Uma árvore entre o bem e o mal

Retomando o fetiche do travestimento como metáfora existencial, Jonathan Capdevielle, camaleónico artista francês, está de regresso à Culturgest com um espectáculo em que quis reconstituir o país mal-amado onde cresceu e que Georges Bernanos descreveu antes dele. Acabou, como sempre, a reconstituir-se a si próprio.

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À Nous Deux Maintenant: imersão nas trevas (apesar da festa, rija, como diriam os antigos), na brutalidade sempre desumana da natureza, e na potência do combate, inesgotável, entre o bem e o mal Pierre GROSBOIS

Do vento glacial que trespassa os ossos, da chuva que todos os Invernos faz apodrecer os caminhos, dos interiores tóxicos, sempre aquecidos, sempre enegrecidos, a lenha e a fumo, do pequeno contrabando a coberto das montanhas, da sensação terminal de que ficar ali é o mesmo que ir morrer longe, só que em vida, de todo esse mal-amado fim do mundo da França profunda e periférica que Jonathan Capdevielle (Tarbes, 1976) deixou para trás quando se inscreveu na École Nationale Supérieure des Arts de la Marionnette, em suma, só ficou uma árvore cortada rente ao chão, quase pela raiz, como se dever cortar o mal – e mesmo essa, adverte (acreditamos nós que com mais poesia do que ironia) o camaleónico artista francês, é afinal a reprodução fiel de um exemplar bicentenário encontrado pela cenógrafa e artista plástica Nadia Lauro no Jardim Botânico de Lisboa.

Mas é mais ele, Jonathan Capdevielle, autor, actor, cantor, bailarino, marionetista, ventríloquo e encenador (em menos palavras: o “touche-à-tout” do teatro francês, como define o Les Echos, tentando resumir o irresumível), do que ela, a árvore decepada, que está de regresso às origens em À Nous Deux Maintenant, a peça que esta semana (quinta e sexta-feira, às 20h30) chega à Culturgest, em Lisboa, um ano e meio depois de o artista francês ali ter trazido Adishatz/Adieu, um dos capítulos anteriores da autobiografia em construção que vem sendo a sua obra (por cá, também já o vimos em três espectáculos de Gisèle Vienne, de quem se tornou inseparável: Showroomdummies, Jerk e A Convenção dos Ventríloquos). Um regresso às origens figurado como uma carpenteriana imersão nas trevas (apesar da festa, rija, como diriam os antigos), na brutalidade sempre desumana da natureza, e na potência do combate, inesgotável, entre o Bem e o Mal tal como uma reserva moral da Europa do entreguerras, Georges Bernanos (1888-1948), o fixou em romances como Sous le Soleil de Satan, Diário de um Pároco da Aldeia, Os Grandes Cemitérios sob a Lua. Ou – para chegarmos onde verdadeiramente interessa, aos Alpes onde Capdevielle projectou os Pirinéus da sua infância, que seriam sempre doces, como na canção de Charles Trenet, se não fossem tantas vezes sórdidos – Um Crime, o policial “alimentar” que, contra certa relutância do escritor, a Plon o convenceu a publicar em 1935.

Febre

É para lá, para essas montanhas onde a gripe se propaga como uma peste, pondo uma comunidade à mercê dos fantasmas engendrados pelas alucinações da febre, que Georges Bernanos encaminha a figura central – um padre que afinal será uma mulher travestida, e lésbica – do falso policial que se pôs a escrever (a partir de Palma de Maiorca, onde se estabelecera, e de onde depois assistirá aos horrores da Guerra Civil Espanhola) para poder dar de comer à família. A editora, que o persuadira a imitar Georges Simenon, paga-lhe à página, ele entusiasma-se e escreve as primeiras 120 de rajada – mas depois, porque “on ne se refait pas”, cede às suas obsessões de escritor católico e transforma Um Crime (que em Portugal apareceu em 1957 na icónica Colecção Miniatura da Livros do Brasil) na arena algo paranormal das suas questões metafísicas e morais, retomando um tema que lhe será central, a mentira, e afastando-se definitivamente dos códigos de coerência e verosimilhança do plot policial convencional para se atolar na psicologia das personagens.

Meio século depois, quando Jonathan Capdevielle foi desafiado pela France Culture a encarnar o protagonista de Um Crime numa ficção radiofónica, e se transformou ele próprio no misterioso padre cuja chegada à pequena aldeia de Mégère coincide com a descoberta de dois homicídios, pondo em marcha um labiríntico inquérito policial, foi como se tivesse reencontrado a paisagem física e mental da sua infância proletária e recôndita, marcada pelos arcaísmos, mas também pelas epifanias, do mundo rural. Mas mais poderoso e decisivo, diz ao Ípsilon horas antes de viajar para Lisboa (é também um dos intérpretes do espectáculo), foi o reencontro, inesperado tratando-se de Georges Bernanos, com o tema-fetiche do seu próprio teatro radicalmente autobiográfico: “O travestimento e as questões de identidade e de género percorriam as minhas peças anteriores, Adishatz/Adieu [2009] e Saga [2015]. À luz disso, a heroína deste romance, uma mulher que se traveste de padre por estar apaixonada por outra mulher, em nome da qual aliás haverá de matar, era irresistível.”

