Misturada com Lisboa

Tem sido submetida às marcas identitárias mais consensuais de Lisboa – o fado – e a outras mais recentes e em construção, como as que têm sido exploradas pelas segundas e terceiras gerações de afrodescendentes. Será em 2018 que recuperará a capacidade que já teve de saber que coisas estavam a acontecer exactamente no momento antes de acontecerem?

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Christopher Polk/Getty Images for Coachella

Grandes planos para 2018, prometeu ela há um mês na televisão americana, acrescentando que se preparava para regressar ao activo. A afirmação não foi totalmente explícita mas foi o bastante para que as principais publicações do globo colocassem um novo álbum e talvez uma digressão de Madonna na lista dos acontecimentos mais esperados do corrente ano.

Antes, em Setembro, já havia enunciado que se encontrava numa fase em que andava a ouvir muita música nova e a inspirar-se pelas pessoas à sua volta. É até possível que nem a própria saiba bem o que irá acontecer-lhe este ano, mas existem duas verdades inestimáveis: uma é que anda, realmente, à procura de qualquer coisa, tendo falado de uma nova aproximação à música, no sentido do retorno a uma certa simplicidade e pureza original. E a segunda é que faça o que fizer, em particular no actual contexto português, o interesse será sempre elevado.

O seu último álbum, Rebel Heart, data de 2015 e a digressão mundial correspondente – a Rebel Heart Tour – levou-a por quatro continentes, entre 2015 e 2016, num total de 82 espectáculos. Por norma, no seu caso, quando existe um álbum novo acaba por seguir-se uma digressão mundial. Nesse registo parecia sentir-se dividida entre regressar à matriz estruturadora do seu passado, assumindo uma linha mais clássica, ou tentar acompanhar o presente mais instantâneo, seguindo coordenadas definidas por cantoras que já a seguiram a ela e para quem abriu portas.

Agora ninguém sabe muito bem onde se situa. A expectativa é, por isso, muita. Será interessante perceber como é que uma celebridade do seu panteão conseguirá projectar-se num contexto completamente diferente daquele em que se afirmou – ou seja, até que ponto a cantora preferida da geração MTV conseguirá conquistar na actualidade os públicos fragmentados e pulverizados da geração YouTube. Aquilo que representou nas últimas décadas – a possibilidade de ter uma notoriedade com poder de sedução global – parece hoje diluído, nesta época onde toda a gente não só pode ser uma estrela por quinze minutos, como sê-lo apenas para quinze pessoas. Os tempos são outros. E ela sabe-o bem.

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Quem com ela tem convivido em Lisboa é da opinião que tem por norma uma postura reservada, mas ao mesmo tempo deseja realmente compreender o que a rodeia Dave Benett/Getty Images for Edward Enninful

Por conveniência diz-se que vive agora em Lisboa. Pelo menos, desde o Verão passado, tem passado temporadas na capital portuguesa, mas é uma figura em trânsito entre Nova Iorque e Londres. Digamos que, neste momento, Lisboa faz parte dessa triangulação, em grande medida por causa do presente futebolista de um dos filhos. Se isso irá ter consequências criativas ninguém sabe, mas não é um cenário improvável dizer-se que o que vier aí respirará certamente algo dessas três cidades.

Nem que seja apenas alimento espiritual é quase certo que Lisboa fará parte dessa equação. Quem com ela tem convivido nos últimos meses em Lisboa é da opinião unânime que tem por norma uma postura reservada, mantendo-se quase sempre no seu canto, mas ao mesmo tempo deseja realmente compreender o que a rodeia. Um dos seus anfitriões tem sido o agitador cultural Ricardo José Lopes, responsável, entre outras manifestações actuais, pelas quase secretas Lisbon Living Room Sessions, e pelas sessões jazz das noites de 4º feira no Rive-Rouge, ao Cais do Sodré.

“Temos uma amiga americana em comum e foi ela quem me desafiou a introduzir alguma da música que aqui se faz à Madonna, nomeadamente aquela que reflecte uma Lisboa mestiça, com uma costela na tradição e outra na contemporaneidade”, diz-nos, recordando algumas sessões reservadas a convidados que organizou nos últimos meses. “Para a primeira levei os Bela Quarteto que fazem uma abordagem mais actual do fado, introduzindo outras texturas e musicas. O fado é o mote, mas até pela composição do colectivo, com o Marco Oliveira na guitarra e voz, o contrabaixo do João Penedo, o violino do Otto Pereira e a percussão do Carlos Mil Homens, eles acabam por misturar tudo, fado, flamenco, tango, África e músicas latino-americanas. Representam a Alfama de hoje.”

