Leitores interessados em Trump compram Fire and Fury errado

O livro de 2008 sobre os bombardeamentos à Alemanha durante a II Guerra Mundial está a ser comprado por leitores que julgam estar a adquirir a obra de Michael Wolff.

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A corrida à compra do livro provocou longas filas de espera Reuters/SHANNON STAPLETON
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Livro está esgotado em vários pontos de venda LUSA/SHAWN THEW
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Michael Wolff é um autor polémico Reuters/BRENDAN MCDERMID

O livro Fire and Fury é um dos títulos mais comentados das últimas semanas. A obra de Michael Wolff prometeu revelações sobre Donald Trump e conquistou a atenção a nível mundial, mesmo antes de chegar às bancas. O inquilino da Casa Branca desmentiu o conteúdo e tentou impedir a sua publicação, o que antecipou a data de lançamento do livro. A curiosidade marcou o ritmo na corrida à obra, gerando longas filas de espera. E houve quem apostasse na compra online em sites como a Amazon. No entanto, a existência de um outro livro, publicado em 2008 mas com o título Fire and Fury em letras garrafais na capa, levou ao aumento de vendas da obra do professor universitário Randall Hansen, sobre os bombardeamentos à Alemanha feitos pelos Aliados durante a II Guerra Mundial.

Numa conversa com o jornal The Guardian, o professor da Universidade de Toronto confessa que chegou, num tom jocoso, a comentar com os seus colegas a similaridade do título dos dois livros. Publicado há dez anos, Fire and Fury: The Allied Bombing of Germany, 1942-1945 não era, até à obra de Wolff, um livro procurado pelos leitores. No entanto, quando Randall Hansen consultou a sua conta na Amazon na última sexta-feira ficou surpreendido ao ver que as vendas do seu livro dispararam e estava em três listas de best-sellers na Amazon.

Quando percebeu que o livro estava a receber críticas e comentários negativos de leitores que se sentiram “enganados”, teve dificuldades em aceitar que existissem tantos leitores confusos. “Divertiu-me, mas ao mesmo tempo parte de mim ficou a pensar: as pessoas são assim tão burras para confundirem estes livros?”, questionou.

No seu Twitter, o professor canadiano pergunta se com o aumento das suas vendas vai ter de pagar direitos a Steve Bannon ou a Donald Trump.

Uma das críticas ao livro mais recentes na Amazon é de um utilizador que se queixa de não ver “qualquer referência a Trump” e por isso não percebe por que é que os democratas estão a falar tanto sobre esta obra. Mas também há quem compre o livro de Hansen num “protesto” contra a obra de Wolff. 

Para além de serem de dois autores diferentes, os dois livros usam a expressão “Fire and Fury” com uma atribuição completamente distinta. Enquanto Wolff recupera a expressão usada por Donald Trump na ameaça contra a Coreia do Norte, o livro de Hansen refere-se ao “fogo e fúria” contra os civis na Alemanha, durante a II Guerra Mundial, tal como ilustram as respectivas capas de cada livro.

Por outro lado, Hansen diz em declarações ao Washington Post que apesar de não ser “fã” de Trump – por o considerar “impulsivo e infantil” –, está grato pela associação que está a ser feita entre a sua obra e a Administração Trump. “Se mais pessoas lessem o meu livro e reflectissem nas consequências horríveis da guerra para as populações, as aprendizagens seriam positivas“, justifica. “É particularmente importante quando temos um demagogo instável na Casa Branca, que está sempre a ameaçar com a guerra e com o recurso a armas”, acrescentou. 

Fire and Fury de Wolff continua a esgotar

Apesar das vendas “perdidas” para o livro de Hansen, o polémico Fire and Fury: Inside the Trump White House não sentiu o impacto da confusão nas suas vendas, que, de acordo com a editora do livro, já obrigou à impressão de mais exemplares.

Na segunda-feira, o autor esteve no programa Late Night Show With Stephen Colbert, transmitido na CBS, onde respondeu às perguntas relacionadas com a veracidade dos factos no livro e à credibilidade do mesmo. O apresentador questionou Wolff sobre a existência de gravações e perguntou ao autor por que não as publicava, para que sustentassem as revelações que escreve no seu livro. Wolff, cuja credibilidade foi já questionada em vários media, descarta as gravações e insiste que o seu trabalho é dar aos leitores conteúdo onde possam reflectir sobre se isso faz sentido de acordo com as informações que já dispõem.   

Wolff ressalvou que está consciente que cada uma das mais de 200 pessoas próximas do ciclo de Donald Trump que entrevistou “mentem à sua maneira, porque é assim que funciona na Casa Branca de Trump”.

No livro, Wolff deixa um aviso na introdução, reproduzido no Twitter de um jornalista da NBC. Deixa claro que o seu método dá voz a várias versões dos acontecimentos reveladas pelos entrevistados que são muitas vezes “descoladas da verdade, se não mesmo da realidade”. “Por vezes deixei os intervenientes darem as suas versões e permitir ao leitor julgar. Noutras alturas, devido à consistência dos relatos e de fontes em que passei a confiar, fiquei-me por uma versão dos acontecimentos que creio ser a verdadeira.”

Wolff sublinhou que foi capaz de publicar o livro porque, ao contrário dos seus colegas, ele não tem de voltar à Casa Branca. O autor disse ainda estar surpreendido com a polémica do livro. "Achava que já todos sabiam disto”.