Um planeta vivo em palco

Ao longo dos anos não só se tem preocupado em renovar, a cada novo álbum, a sua música, como tenta novas soluções cénicas num contexto conservador como é o das apresentações ao vivo. Quem sabe se o anfiteatro natural de Coura não será o lugar ideal para desfrutar da utopia de Björk?

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No Vodafone Paredes de Coura, a 18 de Agosto, espera-se o inesperado Santiago Felipe/Getty Images Portrait

Ainda não se sabe nada sobre o espectáculo que a islandesa estará a preparar em torno do seu último álbum Utopia (2017), e que passará pelo festival Vodafone Paredes de Coura a 18 de Agosto, mas como sempre dela espera-se o inesperado. Nos seus últimos álbuns existe sempre um elemento que se destaca e no último isso não constituiu excepção: da mesma forma que os microrganismos electrónicos eram centrais em Vespertine (2001), a voz humana em Medúlla (2004) ou as orquestrações em Vulnicura (2015), em Utopia é o som das flautas.  

Na última digressão optou por rodear-se de um ensemble de cordas e pelo cúmplice dos últimos dois discos – o músico e produtor Arca – num misto de orquestrações e programações electrónicas. Por norma os seus concertos de sala e em ambiente de festival diferenciam-se, mas não foi o que aconteceu, por exemplo, o ano passado, tendo optado pela mesma formação nos dois contextos. Não é crível que seja isso que vá acontecer em 2018. As flautas deverão mesmo ocupar o centro do palco, complementadas pela harpa e pelas derivações rítmicas electrónicas.

Ao longo dos anos a islandesa não só se tem preocupado em renovar, a cada novo álbum, a sua música, como  tenta novas soluções cénicas num contexto muito conservador, como é o das apresentações ao vivo de música. Quem a tem visto ao vivo – em Portugal esteve no Coliseu dos Recreios (1996) e nos festivais Hype&Meco (2003) e Sudoeste (2008) – sabe que as suas produções de palco não são faustosas (em comparação com os grandes nomes do rock ou R&B) mas existe nelas um investimento cénico que é tão impactante quanto minimal e preciso.

Aliás a forma como a música é experienciada, num contexto como o actual onde somos confrontados com excesso de informação e inundação sonora, está entre as principais preocupações actuais de Björk. É isso que faz com que os seus álbuns sejam muitas vezes apenas pontos de partida para outros desenvolvimentos artísticos. A instalação-exposição Björk Digital, que correu mundo, depois do lançamento de Vulnicura era isso: uma forma alternativa de dar a conhecer a sua música, numa altura em que a experiência auditiva da mesma se banalizou, fazendo o espectador-ouvinte participar num envolvimento total de voz, som e imagens.

Dito isto, às vezes, de tanto destacarmos os diferentes papéis da islandesa, como mulher das artes, do cinema, dos vídeos ou das colaborações, esquecemo-nos que se é verdade que todos esses elementos desempenham um papel fundamental na entidade estética que ela é, por vezes afastamo-nos do elemento-chave que determina todos os outros: a música. E ela é magnífica em Utopia, o álbum do ano passado que esteve longe de ser consensual, à imagem da maioria dos seus registos lançados depois da sua fase mais pop, reportada aos três primeiros álbuns.

Mais do que um álbum de canções, é um disco de envolvimentos e de ambientes minuciosos, circundados pela sua voz, que muitas vezes é utilizada como mais um instrumento, e noutras é expressiva, respirando por entre estruturas que se vão transformando no espaço de um só tema. Pelo meio existem também melodias celestiais e sons de pássaros. É um planeta vivo aquele que nos é devolvido. Quem sabe se o anfiteatro natural de Coura não será o lugar ideal para desfrutar da utopia de Björk?