Ganhar dinheiro com anúncios torna-se mais difícil

Mais regras e mais revisores humanos são as estratégias da plataforma para se tornar mais segura e com anúncios só em vídeos de qualidade. YouTube continua a tentar agradar a criadores, utilizadores, anunciantes e pais preocupados.

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Com as mudanças, há canais que vão perder receitas Paulo Pimenta,Paulo Pimenta

Torna-se mais difícil fazer dinheiro com um vídeo viral no YouTube. A empresa aumentou os critérios que um canal tem de cumprir para poder incluir publicidade nos vídeos e por essa via gerar receitas com visualizações. É uma forma de reconquistar a confiança dos anunciantes depois de um ano complicado em que marcas como a Audi, a Adidas, o McDonalds, e o Lidl removeram a publicidade porque esta era exibida em vídeos de propaganda terrorista, racista ou de crianças com comentários sexuais.

Agora, os utilizadores têm de ter pelo menos mil subscritores no canal e vídeos que foram vistos mais de 4000 horas nos últimos 12 meses para fazer parte do YouTube’s Partner Program (que permite receber dinheiro da plataforma). Ou seja, é difícil fazer dinheiro com um vídeo cujo título seja falso e que os utilizadores desistem logo de ver.

“Não há como negar que 2017 foi um ano difícil”, admite Paul Muret, vice-director da equipa de vídeo e dados do YouTube, em comunicado. “Interessamo-nos em proteger os nossos utilizadores, anunciantes e criadores e garantir que o YouTube não é um local para ser usado" de forma errada.

Cada vez mais criadores de vídeo ambicionam ganhar dinheiro do YouTube. Com vídeos sobre todos os temas – desde mostrar roupa que se comprou (os famosos hauls), pregar partidas aos parceiros (“fingi deixar a minha namorada” é uma tendência), comentar novos filmes e livros, jogar videojogos e até comer ou sussurrar em frente à câmara – muitos crescem a querer ser youtubers, para ter muitas visualizações e muito dinheiro. O problema é que o foco no dinheiro leva a que conteúdo com fraca qualidade seja difundido na plataforma.

Actualmente, o YouTube tem de gerir os requisitos dos anunciantes que não querem ver os seus produtos promovidos com conteúdo considerado problemático. Ao mesmo tempo, precisa de conciliar isso com os objectivos dos autores populares que não querem restringir os temas que abordam, e também as expectativas dos pais que querem que a plataforma crie conteúdo seguro para as crianças que navegam no site.

Os youtubers afectados têm criticado a acção do YouTube. Phill Burnell, responsável pelo canal DSP Gaming – que publica recomendações sobre videojogos e tutoriais – comenta no Twitter que esta solução do YouTube não resolve nada. “Só serve para dar anúncios a canais maiores, para que estes continuem na plataforma”, diz Burnell. “A nova política não reconhece a origem dos problemas do YouTube com anunciantes: bots que não fazem revisão do conteúdo, algoritmos que não funcionam e idiotas como o Logan Paul e o Pewdiepie que dão má imagem."

Recentemente, o YouTube decidiu remover do Google Prefered Platform o canal de Logan Paul, um norte-americano de 22 anos que é muito popular entre os mais novos (tem mais de 16 milhões de subscritores). Essa plataforma permite a empresas colocarem anúncios no YouTube, nos 5% de vídeos mais vistos por pessoas dos 18 aos 34 anos. Em causa estava um vídeo de Logan Paul a encontrar e a mostrar o cadáver de uma pessoa enforcada numa floresta japonesa. O caso foi alvo de particular controvérsia porque o canal tinha outros vídeos do mesmo autor norte-americano a fazer comentários culturalmente insensíveis sobre o Japão. No entanto, o público-alvo (crianças e jovens adolescentes) não via problemas com os vídeos.

Em Portugal, a influência dos youtubers nos mais novos também tem sido largamente discutida, com o humorista Nuno Markl a declarar que na sua casa “acabaram-se os youtubers depois de encontrar o filho de oito anos a ver vídeos de jovens a recomendarem insultos e ofensas aos pais como solução, sob pretexto de ser humor.

Mais humanos a rever conteúdo

“Tornou-se claro nos últimos meses que é preciso um padrão mais elevado”, reconhece, agora, o YouTube. Além de tornar mais difícil ganhar dinheiro com a plataforma (meses antes, restringiu o Youtube’s Partner Program aos utilizadores com mais de 10 mil visualizações desde a criação do canal), a empresa vai empregar mais humanos no processo de revisão. Até ao final de 2018, o objectivo é ter mais dez mil trabalhadores a ver o conteúdo proposto para o Google Prefered Platform (que recomendava vídeos como os de Logan Paul). 

A empresa está consciente de que as mudanças vão afectar um grande número de canais, e levar alguns criadores a perderem receitas. Ressalva, porém, que “99% dos afectados estavam a ganhar menos de 100 dólares [cerca de 80 euros] por ano no último ano, com 90% a ganhar menos de 2,50 dólares por mês.” Quem já dependia do YouTube para as despesas mensais deve poder continuar a fazê-lo".

De acordo com dados da empresa, o número de canais a ganhar mais de seis dígitos cresceu 40% no último ano.