Entrevista

“Há um gap no apoio à inovação empresarial”

Coordenador da Mare Startup, o maior programa nacional de apoio à inovação empresarial e dedicado à economia do mar, José Guerreiro aponta obstáculos ao seu desenvolvimento: ausência de financiamento público para entidades como a Mare Startup e a dificuldade acrescida de acesso ao crédito para investimentos na área do mar

Rui Gaudêncio
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Rui Gaudêncio

Um desincrustante biológico não tóxico para cascos de navios, microalgas e zooplâncton para alimentar aquacultura, um catamaran de competição, turismo de natureza, aquoponia para aquacultura em meio urbano, uma aplicação digital para "iatistas" que chegam a terra, produção de cavalos-marinhos: são projectos que fazem a cara da Mare Startup, rede que junta 600 investigadores e diferentes valências de apoio a quem quer criar uma empresa inovadora na área do mar. Acaba de ser escolhida como caso de estudo para o programa de trabalho de economia do Oceano da OCDE, como explica o coordenador da rede, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e antigo secretário de Estado do Ambiente, no governo de António Guterres.

O que significa esta escolha?
Foi uma surpresa total. Não esperávamos. Iniciámos este empreendimento da Mare Startup, em 2015, a partir de uma constatação muito simples: não havia nenhum projecto de apoio à incubação empresarial na área do mar.

Foi uma reflexão conjunta, esta ideia de criar uma coisa flexível, leve, mas com os parceiros certos de modo a poder apoiar o empreendedorismo e inovação empresarial na área do mar. Foi construída e pensada de raiz para ser um processo de apoio à incubação e inovação empresarial nesta área.

Como surgiu a Mare Startup?
Em 2006 transformámos um dos pólos de transferência de tecnologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e lançámos uma incubadora empresarial. Não era comum associar à incubação empresarial um programa de apoio a essa mesma incubação, ou seja, não ser apenas um simples condomínio, mas de facto um programa de apoio, acompanhando as empresas, dando-lhes apoio jurídico, técnico. Com esta iniciativa da Faculdade de Ciências em velocidade cruzeiro, em conversas com os parceiros da Saer e do Fórum Oceano surgiu então a ideia de uma iniciativa dirigida ao mar. Tínhamos uma vantagem: na Faculdade de Ciências está sedeado o Centro Mare, que reúne vários pólos de investigação, da Universidade de Coimbra, da Madeira, dos Açores, Évora. Era o maior centro de investigação do país.

Em conjunto com os centros da Universidade Católica, a Mare Startup ficou com um background de 600 investigadores – 400 doutorados do Centro Mare mais 200 da Católica -, desde as áreas de aquacultura, biologia até às do direito e da gestão, das ciências sociais e políticas. Em termos de acompanhamento técnico-científico é inigualável em termos nacionais pela massa crítica que tem. O que idealizámos foi, consoante as necessidades das startups ou das ideias que aparecessem, ter uma bolsa de consultores e mentores com um grau de probabilidade elevadíssimo de termos alguém que as acompanhasse tecnicamente. Não só é o maior centro do país como é um dos maiores da Europa.

Seiscentos investigadores é um número muito elevado e é um centro interessante porque é um centro de redes. Foi reunir em parceria os diferentes centros e universidades e começar a trabalhar em rede – sem fazer novas infra-estruturas, nem mecanismos pesados ou burocráticos. Mais do que estar a consumir recursos financeiros, foi adaptar o que existia para um novo objectivo. Acho que o segredo [da nomeação para a OCDE] foi esse.

Foi essa a razão?
Sim. O Fórum Oceano, que vem do fórum empresarial da economia do mar, é a única associação que reúne as empresas ligadas ao mar e isso garante a ligação ao sector empresarial, tem desde as pequenas empresas à Galp; a Saer está ligada a concepção do hipercluster da economia do mar e é também uma sociedade de avaliação de risco, o que não é vulgar, fazendo o acompanhamento e a avaliação de risco das iniciativas; a Universidade Católica tem duas valências particulares, uma o direito e o direito do mar e a outra a escola de gestão, a Business School. A engenharia que concebemos foi juntar valências partindo de uma pergunta de base: quem quiser uma startup de que apoio precisa? O tempo veio a dar-nos razão: precisam às vezes de coisas simples, como a constituição da empresa, [a definição do] modelo empresarial, o apoio ao desenvolvimento do plano de negócio ou, em fases posteriores, a procura de capital de risco. Anda muito à volta disto, complementado com aspectos técnicos e científicos. Aí recorre-se à bolsa de horas.

