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Megafone

Ainda sobre o caso H&M…

Nada mais que hipocrisia, sensibilidades apuradas, puritanismos falsos, moralismos fingidos. Quanto a mim, foi precisamente o que aconteceu no “caso H&M”

Gosto de pessoas sensíveis. Mais do que gostar, adoro-as. (Peço o favor de lerem estas primeiras palavras com um tom irónico.) “As pessoas sensíveis não são capazes / de matar galinhas / Porém são capazes / De comer galinhas…”, escrevia Sophia de Mello Breyner Andresen no magistral As pessoas sensíveis. É um poema de denúncia àqueles que a autora considera hipócritas. Sempre que me cruzo com sensibilidades extremas e com aquilo que me cheira a hipocrisia, lembro-me deste poema. E, quanto a mim, é precisamente o que aconteceu no “caso H&M”. Nada mais que hipocrisia, sensibilidades apuradas, puritanismos falsos, moralismos fingidos.

Para mim isto é um “não problema”. Assumo que quando a polémica rebentou não pensei que sentiria a necessidade de escrever sobre o assunto. Para mim estávamos a assistir a mais uma polémica empolada pela força das redes sociais. Analisando a fotografia, a bendita da camisola e o catita que era o modelo pensei que depressa a polémica se extinguiria por existir uma total falta de combustível que a alimentasse. Contudo, o tempo veio demonstrar que estava enganada, com vários artistas a cancelar o seu contrato com a H&M, com vários textos a serem escritos sobre o assunto (textos que sublinhavam a importância de se debater este flagrante erro da empresa), com várias vozes a levantarem-se e a exigirem a retractação da empresa, que não tardou a chegar. Levantaram-se as bandeiras anti-racistas. Cuidado que temos ali, mais uma vez, a supremacia do colono branco! Cuidado que estamos perante uma fotografia que trata como macaco uma criança negra! Imensas foram as vozes que se ergueram contra esta “insuportável” imagem, este erro tão hediondo.

É claro que é possível fazer a leitura que tantos estão a fazer. É claro que depois de nos chamarem a atenção para a mensagem da fotografia e para o modelo possamos pensar que escolheram a criança negra de propósito para ilustrar aquela frase, mas acham mesmo que isso faz algum sentido? Em primeiro lugar, há que pensar na questão da língua. Tanto quanto sei, a expressão “little monkey” é utilizada na língua inglesa da mesma forma que em português usamos expressões como “a minha pulguinha”, “o meu ratito”, “o meu piolho”, “o estorninho” ou a “minha formiga rabiga”. Nenhum destes “animais” é particularmente simpático à visão mas é óbvio que esta é uma forma carinhosa de se referir aos seus rebentos, e não uma forma literal de os caracterizar. Houve uma falha assim tão grande ao criar esta camisola? Ou apenas se usou uma expressão (adaptada) da própria língua? Será completamente impensável que ao fotografarem o modelo a interpretação racista do conjunto camisola/modelo não tenha existido? Para mim é plausível pensar que tal ideia não tenha aflorado a mente de ninguém.

Se gosto da camisola? Não, não gosto. Mas não me ofende vê-la a ser envergada por uma criança negra ou uma criança branca. O que me parece que aconteceu neste caso foi que se criou uma celeuma à volta de uma situação que, quanto a mim, nunca foi equacionada. Ver comportamentos racistas em todo o lado não será também uma forma de racismo? Não será uma dificuldade ainda em lidar com as várias cores que o ser humano tem?

Este tipo de atitude, que passa por interpretar como uma mensagem racista uma simples camisola vestida por um modelo negro, não só não ajuda a combater o preconceito, como demonstra que ainda há muito caminho por trilhar. Toda esta atitude mais não é do que, para mim, e como dizem os franceses, “chercher la petite bête” (procurar o pequeno bicho), no sentido em que se perde tempo com pequenos detalhes em vez de com coisas que, de facto, têm importância. Estas pessoas que tanto se incomodaram com uma “má escolha do modelo para determinada camisola” assobiam para o lado quando ouvem que a mesma camisola foi, provavelmente, feita por alguma pessoa altamente explorada ou, quem sabe, por uma criança em lugares como Índia, Camboja ou Bangladesh. Incomodamo-nos com os nadas do mundo porque as preocupações a sério são demasiado avassaladoras. Elas exigiriam de nós uma reacção bem mais forte do que a de bradar contra uma má escolha da H&M. Assim, com esta irritação contra a loja e contra todos os que deixaram que esta fotografia chegasse ao grande público sentimos que cumprimos o nosso dever de bons cidadãos, mostrámos que somos gente que luta contra qualquer indício de racismo. Ajudámos a mudar um pouco o mundo, ainda que num tema insignificante.

Contudo, a verdade é que mais não fizemos do que, mais uma vez, mostrar que, bem no fundo, continuamos a ser racistas disfarçados de cidadãos conscientes.