Estes diabos de granito têm corações de queijo

Praias fluviais cheias? Só nas memórias do Verão. Na época baixa, Fornos de Algodres é caminhadas sem gente, tempo para partir nozes, trincar medronhos e engordar de queijos. Tudo sob a guarda da vizinha serra da Estrela.

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Consta que há muitos, muitos anos, em Linheiros de Baixo, vivia um homem muito rico. Tão rico, que chegava a acender a lareira com notas. Mas à medida da sua opulência reinava o desvario, pelo que depressa a fortuna se esgotou. Não sabendo como se governar, o homem caiu da miséria material para a do espírito e passou anos a fio perdido. Foi queimando tudo o que tinha para se aquecer no Inverno gelado da Beira Alta, não poupando nem a própria casa. Uma vez sem tecto, pôs-se a vaguear pelo monte até encontrar abrigo num penedo em forma de porco, o Penedo do Bácoro, sob o qual acabou por morrer à fome.

Nas terras graníticas de Fornos de Algodres, do Neolítico à chegada de judeus fugidos da Inquisição Espanhola, passando pela ocupação romana, multiplicam-se as lendas ligadas à paisagem. São 5000 anos de história. Nela fala-se de uma reunião de diabos na Quinta do Inferno; de mouras encantadas na Fraga da Pena – de onde podemos enxergar as catadupas do horizonte beirão –; de almas penadas que ainda hoje balançam sobre cemitérios medievais. Como quem fica a desenhar macacos e santinhos nas nuvens, nas tardes longas do Interior, locais e forasteiros imaginam nos grandes penedos da serra narizes de bruxa e rebanhos inteiros. Em alguns casos, as rochas dão azo a moldes reais, como a Anta de Cortiçô ou a Necrópole das Forcadas. Sobre esta última, diz-se que ainda circulam espíritos ao sabor do vento. Nunca se sabe, até porque um cemitério situar-se numa freguesia chamada Matança, embora não confirme nada, é sinal de que a terra está a falar connosco.

“O nome Matança – dizem os populares e esta é a versão mais provável –, terá vindo depois de uma grande batalha que aconteceu por aqui e que deu origem a muitas mortes”, conta Bruno Rebelo, arqueólogo e guia da autarquia local. A carrinha em que circulamos, normalmente usada para o transporte de idosos, não consegue chegar ao século XVII (ou XVIII; não se tem a certeza da época de construção da necrópole), pelo que Bruno avisa com algum pesar que teremos de caminhar “um bom bocado”. “Ainda é longe”, insiste. Mas não é. Em cinco minutos, por um caminho de terra sem declives, estamos entre as 24 sepulturas que compõem o também conhecido por Cemitério dos Mouros, que fica a 640 metros de altitude e tantos outros decibéis de silêncio. Ouçam: são piscos e pardais a assinar a manhã; folhas secas a balançar e a cair no Outono. Ainda cheira, em fracções de segundo, à cinza deixada pelos incêndios do Verão. Juntamente com a seca, é a grande preocupação de um destino que começa lentamente a apostar no turismo.

Tal como esta necrópole, também os dólmenes de Matança e de Cortiçô “dizem muito sobre o dia-a-dia das comunidades que aqui viveram”, afirma Bruno Rebelo, alegando que é essa curiosidade histórica que motiva os visitantes a aventurarem-se nos trilhos de Algodres. Entre a erva rasteira e o musgo fresco, já depois de desviado um ou outro medronho para o estômago, os olhos tentam garnir-se de atenção. Adivinham que em cada uma daquelas covas graníticas, há mais de 1200 anos, se enterravam pessoas aos pares ou que se usavam ligeiros desníveis para deixar as cabeças dos defuntos mais altas do que o resto do corpo.

E a anta? Quem seria importante para ter honras de ritual num destes monumentos do Neolítico (entre 2900 - 2640 antes de Cristo)? “Provavelmente, as pessoas mais velhas, por terem vivido mais tempo, porque naquela altura – à volta da Idade do Cobre – as sociedades ainda não tinham grandes hierarquias”, contextualiza o arqueólogo.

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Turistas (ainda) não pagam dívidas

Existe, no entanto, um elemento estranho na anta de Matança – um ferro cravado no granito, durante uma intervenção de restauro sui generis dos anos 1990 (bastante criticada por Bruno Rebelo) que marcou o dólmen para sempre. Por terras de solares e de portas cerradas, o arqueólogo relata como a luta para proteger o património tem sido constante. “Agora vocês estão a ver isto tudo limpo, mas há não muito tempo a pedra estava toda escura. Não podia trazer cá turistas [com o monumento] daquela maneira e deixar uma má imagem do concelho”, reclama, explicando que nem sempre a história e os bens culturais ocuparam um lugar especial no município.

Há um facto que o explica com clareza: Fornos de Algodres detém a maior dívida per capita do país. Para saldá-la, estima-se que cada habitante teria de pagar quase 6000 euros. Mas, “aos poucos, lá se vai fazendo”, afirma o vereador da Cultura, Alexandre Lote, entusiasmado com o plano de pôr o concelho no mapa do turismo da região Centro, na qual Fornos de Algodres é uma pequena mancha com pouco protagonismo, quando comparada a destinos como Fátima ou Nazaré, na visão do autarca.