Não há no país uma entidade comparável?
É difícil. Só há uma sociedade de avaliação estratégica e risco, só há um fórum empresarial, embora já haja algumas iniciativas, sobretudo no último ano, que enveredaram por este caminho e são muito bem-vindas. Temo-nos já articulado com o tecnopólo de Sines e a Universidade de Coimbra a partir do centro da Figueira da Foz, que é para ganhar escala. É isso que faz sentido. E sempre foi nosso entendimento que devemos ser suficientemente flexíveis e ter uma rede de parceiros que, independentemente do programa de acompanhamento, permita à empresa, à iniciativa empresarial ou ao projecto poder sedear-se em qualquer parte do país desde que haja um protocolo de colaboração. Isso é o fundamental. Temos por exemplo aqui empresas que vão para o Algarve, uma está nos Açores.

O que implica para a Mare Startup a nomeação para a OCDE?
Vai-nos dar sobretudo responsabilidade acrescida e um reconhecimento, penso eu, de que é o modelo correcto. Que o modelo que desenhámos pode hoje servir como exemplo de criação de uma rede com parceiros oriundos de diferentes áreas, tendo nós parceiros exclusivamente do mundo empresarial, outros da área económico-financeira, outros do meio universitário. E exemplo de um modelo de apoio à inovação na economia do mar. Repare-se, fazendo isto sem investimento público.

Nenhum?
Tivemos zero financiamento público até agora. Há um gap no apoio à inovação empresarial e um papel que não está a ser reconhecido. Temos através do Fundo Azul [com fundos comunitários, nacionais e receitas da taxa de utilização do espaço marítimo] uma série de iniciativas e bem, fui um defensor da sua criação, mas não há mecanismos de financiamento para apoio às entidades que prestam o apoio à inovação empresarial. Isso é um buraco que existe no sistema. As empresas à partida podem concorrer mas as entidades que fomentam isso não têm uma linha de financiamento.

Temos chamado à atenção para isso. No fundo dispomos de um modelo de acompanhamento no desenvolvimento das empresas ou das ideias que se baseia num apoio técnico-científico, jurídico e financeiro gratuito com uma bolsa de horas. Esse gratuito quer dizer que é um investimento dos envolvidos, que são as entidades parceiras que estão a financiar com as suas receitas próprias – o tempo custa dinheiro. Não conseguimos criar em Portugal um mecanismo para co-financiar este software.

Mais importante que o hardware  – daí a distinção da OCDE – foi o software criado em termos de rede de apoio. O factor distintivo foi o software de apoio. Temos um parceiro que é a [sociedade de advogados] VdA-Vieira de Almeida. Uma empresa precisa de apoio à propriedade intelectual e se calhar tem uma patente: não é uma coisa que se vá à loja do cidadão, precisa de apoio especializado. Vem outra que não consegue desenvolver o plano de negócio, precisa de verba e de uma análise de risco: também não há numa loja do cidadão. Isto é o mais importante para as iniciativas que nos aparecem.

O 2020 não tem resposta para uma rede destas?
Não. Temos aqui empresas como a PenWave com [o projecto] Aqua Line, para produção de alimento para aquacultura, temos outras que pretendem produzir partes novas de barcos de competição, o Vortex 25, um catamaran. Entre os dois exemplos há um gradiente monumental e necessidades diametralmente distintas. Os sistemas montados têm dificuldade em reconhecer algo dirigido apenas a apoiar as empresas, a desenvolver o seu plano e a encontrar os parceiros necessários.

A rede tem ideia de quanto já investiu gratuitamente?
Para funcionar em escala teria custos de 300 mil euros por ano. Estamos a funcionar já em pleno há um ano e meio. Portanto, estamos a falar de números dessa ordem de grandeza. Depois, se uma empresa vai ao Fundo Azul e se quiser continuar a beneficiar do nosso apoio para além da bolsa de horas gratuita, naturalmente passa a ser pago e há um retorno.

O Aqua Line foi o primeiro projecto?
Foi o primeiro a ganhar o prémio Montepio. Mas começámos com um primeiro caso de estudo que está aqui sedeado e que hoje em dia segue o seu caminho que foi a BioMimetx. Hoje em dia esta empresa vai na sua segunda ou terceira ronda de capital e tem investidores norte-americanos. Desenvolveu um produto biotecnológico para remover os incrustantes dos cascos dos navios, um biocida [desincrustante biológico não tóxico]. No caso concreto da PenWave com a Aqua Line era um pequeno capital para desenvolver um processo tecnológico.

