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O que não faz falta é animar Malta

Com um vasto programa que prevê igualdade de oportunidades para todos, La Valletta e Gozo vivem um ano único que celebra o passado, o presente e o futuro das ilhas. A cerimónia oficial de abertura da Capital Europeia da Cultura é já no próximo sábado, com quatro eventos noutras tantas praças míticas da capital.

Festa.

É uma das primeiras palavras que, pelo menos para um português, saltam à vista quando os olhos deslizam pelo programa de Valletta-2018, rápido a informar que as celebrações terão como palcos Malta e Gozo. Uma descentralização que rima com a ideia de “democratização” defendida por Jason Micallef, de forma a garantir “igualdade de oportunidades para todos”, mais do que uma prioridade, uma necessidade, segundo as palavras do presidente da Fundação Valletta-2018, também um adepto de uma cultura “que nunca deve ser elitista”.

“Pretendemos entreter, desafiar, provocar — mas, mais do que isso, queremos inspirar”, admite Jason Micallef, antes de observar que “a arte abre portas onde existem muros”, na certeza de que “a actividade cultural promove o diálogo criativo e o intercâmbio entre as diferentes comunidades, como antídoto contra a divisão”.

O presidente da fundação, um político em idade precoce, não tem dúvidas de que o programa de Valletta-2018 “é uma celebração do passado, do presente e, acima de tudo, do futuro” das ilhas, uma convicção baseada no facto de acreditar firmemente “no poder transformativo da cultura”, a qual considera “fundamental para o crescimento emocional e intelectual de uma nação”.

E que nação, tão pequena e tão grande, tão rica em história, noutros tempos tão ameaçada pelos otomanos e, em contraste, muito menos atractiva caso não se tivesse dado a invasão turca. Sucede que foi, precisamente, a tentativa de travar o avanço dos sultões otomanos sobre a Europa que conduziu à instalação em Malta, no século XVI, dos Cavaleiros da Ordem Soberana e Militar e Hospitalária de São João, transformada mais tarde, após a expulsão de Rhodes, em Ordem de Malta. E antes ainda dos Cavaleiros, da sua capacidade guerreira e da sua fé, outros povos, como os fenícios, os romanos, os bizantinos e até o apóstolo Paulo, que naufragou no lugar conhecido como St. Paul’s Bay e introduziu o Cristianismo no arquipélago, tão presente no punhado de igrejas que se enchem de fiéis, em La Valleta e um pouco por todo o lado, instalaram-se nestas ilhas tão estratégicas para controlar o comércio marítimo — não é por acaso que Malta é considerada a sentinela do Mediterrâneo.

A festa da cultura tem início, oficialmente, no próximo sábado, dia 20, mas a cerimónia de abertura é antecedida de uma semana de festejos, já a partir de amanhã, atraindo multidões ao coração da ilha, até aos seus lugares mais históricos, para depois se estender a outras vilas e aldeias de Malta e Gozo.

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Dez milhões de euros

As ilhas também foram ocupadas e dominadas pelos árabes que, além de erguerem sólidas fortificações e de cultivarem os seus campos, deixaram essa espécie de ave rara que é a língua maltesa (ver informações) — e a história também fala dos normandos e dos aragoneses, da presença de Napoleão, fundamental para a expulsão dos guerreiros da cruz, e dos ingleses, finalmente, até a independência ser proclamada, há pouco mais de 50 anos.

No total, Valletta-2018 proporciona 140 projectos e 400 eventos, um investimento forte num programa que abarca cerca de mil artistas, realizadores, actores, estilistas, escritores, entre outros, os internacionais em colaboração com os locais que, por sua vez, se juntarão a outros acontecimentos na cidade gémea da cultura europeia, Leeuwarden, e a outras urbes, no Japão, na Grécia, na Polónia, por exemplo, tudo previsto num orçamento que ascende a dez milhões de euros e promete estender-se para lá de 2018 em algumas das infra-estruturas projectadas, como a MUZA, a Valletta Design Cluster, a Is-Suq tal-Belt e a Strait Street.

