Entrevista

“Vamos ter um líder para dois anos. Se não ganhar será posto em causa”

O próximo líder terá que ganhar as legislativas, diz Miguel Relvas, que aponta Marques Mendes e Montenegro para o futuro. Rui Rio, diz, cometeu dois erros na campanha. Quanto ao PS, o provável é vir a governar com o Bloco.

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daniel rocha

Rui Rio “está a passar um cheque em branco” a António Costa, trocando a “geringonça” por uma “engenhoca” - que é o Bloco Central. Relvas apoia Santana, mas anota que devia ter travado a entrada da Santa Casa no Montepio. E avisa: o próximo líder terá missão difícil.

Aqui há uns meses disse que pagava para ver Rui Rio candidato. Queria perguntar-lhe se já pagou e quanto.
Eu pago sempre as minhas apostas. O que eu disse era Rui Rio contra Passos Coelho. O contexto tem que ser visto. Eu sempre entendi que Passos Coelho, se não fosse o desastre... um desastre mais comunicacional do que real. O PSD abordou muito mal a noite das eleições. Perdeu na noite e não perdeu nas urnas com a dimensão...

Passos devia ter esperado para pensar melhor?
O PSD assume a derrota quando ainda não havia resultados em Almada - e numa série de pontos do país onde depois de verificou uma grande derrota do PCP. E o PSD, com a avaliação que fez, anulou a derrota do PCP. O PSD precipitou-se na noite, foi muito amadora a forma como o PSD abordou a noite das eleições. Passos Coelho deveria ser candidato nas próximas legislativas. Porque vivemos uma singularidade, não só de um PM que governa sem ter ganho as eleições, como a de um líder do partido que ganhou as eleições e não concorre às eleições seguintes. 

O líder que for eleito será líder de transição?
Vai depender muito a forma como for abordada a estratégia e a afirmação desse mesmo líder.

Mas há esse risco?
Esse risco existe sempre. Os líderes políticos afirmam-se no desempenho da função, não na sua candidatura. O PSD já teve líderes que surpreenderam positivamente e outros, sobre os quais existia uma grande expectativa, que não foram capazes de vir a concretizar.

O futuro do novo líder será determinado pelas legislativas?
Vamos ter um líder para dois anos, se ganhar as eleições continua, se não ganhar será posto em causa. 

Rui Rio, na entrevista que nos deu recentemente, disse que se o PS vencesse as eleições em 2019, mas com um Governo minoritário, estaria disponível para dar algum apoio parlamentar. O que dá a entender que não vê necessidade de se demitir em caso de derrota. O Miguel Relvas acha, portanto, que o futuro do líder dependerá do resultado?
Dependerá das eleições e não das consequências. O que Rui Rio disse é um erro político inaceitável. Em primeiro lugar, o líder do PSD é obrigado a candidatar-se para ganhar eleições. Era o mesmo que o Sporting ou o Porto dizerem "vamos para o segundo lugar, não para sermos campeões, não há essa expectativa". O líder do PSD é obrigatoriamente candidato a PM, não candidato a viabilizar um Governo do PS. E esse é o seu maior erro nesta campanha eleitoral. Porque não é aceitável que o PSD ainda antes das eleições venha dizer que viabiliza um Governo do PS, sem que, aliás, o PS diga se viabiliza um Governo minoritário do PSD...

O que não fez em 2015.
Como já não fez no passado. E o que Rui Rio está a dizer é. eu quero substituir a geringonça actual pela minha "engenhoca". Isto é a engenhoca do Bloco Central - que não vai existir. Até porque o PS escolheu um caminho. O que Rui Rio fez, estrategicamente, foi criar condições para que António Costa possa lutar pela maioria absoluta com mais facilidade. Porque António Costa sabe que pode optar: por uma coligação à esquerda, ou já sabe que o PSD lhe viabiliza um Governo minoritário. Mais: é de uma gravidade ainda mais extrema, porque permite ao CDS ser o líder da oposição. O CDS ficou satisfeito, ficou-se a rir, e viu mais um bónus - depois do que teve na Câmara de Lisboa. O aliado preferencial é do PSD é o CDS - e se isto não ficar claro, significa que podemos estar a passar um cheque em branco. Eu sei que os militantes do PSD não passam cheques em branco.
Acho que Rui Rio cometeu dois erros nesta campanha. O outro foi o ataque à PGR. Como já se viu, facilitou e estimulou a posição que o Governo já veio assumir, de substituição de uma figura institucional portuguesa, com muito peso como é a PGR, a nove meses de cessar o mandato. É uma discussão que se abriu cedo demais, que foi estimulada pela posição e pelos ataques feitos por um dos candidatos do PSD à liderança.