Outro convidado foi o saxofonista de jazz Ricardo Toscano e o cantor Dino d’ Santiago, “tendo havido no final uma sessão de improviso”, lembra Ricardo. Para o segundo serão foram convidados “o Dino d’ Santiago com a sua banda, o quarteto do Ricardo Toscano e o Kimi Djabaté, da Guiné-Bissau, a viver em Lisboa, de quem ela gostou muito. No final houve uma sessão de improviso também, com toda a gente a dançar.” Na terceira sessão “participaram os Lavoisier, a Mayra Andrade com o Jon Luz, a Maria Gadú e o Flamen4tet + Baile, tendo acabado com o DJ Johnny a passar música e toda a gente a dançar, numa festa que só acabou quando apareceu a polícia porque alguém se queixou do barulho” ri-se Ricardo.

Para além destas sessões, refere Ricardo, Madonna "fez algumas incursões por vontade própria, nomeadamente à Fabrica de Braço Prata, tendo aí visto o Ricardo Toscano, e depois também começou a ir ao fado, com o Dino d’ Santiago, à Casa de Linhares, à Associação Fado Casto e ultimamente à Mesa de Frades, onde ouviu Celeste Rodrigues, de quem ficou fã.” Em Novembro, houve também uma sessão no B. Leza, onde estiveram em evidência linguagens como o kuduro ou o afro-house, providenciadas por João Barbosa (Branko, dos Buraka Som Sistema), numa noite com assinatura da editora Enchufada. De tudo isto, viria a culminar uma festa de fim de ano em Nova Iorque, para a qual a cantora fez questão de convidar alguns destes agentes, dos Bela Quarteto a Celeste Rodrigues, forma de “mostrar um pouco da Lisboa que aqui tem vivido”, diz Ricardo.

No fim de contas, ao longo dos últimos meses, a cantora americana tem sido submetida a algumas das marcas identitárias mais consensuais de Lisboa com matriz no fado, e a outras mais recentes e em construção, como todas as linguagens de inspiração transatlântica que têm vindo a ser exploradas essencialmente pela segundas e terceiras gerações de afrodescendentes nas duas últimas décadas. Para além da música, a cantora, uma admiradora confessa da arte urbana de Banksy e do francês JR, tem frequentado alguns ambientes criativos informais, interessando-se pelo trabalho de Vhils, Wasted Rita ou Francisco Vidal.

No início do seu percurso deixava-se imergir pelos ambientes que frequentava. Mais ainda: esse facto era indissociável do seu trabalho. Ainda hoje fala disso, da forma como, por exemplo, a efervescência da Nova Iorque do final dos anos 1970 e do início dos anos 1980 a marcaram e da maneira como o mundo da música, das artes e da moda se tocavam, fazendo confluir personalidades como Andy Warhol, artistas como Keith Haring ou DJs como Jellybean Benitez, para o seu rol de cumplicidades.

Há dez anos, quando regressou a Nova Iorque, depois da experiência de Londres, falava da “convergência entre arte e vida  que existia nesses anos iniciáticos, e da forma como as hierarquizações culturais não faziam sentido, evocando um jantar, no final dos anos 1970, em casa de Warhol onde os convidados eram o músico de vanguarda John Cage, o coreógrafo Merce Cunningham, o casal John Lennon e Yoko Ono e, claro, ela própria. Deste então foi tentando sempre recriar esses tempos iniciais, fazendo-se acompanhar por aqueles que o seu instinto lhe dizia que tinham capacidade para a inspirar. Foram tempos em que o seu radar parecia funcionar em pleno, frequentando os locais onde o que de mais pulsante acontecia. Sabia o que estava a acontecer, exactamente no momento antes de acontecerem. Depois a perspectiva foi mudando.

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Christopher Polk/Getty Images for Coachella

A partir de determinada altura tornou-se evidente que aquilo que captava já não era aquilo que se vai ouvir na curva dos acontecimentos, mas sim o que se ouve quando os factos estão consumados. Como dizia em 2008 à Vanity Fair, aquando do lançamento do álbum Hard Candy: “Não tinha nenhuma ideia sobre a música que queria fazer. Sabia apenas que queria colaborar com Pharrell Williams e Justin Timberlake. Necessitava de ser inspirada e pensei, bem, quem está a fazer discos de que gosto?” Ou seja, ao longo dos últimos anos, foi-se rodeando de algumas das figuras mais relevantes dos universos urbanos do hip-hop e R&B (de Timbaland a Pharrell), como antes já havia acontecido com alguns nomes da música de dança electrónica (de Mirwais a Stuart Price), mas o faro que lhe permitia captar o que existe de mais excitante nas margens, para propor as suas próprias recriações no centro do mercado, diluiu-se em grande medida.

Quem sabe se não será em Lisboa, no ano de 2018, que o recuperará?