Muza é a palavra maltesa para musa — ou para inspiração — mas é também um acrónimo de MUZew Nazzjonali tal-Art, por sua vez o nome maltês para o Museu Nacional de Belas-Artes, agora abrigado no Auberge d’Italie, um edifício histórico do século XVI, sede e residência dos cavaleiros italianos da Ordem de São João. Para celebrar Valletta-2018, foi criado o Naqsam il-MUZA, uma actividade inovadora da comunidade curadora na qual os cidadãos são encorajados a errar através da colecção de arte nacional, a reflectir após escolher uma peça (serão reproduzidas e apresentadas em distintos espaços públicos) e a partilhar os seus pensamentos com amigos, família e comunidade em geral.

Valletta Design Cluster foi apontado, já em Junho de 2015, como o projecto mais emblemático de Valletta-2018, com a promessa de transformação do edifício do antigo matadouro, por essa altura uma estrutura abandonada no coração de um dos bairros residenciais da cidade, numa referência de inciativas de design, nacionais e internacionais, e como elemento catalisador de desenvolvimento urbano numa área há muito neglicenciada.

Já Is-Suq tal-Belt é uma estrutura icónica no coração de La Valletta, o mercado da capital que é um admirável exemplo da arquitectura da era vitoriana e que tem vindo a ser renovado de forma a preservar o seu carácter original e, em simultâneo, recriado para aproveitar todo o seu potencial comercial e cultural.

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Finalmente, a Strait Street, vulgarmente designada por Strada Stretta, a rua onde, nas últimas décadas, alguns músicos talentosos e artistas começaram as suas carreiras, está a transformar-se, nos dias de hoje, num dos centros mais criativos e sociais de La Valletta, mantendo-se cheia de vida mesmo quando as obras de restauração se iniciaram, há três anos, e ameaçando exacerbar a sua vocação artística como verdadeiro centro de proliferação da cultura nas ilhas de Malta e Gozo graças a um conjunto de actividades desenvolvidas sob a direcção artística de Giuseppe Schembri Bonaci — exposições, produções teatrais, seminários, noites de poesia e de literatura.  

Quatro praças

No total, espera-se que um milhão de pessoas, entre residentes e estrangeiros (o país conta com pouco mais de 430 mil habitantes e recebeu, em 2016, cerca de dois milhões de turistas), se sintam atraídos pelos eventos organizados por Valletta-2018, cuja agenda cultural, de tão diversificada, apenas encontra paralelo, segundo Jason Micallef, nas celebrações que se seguiram à independência do país, em 1964.

Muitas das atenções estão concentradas, a despeito da importância atribuída à antecâmara da cerimónia de abertura, em quatro pequenas palavras tão fortemente associadas a outros tantos lugares míticos da capital maltesa — a alegria, a dança, a música e o devaneio, como pinturas emolduradas pelas praças mais emblemáticas da cidade, St. George, St. John, Castille e Triton. É nesta última, referência modernista de La Valletta, que irá actuar o grupo teatral catalão, La Fura dels Baus, com a promessa de um espectáculo coreografado de acrobacia aérea que contará com a participação de uma rede humana sobre a recentemente restaurada fonte de Triton — inaugurada em 1959, embora não oficialmente, devido à situação política do país, colapsou em 1978 e já no ano passado as suas partes em bronze foram enviadas para Itália para serem restauradas.

Malta, da cor da areia, mudando de cor como a areia, é uma ilha que sempre esteve na encruzilhada da história, uma tentação para todos aqueles que habitavam à sua volta. La Valleta, por sua vez, eixo principal do arquipélago, é uma cidade de uma beleza rara, que produz impacto no viandante à primeira vista, nostálgica, com os seus balcões de madeira, as suas ruas, as suas praças, os seus palácios, como quadros formosos de um tempo remoto. A imagem típica de uma urbe mediterrânica do século XV, para algumas mentes um sinal de atraso, para outras, talvez mais sensíveis, um exemplo flagrante de como preservar todo um conjunto histórico num estado de excelência — não seriam sensíveis aqueles que decidiram filmar nestas paragens Conde do Montecristo ou Tróia?

E a festa continua

O programa de Valletta-2018 é vasto. Uma das mais antigas festividades de Malta, o Carnaval, este ano entre 9 e 13 de Fevereiro, enche de vida as ruas históricas da capital, com as suas marchas, as bandas musicais, os seus vestidos extravagantes, os bailarinos em trajes elaborados, o desfile de carros alegóricos — um momento sempre especial para as ilhas e, mais ainda, neste ano tão especial.

