Crítica

A paisagem é culpada

O primeiro romance da argentina Samanta Schweblin prolonga a singular habilidade narrativa já conhecida nas suas histórias curtas.

Uma das vozes mais originais  da moderna literatura em língua espanhola
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Uma das vozes mais originais da moderna literatura em língua espanhola ALEJANDRA LOPEZ

A escritora argentina Samanta Schweblin (n. 1978) — que se afirmou como exímia autora de contos — é tida como uma das vozes mais originais e “prometedoras” (usando a expressão de Vargas Llosa) da moderna literatura em língua espanhola. Pássaros na Boca (Cavalo de Ferro, 2011) era até agora o único livro da autora traduzido em português — uma colectânea de dúzia e meia de contos que mexe e remexe na vida afectiva familiar (sobretudo nas relações entre cônjugues, e nas destes com os filhos), que leva o leitor a seguir um fio que, de maneira subtil, o leva por vezes ao insólito e ao inquietante, com súbitos irrompimentos de variadas formas de violência na normalidade quotidiana; a sua forma de expor as relações humanas é crua, não raramente satírica, e de onde o grotesco não está ausente.

Distância de Segurança é o seu primeiro romance (novela?), e as características e recursos de Samanta Schweblin usados nas suas narrativas curtas mantêm-se mesmo quando a história se estende, como no livro agora traduzido. Para além disso, a habilidade narrativa da escritora argentina alarga-se neste romance, impondo-se no à-vontade com que maneja as complexas (com mudanças constantes de voz) e sempre diferentes perspectivas de contar — mesmo que, por vezes, torne a narrativa mais ‘confusa’ ou a exigir uma leitura mais atenta.

Logo a partir da conversa com que o livro abre — entre Amanda (uma mulher que está a morrer) e um miúdo, David, filho da amiga, Carla — o leitor percebe de imediato que entrou num território de alucinação, num espaço propositadamente vulnerável e lodoso onde se moverá a custo, e que terá de o fazer com cuidados para não se perder na leitura. A narrativa progride com recurso a uma espécie de ‘falsas’ analepses, em que o passado emerge misturado com o presente.

Em Distância de Segurança Amanda e a filha pequena, Nina, passam uns dias no campo. Perto vive Carla, uma mulher cujo filho, David, se intoxicou por ter bebido água: “O David estava agachado no riacho, tinha os ténis encharcados, mergulhara as mãos na água e estava a chupar os dedos. Então vi o pássaro morto.” Dada a distância ao hospital ou a um médico, a mãe recorre à “mulher da casa verde”, que “não é uma bruxa”, mas que “consegue ver a energia das pessoas, consegue lê-la”; e esta mulher percebe que a criança, David, vai morrer em muito pouco tempo e sugere à mãe que se faça uma “transmigração do espírito”: levar o espírito de David “para um corpo saudável” e trazer um espírito desconhecido para o corpo de doente de David, evitando assim a morte deste. O processo de “transmigração” acontece e David passa a ser outro. Carla olha para o filho de maneira estranha: “Era meu. Agora já não.” A história vai-se tornando recorrente, Carla conta tudo outra vez numa aparente esperança de que esse contar lhe devolva, mesmo que momentaneamente, esse “outro filho” de quem diz sentir falta. A par dessa história, mas ligada a essa, há a da outra mulher e da filha, a da tentativa de a proteger, que começa a ter traços de obsessão. Aliás, o título do romance vem de uma expressão usada por Amanda quando se refere ao tempo que demoraria para sair a correr do carro e chegar até junto da filha antes que alguma coisa lhe acontecesse: “Chamo-lhe ‘distância de segurança’, é assim que chamo a essa distância variável que me separa da minha filha, e passo metade do dia a calculá-la, embora arrisque sempre mais do que devia.”

O livro de Samanta Schweblin abre-se a várias leituras, e talvez a mais óbvia (para além das preocupações ecológicas) seja a de um discurso contra a “inocência da paisagem”, a natureza como fonte do mal, o mal dentro de nós (tema tão bem tratado por Joseph Conrad em O Coração das Trevas, ou por Werner Herzog em A Conquista do Inútil). Mas ao mesmo tempo não foge a questões incómodas e atira com elas aos olhos do leitor: Quando é que por um passo em falso nos condenamos? Os apocalipses não serão apenas pessoais? O que é que na verdade conseguimos controlar nas nossas vidas?

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