A fábula de Etosha

Uma lição de "respeito" no interior norte da Namíbia.

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O Inverno ou a estação seca estava a chegar ao fim. A evaporada savana apresentava-se desidratada, sendo a falta de água uma realidade. Não chovia há muitos meses. Pouca vegetação e muito amarelada, esbranquiçada, desmaiada. Clima semidesértico. O rio mais próximo, o Cunene, encontrava-se bastante mais a norte, na fronteira com o sul de Angola. O outro rio, o Orange, localizava-se na outra ponta do país, na fronteira sul, junto à África do Sul. No essencial, a Namíbia só tinha dois rios, um na fronteira norte e outro na fronteira sul. Cerca de 80% desta enorme nação é constituída por desertos, incluindo toda a costa, desde o Sul de Angola ao Norte da África do Sul. A Namíbia é independente desde 1990. Antiga colónia alemã, apresenta muitas influências quer da África do Sul quer da antiga potência colonizadora.

O calor imperava, apesar de estarmos em plena estação fria. Paradoxo. Daí a poucos meses, a situação inverter-se-ia, com a chegada do Verão e da estação das chuvas. Juntamente com o aumento das temperaturas vinham as chuvas tropicais. Os pequenos lagos de lama dura e ressequida e os pobres leitos dos rios completamente secos iriam, durante um curto período de tempo, recuperar a humidade e o estado líquido que teria efeitos milagrosos na fauna e na flora desta região situada no interior norte da Namíbia.

Em Agosto, os animais concentram-se nos reduzidos e pequenos lagos existentes. A água comanda a vida. É espantosa a diversidade de animais que sobrevivem neste clima quase desértico, perfeitamente adaptados ao ambiente que os rodeia, fruto de uma evolução milenar. Zebras, gazelas, gnus, órix, kudus, aves, antílopes, todos à volta do apertado lago. Uns bebem água, outros esperam por um lugar vago, sem atropelos. Parece existir uma hierarquia e um respeito mútuos. Outros ainda usufruem das delícias do local, mais fresco e agradável. Cada um aguarda a sua vez. Todos enquadrados no meio de uma imensa e árida planície.

De súbito, todos levantam a cabeça, em silêncio, ficam imóveis, como se tivessem detectado algo que os inquietasse. Parecem escutar as novidades que o fraco vento aproxima. Ficam estáticos e silenciosos, muitas dezenas de animais, talvez centenas. Audição e olfacto em alerta máximo. Silêncio e imobilismo. Uma calma de morte.

Minutos depois, lentamente, começam a afastar-se do lago. Todos. Grandes e pequenos, em grupos ou isoladamente. Calma e ordeiramente. Afastam-se algumas centenas de metros. O lago fica vazio, deserto, enquanto todos os animais, sem excepção, permanecem a uma distância considerável, em pé, quietos, silenciosos, numa calma aparente, num cenário difícil de entender para um europeu quase ignorante das realidades africanas.

O tempo passa e nada acontece. Apenas o apetecível lago, deserto. Num círculo concêntrico, afastados e imóveis, expostos ao quente sol africano, permanecem centenas de animais.

De súbito, ao longe, muito longe, um animal caminha, pausadamente, em direcção ao lago. Não se vislumbra quem será o ilustre visitante, pois está demasiado distante. Algum tempo depois, senta-se e observa o ambiente, analisando o território, perscrutando a sua fauna. Cinco, dez minutos depois, levanta-se e continua a caminhar, imponente, em direcção ao lago deserto. Cada passada é elucidativa da sua presença, do seu poder, da sua personalidade, confiança e segurança. Os seus músculos atemorizam e dominam a paisagem. Com elegância, caminha lentamente impondo um respeito que alastra por toda planície. Chega ao lago, dá uma volta pela margem, analisa cuidadosamente tudo o que a rodeia. A leoa parece não querer correr qualquer risco. Finalmente, começa a beber água, sequiosa.

Demora o tempo que lhe apetece. Por vezes, levanta a cabeça e olha em todas as direcções. Quando termina, sobe a um pequeno rochedo e deita-se, olhando para o lago, usufruindo do local e da paisagem mais fresca. Toda a água lhe pertence. As centenas de animais, de pé, imóveis, em silêncio absoluto, a algumas centenas de metros, nada dizem, mas percebe-se que concordam com a imponência e a elegância da solitária leoa.

Quinze minutos mais tarde, a leoa levanta-se e, lentamente, afasta-se do mesmo modo que se aproximou, com dignidade, pelo mesmo caminho, na mesma direcção. Quando desaparece no horizonte namibiano os outros animais começam a regressar ao seu lago, cuidadosamente e olhando sempre em seu redor, ocupando todos os lugares disponíveis para continuarem a saciar a sua sede. A sensação geral parecia ser de alívio. A manhã até tinha corrido bem. Pelo menos era a mensagem que nos transmitia o silêncio sepulcral desta imensa planície, na zona de Etosha.

Será difícil encontrar melhor forma de explicar a alguém o significado da palavra “respeito”. Nem no dicionário mais conceituado…

Pedro Mota Curto