Se o PSD não viabilizar um governo minoritário do PS, não vai estar a entregar o país à geringonça? À esquerda?
Enquanto António Costa for líder do PS... já só é possível haver entendimentos sobre essa matéria, sobre matéria de quadro partidário, quando o PS mudar de líder. António Costa é que, não ganhando as eleições, escolheu um caminho, fez uma aposta, por sua iniciativa. É bom lembrar que Passos Coelho e Paulo Portas ainda tentaram um entendimento com o PS logo a seguir às eleições.
Não compete a nenhum dos candidatos estar a colocar essa questão. Eles têm que dizer ao que vão, quais são as suas propostas. E estas eleições não estão ganhas para o PS. Desengane-se o PS e António Costa se pensa que são favas contadas. Há dois anos a discussão era que este Governo e o PS são muito bons na questão política e são muito maus na questão económica. Veio-se a verificar que a questão económica e financeira estabilizou. E onde é que estão as debilidades do Governo? Na abordagem política. Desde os incêndios, esta questão sobre a renovação do mandato da PGR, a nove meses do fim do mandato, quando estão vários processos em cima da mesa que têm uma grande importância. Demonstra uma grande inabilidade política. 

Voltando à corrida ao PSD. Primeiro falou-se em Luís Montenegro, que Miguel Relvas apoiaria - mas Montenegro não quis. Depois assumiu que apoiaria Paulo Rangel, mas ele não avançou. Santana é o mal menor contra Rio?
São os candidatos que temos. Na vida política, como na nossa vida, temos que optar perante as circunstâncias que nos são colocadas. Santana Lopes tem que ser avaliado pelo Santana de hoje e não pelo de 2004 - como muitos querem avaliar.

Ele mudou?
A questão não é mudar. Ficou bem vincado ao longo dos últimos anos, com o trabalho na Misericórdia, que muito do que se passou em 2004... eu era secretário-geral e muitos daqueles episódios foram episódios marcadamente fora da vida política. A primeira abordagem sobre a questão das PPP foi com António Mexia, no Governo de Santana Lopes. Esse Governo teve as suas virtualidades no plano da gestão - e que no plano da comunicação deixou-se ir atrás e arrastado por situações...

E sem a legitimidade do voto. 
À época, o grande erro de Santana Lopes foi não ter convocado eleições. Ele ponderou. Mas não se seguiu esse caminho. 

Apoia Santana, mas não tem aparecido ao lado dele na campanha...
Estou fora da vida política. Estou há muitos anos fora, estou a reconstruir a minha vida profissional e pessoal, porque a vida política é muito absorvente. Eu tenho até, hoje, limitações da vida profissional que não me permitem estar na vida política - há uma separação que considero essencial entre o mundo dos negócios e a vida política. 

A política não o ajudou?
Apresentou-me pessoas, conheci pessoas. Mas, repare, pela vida política passam muitos. Depois, sucesso na vida profissional têm poucos. Todos nós somos resultado das nossas circunstâncias... 

Como é que apoiou Santana Lopes? Mobilizou aparelho? Apoiou-o financeiramente?
Dei-lhe a minha opinião muitas vezes. Falei com Santana Lopes, com muitas pessoas. 

Já agora, o que é que pensa do negócio do Montepio? 
É inaceitável, não tem lógica nenhuma. 

Não poria o dinheiro da Santa Casa no Montepio?
Nunca, jamais. Se fosse um bom negócio, certamente o mundo financeiro, outras entidades financeiras, outras entidades bancárias, fundos estariam a olhar para o Montepio, para além da base genética, tradicional. A Santa Casa tem um caminho, tem uma história e cultura; a Associação Mutualista tem outra. A última coisa que esperava ver na vida era a Santa Casa a dar a mão ao Montepio.

