  é o mote para a escrita de umas memórias onde Daniel Mendelsohn, usando a estrutura de A Odisseia, cruza a complexidade do épico e da família na tradição grega, com a experiência da sua própria família, alargada e muito desafiadora da norma.

An Odyssey, com o subtítulo A Father, A Son, And an Epic, considerado um dos mais elegantes e profundos textos sobre a identidade, vai ter edição portuguesa em Junho pela Elsinore. “Uma das coisas mais maravilhosas acerca da Odisseia é o seu jogo constante, rico, e complexo sobre identidade e reconhecimento”, afirmou à Los Angeles Review of Books. É o exercício que tenta praticar neste livro e está subjacente à criação e à leitura do que se chama memória, autobiografia, a ficção que parte da própria experiência — a do eu — e que aparece como uma das tendências mais visíveis da actual literatura.

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Trevor Noah conta a sua história de abuso e segregação antes de se tornar num dos rostos mais conhecidos da TV Mike Coppola/Getty Images for Tribeca Film Festival

Que apetência é esta? O livro de Mendelsohn trata dessa linha frágil entre ficção e real. Estão em diálogo. O eu, a sua singularidade e a sua criação ou invenção. O norueguês Karl Ove Knausgaard deu-se a conhecer através dessa opção: narrar-se sem dó nem piedade. Foi assim em A Minha Luta, de que este ano a Relógio d’Água publica o quinto volume, Alguma Coisa tem de Chover, em Janeiro. E em Fevereiro, A Primavera, o seu projecto de narrativas com o nome das estações do ano, também marcadas pelo contágio do eu.

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Karl Ove Knausgaard, leremos o quinto volume de A Minha Luta e o seu projecto de narrativas com o nome das estações do ano Simone Padovani/Awakening/Getty Images

E novidade, aguardada, especulada e ainda não terminada é a autobiografia de David Lynch, anunciada para o final do ano. Antes, chega a autobiografia de Trevor Noah, o homem que foi substituir John Stewart no The Daily Show. O que pode ter um homem de 33 anos para contar? Uma história de abuso e segregação antes de se tornar num dos rostos mais conhecidos da TV americana e voz activa na luta pela igualdade. Natural de Joanesburgo, África do Sul, é filho de mãe negra e pai branco, relação ilegal durante o Apartheid. A mãe foi presa, o pai teve de se mudar para a Suíça. A mãe voltou a casar mais tarde, Trevor teve dois irmãos desse casamento e tudo terminou com ele e a mãe vítimas desse homem. Foi na sequência de ameaças do ex-padrasto que se mudou para Los Angeles. Born a Crime: Stories from a South African Childwood conta o desajuste vivido por este este actor, apresentador, comentador que sentiu os efeitos da exclusão a vários níveis: familiar, social, étnica.

Outro exemplo de como a biografia pode influenciar a ficção e marcar-lhe os passos. O Meu Amor Absoluto, do americano Gabriel Tallent conta a história de Turtle Alveston, rapariga de 14 anos que vive no norte da Califórnia no limite da sobrevivência. Para criar a personagem, Tallent inspirou-se na sua vida em Mendoncino, comunidade hippie na Califórnia. Viveu de modo meio selvagem, apesar de filho de pais com expectativas intelectuais. Nunca antes publicado em Portugal, sai Um Diário Russo de John Steinbeck, a partir de uma viagem do escritor. É um original de 1948 e tem fotográficas de Robert Capa.

De grande carga pessoal, surgem a obra completa de Rimbaud, os diários de Virginia Woolf, ensaios de Claudio Magris e Alberto Manguel e, outro destaque, Exit West, do paquistanês Moshin Amid, relato sobre a tragédia das migrações a partir de uma realidade que o escritor conhece bem.

Fazendo nossa uma pergunta do próprio Daniel Mendelsohn: o que é que a popularidade das memórias pode dizer de nós próprios? Os que as escrevem e os que as lêem? As motivações serão sempre pessoais, perversas, emotivas, voyeuristas, mas sempre em busca de uma verdade a que talvez se chame identidade. Ele, ironicamente, num artigo sobre o tema, titulou: But Enough About Me. Não foi, como se vê.

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