Malta, com ou sem programa oficial, também é especial. Essa sensação entranha-se em mim pouco depois de ter aterrado no aeroporto, pela quietude, pelo encontro permanente com o passado, pela curiosidade de apreender um pouco mais da cidade cujo nome presta um tributo a Jean Parisot de la Vallette, Grão-Mestre da Ordem dos Cavaleiros de São João, o qual, segundo rezam os relatos históricos, foi o coordenador da reconstrução de La Valletta depois da expulsão dos turcos, corria 1565, o ano do Grande Cerco. Sinto-me grato por caminhar pela Kingsway ou pela Strait Street, tentando imaginar, ao longo desta última, como seriam os duelos entre cavaleiros (a única onde eram oficialmente permitidos), por deitar olhares tão demorados para as igrejas, para os palácios, para os albergues de antigos aristocratas, transformados, nos dias de hoje, em espaços culturais ou em centros de recuperação do património histórico.

Valletta-2018 prossegue, no seu ritmo frenético, focado na cultura. Em Maio, entre 4 e 6, já com a natureza desperta, ocorre na praça de St. George, cumprindo uma tradição, o Infjorata (Festival Verde), a transformação de um dos maiores espaços urbanos a céu aberto de La Valletta num tapete floral composto por mais de 80 mil plantas que cresceram em vasos, uma iniciativa que pretende despertar a consciência dos habitantes de Malta e de Gozo para os problemas ambientais e um período que é aproveitado para dar a conhecer aos curiosos os jardins mais secretos de La Valletta, bem como os de Palácio do Arcebispo (velhinhos de 400 anos) e do convento de Santa Catarina.

Eu, como o programa cultural, continuo a minha errância.

O arsenal, no rés-do-chão do palácio do Grão-Mestre, bem no coração da cidade, alberga uma das maiores colecções do mundo de armaduras, de armas e artilharia do Renascimento, objectos que pertenciam à Ordem de São João e me conduzem para um percurso visual do período que vai do século XVI ao século XVIII.

Apenas um dia antes do início de um mediático festival de cinema (entre 8 e 17 de Junho) decorre o Pageant of the Seas, um momento que, tendo como pano de fundo o Grande Porto (La Valleta está situada entre dois portos, o de Marsamxett e o Grande Porto), um lugar que desempenhou um papel tão importante na história tão rica de Malta, irá certamente atrair multidões, na expectativa de admirarem algumas das mais excitantes actividades previstas para 2018. Entre elas, a Tellieqa Telliqun, uma competição louca de barcos, sem recurso a motor ou a remos, ou a Ghawma Toni Bajada, uma prova de natação que presta homenagem a Toni Bajada, o herói local durante o Grande Cerco (por parte do Império Otomano, entre Maio e Setembro de 1565),  logo seguidas de um espectáculo de luz, de fogo, de cor, prendendo as atenções daqueles que se vão perfilar ao longo dos bastiões. 

Bem próximo do palácio do Grão-Mestre, encontra-se a igreja Conventual de S. João, declarada Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, um dos monumentos mais importantes da ilha de Malta. No seu interior, construído maioritariamente à base de mármore de Carrara, estão os túmulos da nobreza europeia do século XVI, nem mais nem menos do que 375 cavaleiros enterrados sob o solo da sala principal. O altar central é uma soberba peça em lápis-lazúli, uma capela dedicada à coroa catalã-aragonesa e, ainda dentro do templo, numa sala especialmente acondicionada, um dos mais valiosos tesouros da religião — um Caravaggio de 1608 que retrata a execução de São João.

A festa prossegue.

A 25 de Março, o programa disponibiliza MODS Collective Meet Cecil Satariano. MODS significa music on D spot, música feita no lugar, uma improvisação assinada pelo grupo de músicos, quase todos eles naturais de Guimarães, como acompanhamento para dois filmes de Cecil Satariano (1930-1996), um realizador maltês pouco conhecido na Europa e mesmo no seu próprio país.

Há festa até 15 de Dezembro, dia de encerramento de Valletta-2018.

O que não faz falta é animar Malta.