Santana Lopes devia ter travado isso?
Esta questão devia ter sido travada de início. Nem o Governo a devia ter colocado. A Santa Casa disse "vamos estudar". É uma atitude aceitável. Não foi dado tempo a Santana Lopes para que pudesse ter a sua opinião. Do que conheço de Santana Lopes, daquilo que sei, sei que na hora decisiva não avançaria com este negócio. 

Até que ponto no PSD não se começa a preparar o pós-2019? Montenegro e Rangel, que não avançaram agora, não estão já a preparar...
Calculismos existem sempre na vida política. Existiram, existem, vão continuar a existir. 

Não se perdeu a oportunidade de uma geração? O PSD parece voltar atrás.
Sempre vi na vida política que não são os políticos que escolhem as circunstâncias, são elas que escolhem os políticos. Marcelo Rebelo de Sousa foi líder do PSD, não saiu de forma fácil e hoje é o líder político do país. No futuro, se quem ganhar as directas ganhar as legislativas, todos os cálculos que foram feitos terão que ser adiados. Não há candidatos de uma geração, mais jovens ou menos. O que há é um líder que se afirma. E os líderes afirmam-se com as vitórias. 

Não há exemplo de um líder do PSD que, num ciclo económico positivo, tenha ganho eleições a seguir, partindo da oposição. 
Se o PSD seguir uma estratégia de afirmação, com ideias novas, protagonistas novos, se no discurso económico não tiver este discurso que foi fatal nos últimos dois anos (demasiado financeiro, muito marcado pelo passado). Se formos capazes de olhar para o futuro com ousadia, o novo mundo digital, o papel da inovação, ser capaz de atrair capital...

E unir o partido, consegue? Depois desta campanha? 
Passos Coelho ganhou as eleições em 2010 e a primeira iniciativa...

Não foi uma campanha tão dura como esta.
Foi uma campanha dura. É preciso não esquecer que os apoiantes de Paulo Rangel tinham apoiado Ferreira Leite, Passos Coelho tinha sido afastado - como eu - da lista de deputados, sem uma explicação aceitável. E Passos Coelho o primeiro sinal qual foi? Ir buscar Rangel para o Conselho Nacional. Quem tem que saber gerar a unidade é quem ganha. Se Rui Rio ganhasse e seguisse o exemplo de Ferreira Leite estaria naturalmente a criar condições para ter o partido dividido. Santana Lopes é um líder que inclui.

Já disse que Marcelo é o grande líder político do momento. Acha que ele prefere Rio ou Santana?
Acho que não tem que preferir. Terá a sua opção, conhece os dois. Teve momentos de proximidade com os dois, momentos de distância. Mas não é ele que tem que escolher.

Mas parece bastante apostado em promover o comissário Carlos Moedas, que pode ser um trunfo para o futuro. 
Carlos Moedas será sempre um bom número dois, do perfil que conheço dele. Acho que o futuro do PSD, nas gerações mais jovens, passa por um Luís Montenegro, por um Miguel Pinto Luz, que têm combate político, que têm afirmação. Mais: há também uma figura no PSD que tem um papel decisivo no futuro - e que vamos saber o que é que ele quer no futuro fazer -, que é Marques Mendes. Marques Mendes foi líder do PSD, tem uma grande proximidade...

Acha que ele pode voltar a concorrer à liderança? 
Acho que num momento mais difícil, nenhum militante do PSD deve dizer que não a poder ajudar o seu partido. Marques Mendes é inquestionavelmente hoje um dos grandes  activos políticos que o PSD tem, como Montenegro, como Pinto Luz. Carlos Moedas será sempre uma pessoa central, não tem uma tradição política - fui eu que fiz aliás a sua aproximação, apoiei muito a sua entrada.

Voltando a 2019: quanto tempo acha que Marcelo aguentará um governo minoritário de António Costa?
Vai depender muito das circunstâncias das próximas eleições. Acho que não vai haver um Governo minoritário. A meu ver, o cenário político que vamos ter.... vamos ter um governo do PS com o BE. O PS, se ganhar as eleições - e só vai ganhá-las com facilidade se o PSD lhe facilitar a vida - tem o BE para fazer o seu entendimento. E o PSD tem que ser claro: nas próximas eleições o líder tem que assumir que vamos lutar para ganhar as eleições e que o único partido com quem faremos alianças é o CDS. O Bloco Central foi um momento muito especial na vida do país, com a intervenção do FMI.