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A Ciência e os jornais digitais predatórios

Esta liberalização do mercado de publicação digital foi acompanhada, como acontece em qualquer situação, com o surgimento de concorrentes predatórios que jogam no meio legal cinzento

A Internet e o mundo digital têm vindo de forma galopante a substituir gradualmente os média impressos em todas as suas facetas. A publicação de artigos científicos não é excepção. De facto, poucas são as instituições académicas com subscrições físicas de jornais ou revistas científicas, que são maioritariamente de tiragem muito limitada. Na última década, esta revolução tem vindo a dar um passo ainda mais adiante, já que, para além de se ter feito a transição quase exclusiva para o meio digital, há uma discussão pública de que essa divulgação deve ser de acesso livre e aberto a qualquer um. De facto, a maior parte da investigação científica é financiada de uma forma ou outra com dinheiro público, mas segundo o formato antigo, para um membro qualquer desse mesmo público ter acesso à investigação, era necessário ter uma subscrição dos maiores grupos editoriais ou comprar/alugar o artigo com que ele próprio tinha contribuído para financiar.

Foram assim surgindo, primeiro timidamente e de nicho, mas eventualmente crescendo a um ritmo galopante, jornais de acesso livre, acompanhados por políticas institucionais favorecendo (ou mesmo obrigando) a publicação de qualquer resultado por si financiado em jornais de acesso livre. Porém, esta liberalização do mercado de publicação digital foi acompanhada, como acontece em qualquer situação, com o surgimento de concorrentes predatórios que jogam no meio legal cinzento.

Hoje em dia, as caixas de spam das universidades e institutos são atulhadas com e-mails do tipo “Caro Dr. INSERIR NOME. O jornal NOME CIENTÍFICO GENÉRICO está à procura de contribuidores. Pode fazer a submissão no nosso site, garantimos o processamento gratuito do artigo muito rapidamente e todas as submissões são revistas por pares.” O que não é mencionado é que, de facto, o processamento do artigo em pré-publicação é gratuito, mas imediatamente antes da publicação é apresentada ao investigador uma conta de centenas ou mesmo milhares de euros para “custos de publicação”. Nesta altura do processo, o investigador terá já investido tempo a formatar e escrever o artigo de acordo com as especificações do jornal, e, mais grave ainda, ao comprometer-se com esse jornal não pode submeter o trabalho a mais nenhum outro enquanto não houver uma decisão final.

Na melhor das hipóteses, esta prática consegue atrasar a divulgação de ciência que seria útil à comunidade científica e mesmo ao público em geral. Adicionalmente, tendo em conta que os custos de publicação destes jornais serão mínimos, semelhantes aos de manter um blog com autores voluntários, esta estratégia de negócio é altamente rentável quando conseguem arranjar presas distraídas ou inocentes o suficiente para não perceberem no que se estão a meter. O modo agressivo de marketing, em que se sugere ao alvo (a que se chegou com um algoritmo que analisa bases de dados para arranjar endereços electrónicos), escolhido pelo seu trabalho próprio e mérito, que tem de passar por selecções falsas mas trabalhosas antes de ser apresentado um custo final nunca antes mencionado, não é necessariamente ilegal e é infelizmente comum mesmo noutros produtos, como a própria Web Summit.

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Diogo Trigo é neurocientista na Universidade de Aveiro

Porém, não ser ilegal não quer dizer que não seja digno de recriminação. O jornalista John Bohannon denunciou alguns destes jornais em 2013, quando submeteu um artigo deliberadamente mal estruturado e com erros científicos, tendo observado que mais de metade dos jornais de open access aceitaram o artigo falso. Para levar as coisas ainda mais além, no ano seguinte um desses jornais gerou um ficheiro .pdf e aceitou a publicação imediata (mediante o pagamento da “taxa de publicação”, claro está) de um manuscrito submetido por Peter Vamplew que consistia apenas na frase “Get me off your fucking mailing list” repetida ao expoente da loucura, com introdução, discussão, e uma figura com legenda. As histórias começaram a suceder-se em catadupa, com um cientista fictício gerado por quatro colegas, incluindo um CV falso com publicações e livros inventados, a ser aceite para a posição de editor para 360 jornais (Nature).

Estes casos ridículos ilustram uma história que parece ser uma brincadeira inocente, mas que na verdade consome recursos, corrompe o processo científico, e compromete a ideia bastante nobre de facultar o acesso à informação científica.