Acessibilidade

Os caminhos para as grandes cidades são desequilibrados no mundo (e em Portugal)

O tempo de viagem até aos centros urbanos pode indicar uma disparidade no acesso às infra-estruturas das cidades e contribui para um menor desenvolvimento socioeconómico, diz um novo estudo.

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Quanto tempo demora de sua casa até à cidade mais próxima? A pergunta pode parecer inusitada, mas a resposta pode dizer muito sobre si, e até adivinhar onde vive e o seu estatuto socioeconómico. Se viver na Europa ou na América do Norte, é quase certo que está a menos de uma hora, por via terrestre, de um centro urbano. Mas em países com menor rendimento económico, em particular na África subsariana, é provável que a viagem demore bem mais. As conclusões são passadas a limpo num mapa global que pinta o grau de acesso às grandes cidades em 2015, mostrando uma distribuição assimétrica dos espaços urbanos e, consequentemente, das infra-estruturas lá instaladas. Uma conclusão reiterada no mapa português, onde o interior do país se encontra “mais afastado” de grandes pólos urbanos.

O artigo científico, assinado por um grupo de 22 investigadores, liderados por Daniel J. Weiss, do Instituto para Big Data na Universidade de Oxford (Reino Unido), publicado na edição desta semana da revista Nature, traça um retrato desequilibrado dos acessos a serviços e bens essenciais entre as várias regiões do planeta. A partir da relação entre indicadores socioeconómicos e o tempo de deslocação por meio terrestre até um centro urbano – aqui definido como uma área urbana com mais de 50.000 habitantes ou com pelo menos 1500 habitantes por quilómetro quadrado –, os investigadores apontam os países de baixo e médio rendimento económico (de acordo com a escala do Banco Mundial) como mais susceptíveis de serem alvo desta desigualdade no acesso, como se pode comprovar a partir do mapa-múndi disponibilizado pela equipa de cientistas.

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As cidades agregam todos os serviços essenciais ao desenvolvimento humano – e à eliminação das disparidades dentro dos países e entre países –, pelo que o acesso aos centros urbanos deve ser facilitado, de acordo com os autores deste artigo científico. No seu estudo, escrevem mesmo que o mapa desenhado demonstra como “o acesso aos centros urbanos estratifica o estatuto económico, educacional e de saúde”.

Os dados deste mapa mostram que 80,7% da população mundial vive a menos de uma hora de centros urbanos, no entanto, o problema reside na distribuição. Por exemplo, na África subsariana quase metade da população vive a mais de uma hora de uma área urbana, o que pode dificultar o acesso a melhores condições económicas, educacionais ou mesmo nas oportunidades oferecidas. O mapa permite perceber, por exemplo, que na maioria dos continentes as zonas litorais concentram os grandes centros urbanos. Os países da região subsariana enfrentam as maiores desigualdades, com tempos de viagem que podem chegar a ser dias.

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As regiões a púrpura e as mais escuras são as que necessitam de maior tempo de viagem até um centro urbano, estando as mais claras (e com um tempo de viagem inferior) desigualmente distribuídas pelo mapa Daniel Weiss e Jennifer Rozier/Projecto Atlas da Malária/Universidade de Oxford

E Portugal?

Consultando um mapa interactivo deste trabalho, pode ver-se que a povoação Fachi, no Níger, é um dos casos em que a distância a um centro urbano ultrapassa os três dias de viagem, pelo facto de a sua população viver num oásis, rodeados por deserto e dunas, e sem infra-estruturas ou vias que os sirvam. Ou que, na América Latina, o Peru tem locais junto da Amazónia peruana que demoram mais de um dia a chegar ao centro urbano mais próximo: à cidade de Iquitos, com quase meio milhão de habitantes, e poucas vias terrestres transitáveis.

“Como a maioria dos países europeus, Portugal tem boas acessibilidades. Por outras palavras, as pessoas que vivem em áreas rurais em Portugal conseguem chegar a uma cidade muito mais rapidamente do que pessoas de áreas rurais em muitas partes do mundo”, explica ao PÚBLICO Daniel Weiss.

Contudo, o mapa de Portugal, que Weiss extraiu dos seus dados para o PÚBLICO, revela preocupações a nível interno. O interior Norte e centro do país, bem como o Alentejo (à excepção da zona de Elvas) e o Algarve surgem como regiões onde a discrepância é notória. Olhando outra vez para o mapa interactivo das acessibilidades no mundo, uma cidade como Faro encontra-se a cerca de três horas de um centro urbano; Penamacor, no interior albicastrense, demora ainda mais a chegar a uma grande cidade. As auto-estradas no interior Norte do país diminuem a distância até ao Porto, mas os tempos de deslocação não variam das restantes zonas afastadas dos centros urbanos, com Mogadouro a precisar de mais de três horas para chegar a uma grande cidade, tal acontece com Vila Nova de Foz Côa.

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A centralização em dois pólos – Porto e Lisboa – explica, em parte, a maior dificuldade no acesso a centros urbanos, com um aumento do tempo de viagem no interior do país, um dado que contribui para o longo debate em torno da descentralização.

Notando-se uma disparidade tão elevada entre regiões do mundo, qual a solução? Daniel Weiss aponta dois caminhos: “Construir novas infra-estruturas ou melhorar as existentes, ou encorajar o desenvolvimento de novos centros urbanos em áreas onde eles não existem.”

A proximidade às cidades sai reforçada neste artigo científico, com o acesso a estes pólos a estar associado a maior riqueza familiar, melhor educação e melhor tratamento da febre em crianças com menos de cinco anos, por exemplo. Daniel Weiss, em resposta por e-mail, também avisa a classe política, referindo a necessidade de “inventariar as infra-estruturas que facilitam o acesso às áreas urbanas”.

Para colectar todos estes dados, o grupo de investigadores (que junta várias universidades, o Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia e empresas como a Google) usaram fontes como o mapa de estradas de acesso livre OMS (um agregador colaborativo das vias terrestres existentes no mundo) ou a base de dados da Google, por forma a cruzar informação e garantir a sua fiabilidade na existência dos percursos terrestres, nas condições das vias terrestres ou no próprio tempo de deslocação necessário.

A eliminação de disparidades no acesso às cidades é um dos temas-chave nos 17 Objectivos para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (a agenda de metas a atingir até 2030), que tem um ponto dedicado à redução de desigualdades e outro às cidades e comunidades sustentáveis. Este retrato vem também actualizar o mapa de acessibilidades de 2000, publicado em 2008. Daniel Weiss, autor principal do novo mapa, defende que “os dois mapas não podem ser usados para mostrar mudanças ao longo do tempo”, por existir uma grande diferença na informação disponível hoje e há dez anos.

A possibilidade de transformar este mapa de acessibilidades num barómetro anual está em cima da mesa, para o investigador britânico. No entanto, até lá, Daniel Weiss aponta baterias para a criação de um mapa do mundo com as instalações de cuidados de saúde.

Texto editado por Teresa Firmino