Crítica

Sonhos para dançar por DJ Lycox

O habitat natural da música de DJ Lycox é ainda a pista de dança, mas existe muita respiração espacial por entre a dinâmica rítmica.
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Noite Príncipe no MusicBox Bruno Castanheira/Arquivo

A aventura editorial portuguesa Príncipe Discos continua com o rumo certo, como se pode depreender do facto de alguns dos seus lançamentos de 2017 (com destaque para o álbum Nídia é Má, Nídia é Fudida, de Nídia) constarem em várias listas dos melhores do ano para diversas publicações de todo o mundo.

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Um dos lançamentos mais significativos da editora ocorreu precisamente no culminar do ano que terminou. Falamos do duplo EP de doze temas de DJ Lycox, um dos membros do colectivo Tia Maria Produções, que viram o disco Tá Tipo Já Não Vamos Morrer, ser lançado pela mesma editora em 2014. Lycox, de apenas 19 anos, nasceu em Portugal e viveu em Mira Sintra até ao início da adolescência, acabando por se mudar com a família para um dos territórios suburbanos de Paris, onde ainda reside.

Como outros parceiros da mesma aventura editorial o seu léxico é quase sempre instrumental, dançante e inspirado em linguagens como o kuduro, o afro-house ou o tarraxo, que concilia com elementos tropicalistas mais globais. Ao contrário de outros músicos-produtores da mesma editora, pelo menos neste disco, não faz do desvario e da apoteose rítmica a sua marca, optando quase sempre por desenvolver elementos melódicos e propor alguma respiração espacial, apesar da base rítmica ser decisiva.

É um disco mais de sonhos do que de pesadelos, apesar dos ambientes negros e neuróticos e da dinâmica quase tecno de La java, Nichako ou de Quarteto fantástico. No entanto, quando se ouve Solteiro, Virgin Island, Sky ou o balanço quase house de Domingo abençoado, o que vem ao de cima é o equilíbrio do design sonoro global, com ritmos mais desacelerados e a criação de ambientes mais sensíveis.

É verdade que na maior parte dos lançamentos da editora (Marfox, DJ Firmeza, Nigga Fox, Normal Nada, Black Sea Não Maya ou Nídia) se vislumbra suficiente maleabilidade para propostas onde a adrenalina coabita com espaços mais tranquilos, mas talvez nenhum até agora o tivesse conseguido com a mesma simplicidade e naturalidade que Lycox.