Santarém baixou o pano a actriz nua a dizer palavrões

Vereadora da Cultura defende uma programação menos "alternativa" para o Teatro Sá da Bandeira, depois de ter recebido queixas de munícipes indignados com a cena de uma actriz nua a dizer asneiras num espectáculo dirigido pelo ex-director.

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Activo Tóxico - Artistas Associados

O que era dada como uma intenção da câmara de Santarém, em Novembro, acabou mesmo por se confirmar: Pedro Barreiro já não é o director artístico e programador do Teatro Sá da Bandeira. A autarquia, responsável por aquele equipamento cultural, acabou por não lhe renovar a avença que tinha desde Janeiro de 2015 e que terminou no final de Novembro. Embrulhada nesta decisão está uma actriz nua a dizer palavrões.

Se, na altura, Pedro Barreiro apontava como razão para o afastamento as críticas que tinha tecido à gestão do autarca em plena campanha eleitoral das autárquicas, a vereadora da Cultura pôs agora de parte essa ideia ao considerar que a programação do teatro era demasiado “alternativa” e que, por isso, não agradava aos munícipes. Entre os desagrados que lhe foram reportados está uma cena de um espectáculo onde uma actriz apareceu nua e a dizer palavrões, que se estreou já depois de ter terminado o contrato de Pedro Barreiro. 

Quando o caso veio a público, no início do mês de Novembro, o director admitia ter sabido da intenção da autarquia em afastá-lo do teatro pela comunicação social, depois de o presidente da câmara ter dado conta da intenção de não lhe renovar a avença (recibos verdes), em declarações ao jornal O Mirante. Ricardo Gonçalves admitia a necessidade de “dar um novo rumo ao Teatro Sá da Bandeira”. 

Só que, nessa mesma ocasião, o autarca social-democrata referiu estar desagradado com as críticas que Pedro Barreiro tinha feito na sua página de Facebook e lamentou que este não lhe tivesse pedido desculpas.

Durante o período de campanha eleitoral, o actor e encenador, que é filho de Rui Barreiro, cabeça de lista do PS derrotado à câmara de Santarém (que já foi autarca daquele município e secretário de Estado das Florestas no último Governo de José Sócrates), criticou duramente a gestão de Ricardo Gonçalves e as suas políticas que considerou serem de "empobrecimento, desprezo e abandono". Por isso, rapidamente Pedro Barreiro considerou estar perante um caso de “delito de opinião”. 

Quando o PÚBLICO noticiou o assunto, o município apenas referiu que a renovação da avença ficaria "dependente da estratégia cultural do novo executivo municipal”. Que acabou mesmo por não renovar o contrato que tinha com o programador. 

Na segunda-feira, em reunião do executivo, o vereador socialista João Catela colocou o assunto novamente em cima da mesa ao pedir explicações sobre a saída do director do teatro. Na resposta, Ricardo Gonçalves salientou não se ter tratado de uma demissão, mas simplesmente da não renovação de uma avença e reiterou que a decisão se prendeu com a intenção de mudar o rumo da política cultural do espaço que, segundo disse, não estava a resultar.

Uma ideia que foi partilhada pela responsável pela pasta da Cultura, Inês Barroso, que já a tutelava no anterior mandato, referindo-se concretamente a um espectáculo criticado pela população. Trata-se da adaptação e encenação do romance O Mandarim, de Eça de Queiroz, por Pedro Barreiro, com a autarca a admitir ter sido “bombardeada” a 2 de Dezembro com chamadas de “pessoas indignadas" porque havia "uma actriz nua em palco a dizer asneiras, um comportamento não digno para o teatro municipal”. O PÚBLICO tentou contactar a autarca, tendo a câmara de Santarém referido que não se pronunciará mais sobre o assunto, até ter “dados reais” relativos à actividade do teatro. 

A actriz em causa, Sandra Oliveira, não tardou a reagir, considerando que “resumir esta peça a uma 'gaja nua a dizer asneiras' é de um desrespeito enorme pelo trabalho de todos os envolvidos”. Numa publicação na sua página de Facebook, a actriz acusa a autarca de não ter revelado “qualquer interesse em vê-lo ou analisá-lo. Uns telefonemas com queixas são o suficiente para a vereadora fazer uma avaliação sobre o que foi esta peça”, rematou. 

Condições "muito precárias"

Pedro Barreiro, que é licenciado em teatro pela Escola de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa e mestre em Artes Cénicas pela Universidade de São Paulo, no Brasil, estava à frente da programação do teatro desde Janeiro de 2015. Ao PÚBLICO, o actor e encenador lamentou que esta história tenha assumido “um carácter um bocado circense” e que estas declarações da vereadora demonstram “uma ignorância e uma profunda falta de conhecimento”. 

“[O trabalho de três anos] não deve resumir-se a um espectáculo nem a uma actriz nua a dizer palavrões”, considerou, criticando a postura dos autarcas que acusa de não terem acompanhado a programação do teatro nem assistido a qualquer espectáculo.

Além disso, acrescentou o encenador, tratando-se este de um equipamento municipal, os apoios “eram mais do que insuficientes” e as condições “muito precárias”, não tendo, por exemplo, nenhuma pessoa responsável por fazer “uma comunicação eficaz” e que chegasse a todo o concelho. 

Segundo as contas da vereadora, o espectáculo O Mandarim - Apóstrofe e Paciência terá tido apenas 47 pessoas a assistir à estreia e dado 70 euros de receita. “Obviamente que se os munícipes fazem reportes de desagrado temos de reapreciar tudo o que foi feito no Teatro Sá da Bandeira”, considerou. À Lusa, Inês Barroso referiu que, além dos números, com uma afluência e uma receita aquém do que considera desejável, também a orientação seguida por Pedro Barreiro não cumpre duas premissas que entende como essenciais para aquele espaço: servir a população escolar e ter uma programação que sirva vários públicos. "Também é importante ter espectáculos contemporâneos, mas não podemos ter tudo do mesmo, sobretudo quando ainda não existe maturidade do público", notou.

Segundo dados facultados pela vereadora à Lusa, ao longo do ano passado realizaram-se 30 espectáculos no teatro, com um custo total de 34.565 euros. Dando como exemplo os meses de Janeiro e de Dezembro, a autarca referiu que, no primeiro caso, 172 pessoas assistiram a cinco espectáculos e no segundo 197 assistiram a quatro espectáculos, sendo que 127 lugares corresponderam a convites. Mas sublinhou que o município está ainda a confirmar "todos os dados" relativos à actividade do teatro durante o ano de 2017, apontando, para já, para uma afluência média de público da ordem dos 30%, faltando apurar quantos bilhetes foram pagos e quantos foram convites.

No entanto, Pedro Barreiro defendeu que “a afluência de público foi aumentando nos últimos três anos” e admitiu ter havido uma “renovação” do público presente nas actuações. E lamentou que se estejam a “reduzir as actividades artísticas a um retorno financeiro directo”. 

Para já, o teatro está sem programador. Inês Barroso disse estar a avaliar se o concurso para director do teatro, aberto no final do anterior mandato, e ao qual terão concorrido perto de cem candidatos, entre os quais Pedro Barreiro, se mantém ou não, dado que a lei que permite a integração de precários pode resolver a situação das pessoas que estavam a recibo verde. Além disso, o município tem em cima da mesa a possibilidade de passar a fazer a gestão conjunta dos espaços culturais da cidade.