Dupla, ou mesmo triplamente transgressora – homossexual, sacrílega, assassina –, a personagem do padre de Mégère, em que vê um remake perverso do Tartufo de Molière, ficou-lhe “gravada na cabeça” desde essa primeira montagem radiofónica. “Cresci numa aldeia perto de Lourdes, sempre cheia de padres, e por isso o universo bernanosiano é-me muitíssimo familiar. Toda a obra dele manifesta o desejo muito veemente de trabalhar a figura do padre – mas o que é particularmente extraordinário neste romance é que ao mesmo tempo que desmonta a impostura da religião defende a mentira, o disfarce, a duplicidade como recursos instrumentais para chegar à verdade”, argumenta.

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Pierre GROSBOIS
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Como na Bíblia

A Jonathan Capdevielle, que logo à primeira peça escolheu o travestimento como metáfora existencial, essa pareceu uma via extraordinariamente promissora perante a folha em branco que teve à sua frente quando decidiu regressar a Um Crime, desta vez para o pôr em palco. Passou muito tempo sozinho com o texto, do qual extirpou “todas as partes dialogadas” para construir com elas o esqueleto da peça, e concentrou-se em meia-dúzia de personagens (o padre, o juiz de instrução, o acólito, algumas criadas), nas quais injectou a atmosfera pantanosa desta aldeia infectada pela suspeita após a descoberta de dois cadáveres. Depois, atirou para o meio delas a figura do próprio autor, atormentado pela missão penosa de entregar um policial – ou melhor, um romance metafísico travestido de policial. “Achei importante que ele viesse ao palco  explicar como às tantas se deixou levar pela sua própria escrita, pelo seu próprio delírio”, justifica, esclarecendo que a correspondência trocada entre o escritor e a Plon, e que está publicada pela Pléiade, foi uma preciosa fonte de informação.

Na escuridão total dos primeiros minutos de À Nous Deux Maintenant, Bernanos é a primeira voz que se faz ouvir, militando pela sua melhor infância, passada num mundo “de grandes florestas e de pastagens” em que depois veio a fazer viver todas as personagens dos seus romances, e antecipando a questão que ocupará literalmente o centro do palco, a das raízes – “que me corresponde muito também”, admite o encenador. De resto, podiam ser dele as palavras que a voz de Bernanos diz a seguir (e dele é certamente a personagem do adolescente, cuja inocência veremos morrer): “A partir do momento em que pego na caneta, o que se levanta imediatamente em mim é a minha infância (…). [Mas] não se fala em nome da infância, é preciso falar a sua língua. E é essa língua, esquecida, que eu procuro de livro em livro, como um imbecil!”.

A seguir, muito lá ao fundo, aparecem as primeiras figuras de Um Crime, minúsculas, esmagadas pelo peso das suas vozes amplificadas – uma memória da ficção radiofónica original que Jonathan Capdevielle quis preservar, por querer que “o texto fosse dito ao ouvido do espectador”. De resto, o desencontro entre a lentidão do que se vê e a vertigem do que se ouve, entre o tableau vivant e um texto naturalmente denso, foi uma das operações mais complexas do processo de criação deste espectáculo que é também uma delicada construção coreográfica e musical, sublinha, notando que o IRCAM foi parceiro na criação da atmosfera sonora imersiva, e desvairadamente polifónica, de À Nous Deux Maintenant: “Os intérpretes dissociam-se fisicamente do texto, movimentam-se independentemente dele – e isso acentua-se com o desenrolar da peça, à medida que se instala um ambiente mais fantasmagórico, entre a vigília e o sonho, ou o pesadelo. Essa distorção foi muito trabalhada, porque era fundamental instalar um efeito de irrealidade.” Um efeito que também o pôs a remexer no cinema (Bernanos, de resto, é património muito cinematográfico: Robert Bresson filmou O Diário de um Pároco de Aldeia e Mouchette; Maurice Pialat filmou Ao Sol de Satanás): “Creio que por vezes esta encenação está mais próxima de certos filmes do que do teatro. Falo de John Carpenter, de [Henri-Georges] Clouzot, desse território entre o terror e o film noir. Sobretudo na primeira parte. No fim atiro o romance para o meu território pessoal, o País Basco [francês], com as suas ferias, as festas populares que misturam sagrado e profano. É aí que a verdade das personagens vai emergir.”

Em cima de um tronco descomunal, tão imponente como impositivo, porque este romance, diz Capdevielle, “é uma árvore genealógica”. A raiz que progressivamente sai da escuridão para se tornar fosforescente, atraindo a si as personagens, é a explicação para este whodunnit. Como na Bíblia, a árvore está lá desde o início. Todas as histórias, mesmo as sobrenaturais, são histórias de família.