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O Big Brother da parentalidade já nasceu e tem nome: “Supernanny”

Confunde-se ter autoridade com autoritarismo, baralham-se ordens com pedidos, facilmente se passa do “à vontade” para o “à vontadinha”, tudo é “negociável”, chamam-se “birras” a marcados comportamentos de desafio e oposição

E o Big Brother chegou à Psicologia. É o “Vale Tudo” da Psicologia Parental. Despir assim as famílias é obsceno, perigoso e humilhante, não só para os pais e filhos que se inscrevem no programa Supernanny, mas também para as ciências psicológicas.

O tema das competências parentais encontra-se na ordem do dia nos mais variados contextos: televisão, jornais, livros, blogues, escolas, workshops e formações. Pretendia-se que a família dos silêncios, do autoritarismo e da punição física fosse derrubada pela família da comunicação democrática, do equilíbrio e da ternura. Mas isso ainda não aconteceu. Efectivamente está a tornar-se difícil atingir bom senso e a harmonia nas práticas parentais. Confunde-se ter autoridade com autoritarismo, baralham-se ordens com pedidos, facilmente se passa do “à vontade” para “à vontadinha”, tudo é “negociável”, chamam-se “birras” a marcados comportamentos de desafio e oposição. É uma sensação constante da competição para se ter o título do “o melhor pai”, “a família do ano”, “o filho perfeito”, “os irmãos exemplares”.

TEMOS família, mas será que SOMOS família? Os empregos dos adultos sugam a energia da parentalidade sem darmos por isso. Durante a semana e nos fins-de-semana, as baterias esgotam-se, mas não de brincadeiras em casa ou ao ar livre, de boas conversas entre pais e filhos. Educar tornou-se numa corrida contra o tempo. Está a perder-se o tempo da infância, de crescer e desenvolver ao sabor de cada dia que passa, de acompanhar o ritmo do dia-a-dia, de saborear as rotinas. Os pais sentem-se perdidos e cansados, sedentos de ajuda e orientação. Tornaram-se a presa fácil para programas televisivos predadores.

A culpa, a vergonha, a angústia e o medo dos pais merecem maior respeito. A parentalidade é um desafio precioso, mágico, mas também íntimo. Não requer pressões, julgamentos ou grandes audiências. Construir espaços, momentos ou eventos que funcionem como escola para pais parece-me pertinente e sensato. Mas não serão locais onde se pratica psicologia pornográfica. Ensina-se a “aprender a aprender” a parentalidade. A perceber que amar não chega, que temos que ir mais além, vasculhar na infância que tivemos para melhor entendermos as expectativas e desejos que temos como pais. Reflectirmo-nos enquanto imagem interior de sentimentos, emoções e pensamentos. Sermos concretos e seguros no que queremos deste mundo. Deixarmo-nos surpreender pelos filhos, pelos seus gostos, interesses e resoluções. Encarar os “filhos multimédia” como uma realidade nem boa nem má, mas sim uma realidade que tem que ter regras para se poder usufruir dela. Abusar dos livros, das cavalitas, das canções, dos desenhos, dos jogos. Tranquilizar com os filhos num longo abraço, chorar tristeza em lágrimas ranhosas, soltar risadas de alegria olhos nos olhos, protegê-los com o medo bom do “isso não”, correr com pernas furiosas as zangas do dia. E sim, perceber que os filhos precisam que os pais mandem neles e aprender estratégias saudáveis de comunicação e de assertividade para gerir essa relação; conhecer um pouco mais da fase desenvolvimental das crianças para os pais poderem saber se o medo do escuro ou dos ladrões está ou não ajustado à idade ou se realmente as crianças “entendem” o que é a morte. Mas sem passar do 8 para o 80. A Psicologia está na moda. Por tudo e por nada é preciso ir ao psicólogo, perguntar ao pediatra, ir ver ao blogue ou ao Google como agir. Estamos a perder o instinto parental. Coisas que são “normais” e até expectáveis requerem uma resposta intuitiva, aquilo que se chamava o bom senso comum.

A parentalidade não é o “tudo ou nada”, um “ou eu, ou tu”. Não é dicotomia de extremos. Não é uma “Nanny-Psicóloga-Super” que invade as fronteiras do espaço familiar e que faz dos pais marionetas. É um percurso sistémico, de contacto directo entre os pais e os filhos, os avós, a escola, os amigos. É por excelência o papel mais importante das sociedades humanas, aquele que nunca poderá estar ameaçado ou em vias de extinção. Um programa como este apenas serve para “poluir a parentalidade”. Vamos reciclar os pais, mas humanizando a parentalidade.