Intervenção de Vhils em prédio de Agostinho Ricca alarma arquitectos

Edifício de escritórios no Foco está a ser reabilitado e deverá incluir uma intervenção do artista na empena do prédio.

O edifício de escritórios está a ser reabilitado
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O edifício de escritórios está a ser reabilitado Adriano Miranda
Arquitectos defendem que não deve haver qualquer alteração do exterior
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Arquitectos defendem que não deve haver qualquer alteração do exterior Adriano Miranda
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Intervenção proposta para a empena

A imagem divulgada por uma consultora imobiliária lançou o alarme: mostrava um rosto de uma mulher cravado na empena de um edifício de escritórios do arquitecto Agostinho Ricca, no Foco, no Porto, numa intervenção artística que se prolongava pela fachada. Nas redes sociais começaram a circular as críticas à adulteração do edifício do arquitecto modernista e em menos de 24 horas foram muitas as reacções. O International Commitee for Documentation and Conservation of Buildings, Sites and Neighbourhoods of the Modern Movement (Do.Co.Mo.Mo) incluiu o edifício na sua lista online de “património em risco”. A consultora imobiliária retirou a imagem da Internet e a Câmara do Porto, que licenciou a obra, diz que está, de novo, “a olhar para o processo”.

O edifício de escritórios, conhecido como “Santo António“, é o primeiro que se encontra quando se deixa a Avenida da Boavista e se entra no conjunto urbano do Foco, desenhado pelo arquitecto Agostinho Ricca (1915-2010), em co-autoria com João Serôdio e Magalhães Carneiro. As obras já estão a decorrer, mas a intervenção exterior ainda não está concluída e fonte oficial da Câmara do Porto é taxativa quando se refere à imagem que foi divulgada: “Esta imagem não corresponde ao que vai ser o resultado final daquele projecto.” Nada que sossegue demasiado os arquitectos que se pronunciaram contra a intervenção, até porque a mesma fonte admite que a câmara licenciou, em Agosto de 2017, um projecto que prevê uma intervenção artística na empena do prédio. E qualquer intervenção no exterior do prédio é recusada por quem defende que o conjunto arquitectónico do Foco deveria ser protegido.

A arquitecta Graça Correia, do gabinete Correia/Ragazzi, premiado, é uma das mais indignadas. A trabalhar e viver no Foco diz que há muito se apercebeu do risco de aquele núcleo vir a sofrer intervenções casuísticas que alterem a sua coerência e, por isso, em 2010, avançou com um pedido de classificação do conjunto – prédios de habitação e escritórios, hotel, cinema e igreja –, junto do então Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar). “A resposta que obtive foi que não reconheciam esse valor ao conjunto, talvez à igreja. Fiquei furiosa”, diz.

A arquitecta diz temer o que este “precedente” poderá representar para outros espaços do conjunto, como o hotel, fechado há anos, e diz que a única razão para querer alterar o que lá está é “uma acção de especulação imobiliária de alguém que, com a desculpa de ter ali uma ‘obra de arte’, vende o espaço a não sei quantos mil euros o metro quadrado”. Graça Correia afirma: “Toda a gente está chocada com o que é possível fazer alegando uma reabilitação. O prédio precisava de manutenção, mas tem uma qualidade absolutamente extraordinária, não faz sentido que seja feito este autêntico atentado.”

Mais comedido, o arquitecto Álvaro Siza, vencedor de um Pritzker, também critica a possibilidade de uma intervenção que altere o prédio de Ricca. “O Foco é talvez a melhor e mais prestigiada solução urbanística e arquitectónica dos anos 60. Se se está a pensar numa intervenção que altera completamente a fachada, isso não deveria ser feito, independentemente da qualidade do que se propõe para lá. Uma recuperação de um edifício tão importante daquela fase deveria preservar o desenho do arquitecto. É preciso lembrar que ele foi um dos arquitectos mais importantes desta época, a par com Cassiano [Barbosa], [Arménio] Losa, [Januário] Godinho e [José Carlos] Loureiro. Fazer isto na cidade onde eles tanto trabalharam, parece-me muito estranho e mau, embora não seja caso único”, disse.

A obra foi licenciada pela Câmara do Porto a 16 de Agosto do ano passado. A emissão do alvará é de pouco mais de uma semana depois: 25 de Agosto de 2017. Na altura, o vereador do Urbanismo era Rui Losa, que, após as eleições de Outubro deixou de integrar o executivo de Rui Moreira. Fonte oficial da autarquia diz, por isso, que o actual vereador do pelouro, Pedro Baganha, está, agora, “a olhar para o processo que foi aprovado, com os promotores e os arquitectos”. O PÚBLICO tentou contactar a Atitlan Real Estate Porto Imóveis, S.A., dona da obra, e o gabinete Barbosa & Guimarães, que terá a responsabilidade do projecto de reabilitação, mas tal não foi possível. Já Vhils confirmou apenas que o projecto ainda está “em desenvolvimento” e, até agora, não foi possível obter mais esclarecimentos.

Na sua página na internet a Do.Co.Mo.Mo International alerta que “os novos compradores [do edifício] estão a promover trabalhos de construção nas fachadas que são uma ameaça à unidade do complexo”. Unidade é também o que se ouve do arquitecto Nuno Graça Moura (um dos primeiros a divulgar o caso na sua página do Facebook) ou do arquitecto João Luís Marques, que integrou a Comissão das Comemorações do Centenário de Nascimento do Arquitecto Agostinho Ricca, assinalado em 2015 com vários eventos apoiados, entre outros, pela Câmara do Porto. “Apelamos ao bom senso, apesar de termos consciência da dificuldade. A câmara dar o dito pelo não dito neste caso seria um exemplo de consciência, de alguém que assume que não representou bem o interesse da cidade”, diz.

Já o arquitecto Manuel Correia Fernandes, vereador socialista do Urbanismo até Maio de 2017, classifica a intenção de mexer na fachada como “péssima” e garante que “jamais” teria licenciado uma obra que previsse essa solução. Juntando a sua voz à dos colegas, o arquitecto João Pedro Serôdio, filho de um dos autores do Foco, também lamenta o processo: “Era de todo o interesse conseguir que os edifícios resistissem ao tempo e que pudéssemos deixar a quem nos sucede aquele património, sem estar destruído por intervenções avulsas, sem respeito pelo projecto original.”