Dona Ana (nome fictício), por exemplo, mantém em Matança o café Minibar “há 30 e tal anos”, a muito custo. “O negócio está muito mal, mas o que hei-de fazer se gosto desta porcaria?” Não sabemos responder assertivamente. Sabemos – ou julgamos saber –, no entanto, o que a prenderá à terra assim que olhamos em volta para os olivais, a rudeza dos penedos, as aldeias em granito, a geada que penteia os campos pela manhã. Vieram para ela, possivelmente encantados, muitos nobres e senhores, que aqui deixaram os seus solares e casarios; cresceram nela poetas como Carlos Figueiredo Nunes, fervoroso na religiosidade, porque em terra de diabos também há “em cada entrada uma capela”, como deixou escrito.

Em Casal Vasco, por exemplo, existem três edifícios religiosos para cerca de 200 habitantes (registados, mas invisíveis). Amélia tem a chave de um deles. “Pode entrar para ver. Depois, encoste-me só a porta, se faz favor”, convida, enquanto vai passear com os cinco cães que lhe “fazem companhia”. É a Capela de São Sebastião, à qual Amélia prefere ir por ser natural de Ramirão, freguesia anexada a Casal Vasco em 1751. É certo que Amélia ainda não era nascida, mas ir à sua capela e não à outra “é uma coisa de lugares”.

Não é esta, no entanto, a construção mais especial da freguesia. Do outro lado da estrada, Nossa Senhora da Encarnação dá nome a uma das poucas capelas casteladas de Portugal. Serviu, contam as ameias, como abrigo em tempos de invasão e de conflitos. Ao toque a rebate do sino, tudo para o interior da capela, olhos postos no perigo, pelas janelas de vigia. Não há ninguém, não há ninguém. O único perigo é esse.

O pecado da gula

Ir para as imediações da serra da Estrela e julgar que o prato não será o centro da viagem é, no mínimo, ingénuo. Do chouriço às morcelas, passando pelo Queijo da Serra (Fornos de Algodres é uma das regiões demarcadas para a sua produção) e colocando no altar o leite creme, torna-se difícil resistir ao pecado da gula.

Mas é o cabrito o rei de todas as festas, como atestam as ementas locais. Ainda assim, Paulo Menano, homem político, dono do jornal Notícias de Fornos de Algodres e proprietário da Quinta das Courelas, lamenta não conseguir atingir os píncaros da perfeição. “Nunca consegui temperar da mesma maneira e com a mesma qualidade do que a minha mãe.” Fica-se sempre com esta engasgada. À mesa, no entanto, o barro da travessa fica rapidamente à vista e os suspiros cantam feitos sinfonia. E é mesmo assim que deve ser, porque “carvão que vai a Melo não volta a Folgosinho”, lembra o gerente, para dizer que não se volta atrás.

Não há vinha-d’alhos para este cabrito. “Idealmente, ele deve ser temperado a seco, de um dia para o outro”, expõe Menano. Mas o resto fica em sigilo, não vá o diabo tecê-las. Um dos segredos sabemo-lo nós: é a matéria-prima. É também este que vai para a cabeça da lista de João Agostinho, proprietário do restaurante Os Unidos, quando quer explicar por que razão este arroz de feijão malandro vai sempre mais do que uma vez ao prato. “Demolhamos, todos os dias, uma grande quantidade do nosso feijão, usamos as couves e as batatas de cá. E há tantas qualidades de batatas, deliciosas”, relata com apetite.

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Foi o tal arroz malandro uma das últimas etapas gastronómicas da Fugas por terras de Algodres, mas o dia encheu-se de produtos premiados como os enchidos (da farinheira à alheira urtigueira) do Fumeiro d’Amaral (no Mercado Municipal da vila) ou os pecados da Queijaria Artesanal do Ilídio. “A gente fabrica o queijinho há 20 e tal anos; foi o meu marido que aprendeu a fazer em casa dos meus sogros”, conta dona Glória, esposa de Ilídio, com a filha ao lado. 99% desta casa é queijo de ovelhas que pastam nas imediações. “Se formos comprar leite fora não é bem a mesma coisa”, explica Ilídio, garantindo que o queijo não é coisa que faça mal à memória.

França e Estados Unidos são os maiores consumidores externos da queijaria e, para quem até 2001 produzia “no andar de baixo lá de casa”, a média de 300 mil quilogramas por ano (que atinge o pico das encomendas no Inverno) já implica muita logística. Mas uma das vantagens de comprar aqui – para lá da frescura do produto – é o preço. O queijo amanteigado está à venda em algumas grandes superfícies, mas acima de 20 euros. Na fonte – em Juncais, Fornos de Algodres – o preço é de 12,50 euros. 2017 foi, no entanto, “o ano mais severo da história”, nota o proprietário, referindo-se à seca que esvaziou a região da Guarda de pastos. “Se nos próximos anos isto continua assim, mais de 50% das explorações fecham.” 

A Fugas viajou a convite do Solar dos Cáceres