Opinião

Murphy & Murphy

Repare no que Rio e Santana fazem debater: o que farei eu quando António Costa ganhar as próximas eleições.

A maior virtude da campanha eleitoral do PSD é que acaba já no próximo sábado. Já não há pachorra, pois não? Dois candidatos engalfinhados como rufias no recreio, alegando como se sentem quando se olham ao espelho e reinterpretando-se para explicarem os respectivos deslizes, esgaravatando no passado como se a eleição fosse em 2005 e não uma dúzia de anos depois, a imagem é má de mais. Mas, veja bem, tinha mesmo que ser assim.

A eleição directa serve para opor pessoas e não para escolher entre projectos ou políticas. Mais ainda, ao personalizar obsessivamente a disputa, estimula mesmo essa viciação do debate, enclausurando-o em personagens omnipotentes que, se eleitas, ficarão com um mandato horizontal, podem fazer tudo o que a sua verve indicar. Reclamarão uma legitimidade que é superior à dos órgãos eleitos do partido, é um mandato transcendente e monárquico. Nada de espantar que se discutam então as “carreiras”, os incidentes, as tais “trapalhadas”, porque são mesmo esses casos que definem a contenda pessoal. Esta forma de eleições, como é desejado pela doutrina das primárias, é uma forma de subverter os partidos, de destruir a sua vida interna evitando as formas de deliberação colectiva e personalizando o poder, de os submeter aos ditames da oligarquia mediática. As primárias são uma máquina de destruição da política e funcionam perfeitamente num partido como o PSD. Rio e Santana Lopes são intérpretes magníficos para este guião, com eles não nos podemos queixar de tédio (mas lembre-se do baixo nível da campanha das primárias do PS em 2014 e note que o hábito faz o monge).

Há depois o efeito da lei de Murphy. O PSD, que ainda pensa que não está no governo porque foi vítima de uma sórdida conspiração, não compreendeu nem perdoou ao país, que lhe fugiu das mãos. No PSD ainda se pensa que o impacto social das novas políticas, os resultados orçamentais, o recuo da pressão europeia e ainda por cima todas as sondagens são instrumentos maquiavélicos de uma mentira gigantesca. A direita vive amuada. Por isso, o PSD é o verdadeiro protagonista deste romance de cordel, em que Murphy se candidata contra Murphy. Melhor iria se fosse Dupont contra Dupond, sempre seriam parecidos mas não idênticos. Mas Murphy é igual a Murphy, pelo menos no que interessa a quem olha para o duelo e dele espera alguma ideia sobre a nossa vida: são gémeos no discurso da impotência. Repare no que fazem debater: o que farei eu quando António Costa ganhar as próximas eleições. Depois, o resto é cada candidato a explicar o que queria mesmo ter dito ontem e ficou confuso, mas agora afino em língua de gente, ou a criticar o outro por ter dito o que não pensa ou não ter pensado o que disse. É a lei de Murphy, tudo o que pode correr mal, corre pior.

As novidades, que são poucas, assustam. Pensava eu que Rio tinha abandonado a ideia sinistra de promover os votos nulos e brancos como truque para reduzir o número de deputados; não, ele insiste. Imagine a corrida populista para reduzir o Parlamento a golpes de insultos. Inventa ainda uma flutuação automática das pensões para que sejam cortadas quando de uma recessão, quando nesse momento deveriam servir como estabilizador automático. Que importa? Disparar é melhor do que argumentar. Santana Lopes garante, em alternativa, uma espécie de festa saudosista mas de memória selectiva: quer o PSD da Alameda, século XX, mas não quer que ninguém se lembre de onde estava quando estava no governo, século XXI.

Para o Governo, tudo óptimo. Rio quer poucochinho, Santana quer vingar-se do seu próprio passado. Fica outra direita, e é bom ir olhando para ela, a que vive de inventonas como o caso do bilhete de Centeno no Benfica, a que quer alguma degradação política porque do caos virá um novo D. Sebastião. Atenção a quem conta.

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