Que usa algas?
Micro-algas e copépodes (zooplâncton) – portanto microorganismos animais. O grande segredo do sucesso da aquacultura a médio prazo, mais do que resolver a produção, é resolver a alimentação para a aquacultura. É um projecto inovador. Neste momento, o negócio deles é 100% exportação. É um processo tecnológico que acrescenta qualquer coisa aos processos já existentes do ponto de vista técnico-científico e é uma exportação.

Quantas candidaturas recebeu até agora a Marestarup?
Estamos a acompanhar neste momento sete candidaturas. Só em 2017 abrimos uma candidatura formal. No ano anterior estabelecemos convites. Fomos prudentes. O nosso objectivo realista era, no mínimo, aceitarmos três empresas por ano enquanto funcionássemos com receita própria até adquirir escala. Foi o que fizemos.

Que outros projectos teve ou tem a Mare Startup, para além da BioMimetx, da Aqua Line e do Vortex 25?
Neste momento temos o projecto Fish&Greens – de aquoponia, para produção de peixe em meio urbano para consumo humano, só que os dejectos dos peixes, que são normalmente um problema da aquacultura são utlizados [como fertilizante] para culturas vegetais. É um processo biológico. O projecto começou na Alemanha, na Holanda e em outros países como projecto-piloto e neste momento já tem apoio da Câmara Municipal de Torres Vedras e vai passar para a fase de instalação. E depois, no limite, pode ser feito no telhado de um prédio. É o primeiro projecto que conheço em Portugal de aquoponia e foi o que nos deu mais trabalho. Havia algumas limitações no quadro legal à produção dessas espécies.

Uma empresa de turismo natureza que opera nos Açores foi uma das primeiras no ano passado que nos pediu apoio. O problema [dos seus promotores] era o quadro legal em que podiam operar não apenas no whale watching mas também no birdwatching. Essa recebeu também o apoio do Governo Regional dos Açores.

Como é que este projecto se insere na lógica de inovação da Mare Startup?
Chama-se valorização dos recursos marinhos e do património marinho, criação de valor acrescentado sobre o que é património. Para a pergunta quanto vale o património natural, hoje há técnicas para avaliar quanto vale uma baleia ou quanto vale um elefante, depende de quanto se estiver disposto a pagar para ir ver. Isso cria postos de trabalho, um valor acrescentado e uma economia à volta. Neste caso implicava meios navais.

Mais projectos?
O Atlantic Marina, que é o desenvolvimento de uma plataforma digital para os “iatistas”, ao aproximarem-se de uma costa, saberem
todos os serviços que têm à sua disposição, desde museus, restaurantes, hospitais, etc. Quem chega a um determinado local, por vezes, tem dificuldade em identificar pontos de percurso, interesse ou necessidade premente. É um dos projectos que acolhemos, basicamente é uma aplicação informática na área naval.

Temos, portanto, construção de uma classe de navios de competição, processador de alimento para aquacultura, turismo de natureza, biocidas, aquoponia com produção em aquacultura e de vegetais, aplicação digital. O leque é bastante diversificado. Temos ainda em carteira a produção de cavalos-marinhos, que temos seguido com interesse.

Que avaliação faz do que tem sido a política do mar dos últimos governos?
Faço um balanço positivo. Nos últimos anos os diversos governos têm tentado criar mecanismos para dinamizar as actividades ligadas ao mar, que não apenas as actividades tradicionais. Portugal teve um bom papel a ajudar a reorientar a UE nesse sentido. Agora, é evidente, estamos muito balizados pelo chamado crescimento azul da UE que define muito bem os novos sectores: turismo náutico, aquacultura, biotecnologias, as energias renováveis e a exploração de minerais. Portanto, é natural que a alavancagem de fundos comunitários vá prioritariamente para esses sectores. As universidades e o sistema científico têm de fazer um esforço de apoio destas iniciativas empresariais. É aqui que o ciclo não está completo.

Para que os centros empresariais em universidade façam isso tem que haver mecanismos que permitam uma ligação ao sector empresarial. A especificidade do mar exige mecanismos distintos de acompanhamento à inovação e desenvolvimento empresarial e ou financiamento. O Fundo Azul é uma primeira iniciativa. Mas, por exemplo, do lado da banca e do capital de risco é preciso assegurar um financiamento que entenda que o tempo de retorno do investimento em meio marinho não é o mesmo do de um resort.

Se falar com empresários, vários mencionarão a dificuldade no acesso ao crédito bancário para investimento, não é a dificuldade de acesso ao crédito normal, é uma dificuldade acrescida para investimentos na área do mar. Isso é uma coisa que os governos e a Assembleia, provavelmente, vão ter de tomar em consideração e criar um mecanismo que alivie algum medo de risco quer das entidades financiadoras quer do capital de risco.

 

Actualizada a 15-1-2018 às 11h00