Astronauta cresce nove centímetros? Afinal foi engano

Japonês Norishige Kanai corrige informação que tinha dado no Twitter e afinal cresceu dois e não nove centímetros. O crescimento no espaço é normal e acontece devido à microgravidade.

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O astronauta japonês Kanai, antes de entrar na cápsula Soiuz que o levaria à estação espacial REUTERS/Kirill Kudryavtsev/Pool

O astronauta japonês Norishige Kanai anunciou na terça-feira que cresceu nove centímetros desde que chegou à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla inglesa), há pouco mais de 20 dias. A notícia correu o mundo, até porque o astronauta receava não caber na cápsula que o trará de volta à Terra, em Abril. Mas afinal, diz ele agora, tudo não passou de um engano nas medições.

Nesta quarta-feira, Norishige Kanai revelou que terá havido um erro nas medições e que afinal cresceu apenas dois centímetros, um valor considerado normal.

"Peço desculpa por ter publicado uma notícia falsa", escreveu o astronauta no seu Twitter em japonês.

Norishige Kanai revelou que o comandante da ISS, o russo Anton Shkaplerov, ficou céptico quando soube dos alegados nove centímetros. "Por isso, medi-me rapidamente e estava com cerca de 182 cm, mais dois centímetros do que a minha altura na Terra", escreveu o astronauta. "Portanto, foi um erro de medição (?), mas parece que há muita gente a falar disso", acrescentou.

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O astronauta pouco antes de ser lançado para o espaço REUTERS/Shamil Zhumatov

O crescimento no espaço é normal e acontece a quase todos os astronautas, que ganham entre dois a cinco centímetros de altura durante a sua estadia espacial. Este crescimento deve-se à pouca gravidade que há no espaço – quando regressam à Terra, regressam também ao seu tamanho normal, por força da gravidade.

Um bom exemplo é imaginar que a coluna vertebral humana é como uma mola: quando está sujeita à força da gravidade terrestre, fica compactada; se estiver no espaço, com pouca gravidade, pode “relaxar” e ficar mais esticada, fazendo com que fiquemos mais altos. Algo similar acontece quando nos deitamos durante algum tempo, o que justifica que acordemos ligeiramente mais altos do que quando nos deitamos.

Isto acontece porque a nossa coluna vertebral é composta não só por vértebras mas também por um tecido cartilaginoso. Segundo explica o cirurgião russo Vladimir Joroshev à agência RIA Novosti, este tecido é muito flexível e susceptível de sofrer mudanças quando a carga sobre a coluna vertebral é diminuída, o que leva a um alargamento do tecido cartilaginoso dos discos intervertebrais e a um consequente aumento do comprimento dos astronautas. 

Num artigo publicado há alguns anos pela agência espacial norte-americana NASA sobre o crescimento dos astronautas no espaço, é referido que, por norma, este aumento não causa problemas. Mas pode sê-lo, já que os seus fatos espaciais são feitos à medida e têm de ser feitos deixando uma margem para este crescimento.

No tweet de terça-feira, Kanai explicava em japonês: “Cresci como uma planta aqui em apenas três semanas. Nunca me tinha acontecido algo assim desde o secundário. Estou um pouco preocupado sobre se caberei no banco da Soiuz [cápsula russa utilizada no transporte dos astronautas] no regresso”.

Agora, o japonês de 41 anos, que trabalha na Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial e está na sua primeira viagem espacial, sente-se "aliviado" e considera que "provavelmente" caberá na cápsula quando voltar à Terra em Abril.

O caso dos gémeos Kelly

Para estudar as alterações ao corpo humano no espaço, a NASA fez um estudo que envolvia dois gémeos astronautas: um deles ficou em terra, e o outro passou um ano no espaço, a bordo da Estação Espacial Internacional. Nas primeiras conclusões do estudo, publicadas em Fevereiro, era revelado que o corpo do astronauta Scott Kelly tinha mudado subtilmente.

Em comparação com o seu irmão Mark, Scott Kelly cresceu cinco centímetros enquanto esteve no espaço. Regressou à Terra no início de Março de 2016. Os resultados deste estudo podem ser, segundo a NASA, importantes para avaliar o impacto que teria uma viagem até Marte no ser humano, viagem essa que, no total, pode durar até cerca de dois anos.

Além do crescimento, os astronautas tendem a ficar também com uma estrutura óssea mais fraca – já que passam a flutuar em vez de caminhar assim que chegam à estação –, músculos mais frágeis, problemas de equilíbrio e até um coração mais pequeno.

O cosmonauta russo Anton Shkaplerov (no centro), o astronauta norte-americano Scott Tingle (à direita) e o astronauta japonês Norishige Kanai (à esquerda). É a terceira missão do russo à Estação Espacial Internacional e a primeira dos outros dois astronautas Reuters/POOL
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Há 21 dias no espaço

A cápsula espacial que transportou o astronauta japonês a 17 de Dezembro – atracando dois dias depois na estação espacial, situada a cerca de 400 quilómetros da superfície terrestre – levava também a bordo o astronauta norte-americano Scott Tingle (da NASA) e o cosmonauta russo Anton Shkaplerov (da agência russa Roscosmos). Os três juntam-se aos tripulantes que já estavam na estação espacial desde Setembro: Alexander Misurkin, da Roscosmos, e Mark Vande Hei e Joe Acaba, da NASA – estes três últimos permanecerão na estação espacial até ao próximo mês.

Kanai e os outros dois astronautas mais recentes a bordo ficarão mais quatro meses a trabalhar e a viver na Estação Espacial Internacional. Segundo a NASA, desenvolverão durante a sua estadia cerca de 250 investigações científicas em áreas como a biologia, as ciências da Terra e tecnologias.

A Estação Espacial Internacional, que dá 16 voltas à Terra por dia, já recebeu mais de 50 missões nos seus 17 anos de funcionamento — durante todo esse tempo, houve sempre humanos a bordo. Ao todo, são mais de 200 os humanos que lá viveram, originários de 18 países (como a Suíça, o Canadá e a Alemanha). com H.D.S.

Notícia actualizada às 7h58 de 10/01/2018, com a informação de que o astronauta corrigiu a informação inicial e afinal cresceu dois e não nove centímetros.