Vários manifestantes iranianos detidos em protestos morreram na prisão

Europa fortalece apoio ao acordo nuclear enquanto Trump considera sanções ao país.

O líder máximo do Irão declarou que os protestos estão controlados
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O líder máximo do Irão declarou que os protestos estão controlados DR
O MNE iraniano, Mohammad Javad Zarif, será recebido em Bruxelas por Francesca Mogherini
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O MNE iraniano, Mohammad Javad Zarif, será recebido em Bruxelas por Francesca Mogherini ALEXANDER ZEMLIANICHENKO/EPA

Nas fotografias, Sina Ghanbari parece mais jovem do que os 23 anos. O estudante morreu na prisão depois de ser detido por participar nos protestos que começaram no Irão nos últimos dias do ano passado – as autoridades dizem que se suicidou depois de entrar na chamada “secção de quarentena” da cadeia de Evin.

Ghanbir será um entre vários casos de detidos que morreram sob detenção, denunciam activistas dos direitos humanos no Irão. É, até agora, o único nomeado, mas a Amnistia Internacional mencionava outras quatro mortes nestas circunstâncias. “O manto de segredo e a falta de transparência sobre o que aconteceu a estes detidos é alarmante”, dizia a organização.

Depois de, em 2009, terem sido relatados casos de grande violência contra manifestantes que protestaram pela reeleição, vista como fraudulenta, do então Presidente Mahmoud Ahmadinejad, teme-se que as forças de segurança repitam a tortura.

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— Amnesty Iran (@AmnestyIran) January 10, 2018 The shroud of secrecy and lack of transparency over what happened to these detainees [in Iran] is alarming"

A advogada Nasrin Sotoudeh disse ao diário britânico The Guardian que duvidava da versão oficial de suicídio e lembrou que, “em 2009, demorou semanas até que a escala de brutalidade em Kahrizak [prisão em Teerão] fosse revelada”.

Deputados reformadores disseram ainda que o número de detidos será muito superior ao que anunciaram as autoridades, 450 pessoas. Mahmoud Sadeghi disse que podem ter sido detidas mais de 3700 pessoas, incluindo entre 40 e 68 estudantes.

Familiares dizem não conseguir ter informação sobre pessoas que podem estar detidas.

O ayatollah Ali Khamenei, a autoridade suprema no Irão, discursou na terça-feira em Teerão e falou nos protestos – que começaram no final do ano, tudo indica que instigados por uma facção do regime contrária ao Presidente, Hassan Rohani, para alastrarem em manifestações contra as desigualdades económicas e a corrupção. Foram controlados pelas autoridades através de cortes no acesso a sites, a aplicações de redes sociais e ao envio de Guardas de Revolução, a força de elite do regime, para os locais com protestos.

Khamenei disse que as manifestações acabaram e que o Irão conseguiu impedir o que dizem ser uma tentativa dos seus inimigos para transformarem um protesto legítimo numa insurreição contra o regime. O discurso foi acompanhado por uma série de tweets em que o ayatollah diz aos “EUA, Grã-Bretanha, e todos os que tentam derrubar a República Islâmica” que falharam desta vez e “vão continuar a falhar no futuro”. Falando do “homem que está na Casa Branca”, Khamenei disse que “tem de perceber que estes episódios não vão ficar sem resposta”.

Donald Trump está prestes a decidir se volta a impor sanções ao Irão na sequência da sua opção de não declarar que o país está a cumprir o acordado sobre o nuclear firmado com o seu antecessor, Barack Obama (e que foi assinado também pela União Europeia, China e Rússia, além de estar consagrado numa resolução do Conselho de Segurança da ONU).

Para mostrar um contrapeso aos EUA, a União Europeia vai reafirmar o seu apoio ao acordo e a responsável pela diplomacia da União Europeia, Federica Mogherini, irá reunir-se em Bruxelas com responsáveis do Irão, Reino Unido, França e Alemanha.

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Mohammad Javad Zarif, deverá encontrar-se nesta quinta-feira com Mogherini. Um diplomata resumiu à agência Reuters que “o objectivo é enviar uma mensagem a Washington de que o Irão está a cumprir e que é melhor ter o acordo nuclear do que isolar Teerão”.